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2 Contos: “VOCÊ JÁ TEVE SEU DIA GAY?” e “Quando eu vim para este mundo

Conto “VOCÊ JÁ TEVE SEU DIA GAY?”

Não importava nada o lugar ou cultura. Não importava religião ou proibição. Há dentro de nós o “quem eu sou”, que muda tudo, não importa o lugar do mundo.

Assim foi com ele, que, praticamente, nasceu marcando o ritmo do karaokê, de microfone na mão. Ah, mas o sistema oriental é mais fechado – como criança, apenas segurava o microfone e repetia e repetia que queria ser uma estrela.

Com bullying ou sem – “eu quero ser star”. Apanhando ou não - “eu quero ser star”.

Sendo chamado de estranho ou não - “eu quero ser star”.

Nasceu num corpo de menino – estranho corpo – mas não era menino, era menina, num corpo de menino. Era uma estrela escondida num corpo idiota de menino.

Com “reza”ou sem, foi em busca de seu corpo. Não queria ter “ovos”, “bolas”ou seja lá o que era aquilo. Operou-se. Olhava-se no espelho e agora via-se – era uma menina. Uma estrela!

Ninguém havia “plantado”aquela menina dentro dela. Apenas era seu destino ser menina.

Pensava na passeata gay e logo pegava seu microfone imaginário. Aprendeu a cantar, a dançar e no dia 7, pegou seu maior salto, sua roupa anime, sua peruca mais linda e foi.

Nada ali era estranho, a não ser o preconceito.  Sua mãe fez-lhe o vestido – lindo, todo bordado. Naquele dia tudo era brilho, beleza. Dentro de seu coração, só havia lugar para o amor: ela finalmente diante de quem era, a mulher maravilhosa, a estrela, as pessoas felizes nas ruas, o canto em uníssono, a voz que amava o espaço do entretenimento, da música e do stand up, o público sorrindo, batendo palmas, o alto dos carros.

Era seu mundo, sua cara, sua casa, nada estranho.

Passeata gay era aquele pequeno contratempo necessário à sociedade. Aquele pequeno luxo a qual todos deveriam nascer com direito. O direito de ser, sermos, vivermos. Sem diferenças.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Quando eu vim para este mundo”

O mundo diz que o que é certo é homem casar com mulher, mulher casar com homem. Mas quem é o mundo? Dizem que o mundo são as pessoas. Mas que pessoas? Dizem que quando falamos “pessoas”, significa que falamos dos homens, porque foram e são os homens que ditam as regras desde que o mundo começou.

Dizem que sou masculina, ou andrógena – “mistura ou ambiguidade entre características masculinas e femininas em um único indivíduo”. Quando um dia me vi ao espelho, também achei. Mas, e aí? Preciso mudar porque o mundo, as pessoas, isto é os homens decidem isso? Mas se nasci assim porque terei de mudar, só que porque outras pessoas não gostam? Isso significa que eu posso mandar cortar a barba de um homem com quem me cruzo na rua?

Eu nasci e cresci sendo um ser que todos consideram fora do padrão e portanto isso lhes dá o direito de rir de mim? De dizer como devo ser?

A escolha seria fazer de conta que sou igual a todos, fingir que me agradam as regras e fazer o que todos fazem? Eu mulher, caso com homem? Olhe, foram tantas aprendizagens, tantas regras engolidas, que até aceitava tudo. Comecei a namorar mais por pressão de todos em minha volta do que propriamente por ter vontade. Mas gente, como é bom estar só e não ter namorado para ter de andar de mão dada, para não ter de ficar do lado dele sossegada, para vestir roupas que não te deixam viver a vida. Como é bom não ter compromisso e obrigações de namorados. Para quê isso? Mas enfim, lá aceitei namorar, afinal, tinha 18 anos e ainda nenhum namorado, o povo ia desconfiar, o povo ia começar a chatear a minha vida. Ok, vamos lá namorar com esse moço que não me larga. Mas ele ainda me prendeu mais a partir daí. Aparecia em todos os lugares onde eu estava, nunca mais pude estar com outras pessoas conversando, sem ele estar do lado. Nem ir a lado nenhum sem ele ir. Nem mesmo quando ia sozinha para a faculdade, me livrava das perguntas sobre ele – onde está, porque não veio, etc. Não gostei dessa prisão. Coisas boas não são prisões.

Hábitos se tornam normas, se tornam oxigênio. Quando não estava com ele, passei a sentir falta. Quando estava com ele, não olhava para mais lado nenhum. Vida triste, repetitiva, sem graça. Mas diziam que isso era o amor. Bom, se isto é o amor, se é isto que as pessoas procuram toda a vida, não posso desperdiçar. Afinal sou uma sortuda, ter descoberto esta coisa sem graça que dizem ser o amor. Meus pais tiveram 3 filhos, então talvez seja agradável também ter 3 filhos, ou quem sabe mais de 3. Vejo meus pais tão felizes que vou tentar ter uma vida parecida, logo feliz. E assim casei, assim tive 2 filhos – um casal – assim fiz tudo o que uma mulher faz, perante as regras do mundo dos homens. Acho que fui feliz, pelo que dizem que é a felicidade. Tive dois filhos saudáveis, estudiosos, que estão bem na vida, pelo menos profissionalmente. Estão se encaminhando para ter filhos também, por isso serei avó em breve.

Fiquei viúva. Ele me fez falta, muita falta. Senti dores insuportáveis, senti vontade de deixar de viver, senti com muito mais força aquela vontade de estar sempre com ele. Me deixou vazia a sua ida. Construímos algo que nos fez sentir orgulhosos – filhos, competência nos nossos trabalhos, amigos. Agora olho para tudo o que tínhamos e que agora é apenas meu e não faz mais muito sentido. Para quê a casa de praia e a casa de campo e as férias sempre naquela praia onde nossos filhos aprenderam a nadar e fizeram os primeiros amigos? Sinto como se estivesse a caminhar para o nada, ao voltar a esses lugares onde fui tão feliz e agora vou tão vazia.

Meus filhos querem que eu saia, continue a ir ao cinema, ao teatro, ópera, bailado. Mas não tenho vontade de ir sozinha. Insistem para eu ir com uma das nossas amigas, que é lésbica e também está viúva. Gosto muito dela, mas agora como viúva, não me sinto confortável em sair com ela. Adquiri preconceitos bizarros que não tinha em jovem e não quero que as pessoas me vejam com ela, com medo que pensem que somos um casal. Como eu fiquei assim? Uma pateta? Como eu decidi aceitar as regras da vida, do mundo, das pessoas, dos homens, de tal maneira que até fiquei uma pessoa parva, que me desaponto a mim mesma? O que interessam as pessoas e o que elas dizem? Ela é tão minha amiga que aceita ir comigo às atividades que eu gosto. Isso me devia bastar, mas não consigo. Meus filhos estranham meu comportamento, afinal sempre lhes ensinei a respeitarem todas as pessoas e a não ligarem para o que os outros pensam. Mas dentro de mim existe um travão, algo que me censura, algo que me impede de ser livre. Como é possível? Fugi tanto de mim, da minha forma de ser tão andrógena e masculina, do medo de ser censurada, do medo de não fazer parte das reuniões da rua, do condomínio, da família, do trabalho, das escolas dos meus filhos, que me tornei uma pessoa que não admite as pessoas como eu, com meu aspecto. Como eu fui capaz de chegar a este lugar? Morta de medo de ser colocada de lado, eu mesma me coloco e noto que ao fazê-lo, olho as pessoas com censura – homens femininos e mulheres masculinas me fazem imediatamente ter uma sensação de nojo.

Bom, não posso ser isto mais. Terei de me rever. Terei de me reinventar. Minha filha trouxe hoje a novidade de que vai casar com uma mulher e meu filho com a novidade de que vai casar com um homem. Tenho de ser capaz de ser a mãe que eles merecem, de novo. E ser apenas, sem censura. Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou sempre assim, vou ser sempre assim.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Salvador Dali


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