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2 Contos "Veja bem..."


Conto “O XIXI DE IAIÁ”

Ia saindo de casa e lá estava ele – o cheiro de xixi.

- Gente, de novo isso?

Passada, já pegou uma água com sabão pra jogar ali no cantinho da parede.

- Cheiro horrível... Não é porque eles têm o “apêndice, o aquilo” que podem “puxá-lo pra fora das calças” o tempo inteiro...

E foi caminhar.

- Salvador deve ser a capital do xixi, não é possível!

Em diversos lugares, lá estava ele – o cheiro insuportável. Nenhuma campanha educativa, nada. Era só: “A melhor prefeitura do Brasil”

– Ahn?

É como se o “aquilo” deles fosse uma “atração turística”.

- Querem ver “aquilo pra fora”? Em Salvador tem! A gente é multado de carro por qualquer motivo, mas quem faz xixi na rua afronta quem passa e não leva nem um olhar atravessado da Prefeitura!

Caminhou como todos os dias, “cheirando” o resultado das noites da cidade. Mas na descida da ladeira da sua casa – lá estava! – o homem fazendo xixi. “Pessoalmente. As “coisas” pra fora, o muro se molhando, os vergalhões das colunas já para fora. Houve um prefeito que reclamava do dinheiro que gastava para refazer muros e viadutos – sim, por causa do xixi. Milhões!

- Verão em Salvador, turismo em Salvador, xixi em Salvador o ano inteiro! O turismo do xixi! O elo histórico entre todos os extratos sociais, todas os graus de instrução; a coisa que os homens tinham em comum historicamente com a cidade – o xixi.

Passada, passou pertinho do homem, que sem ligar a mínima, balançou “a coisa” e a “enfiou” pra dentro da bermuda – às 9 horas da manhã de uma sexta-feira de outono.

- É colossal. É universal – o nível de porcaria...

- Que nojo...

E o homem, sem suspeitar da rejeição, solta ainda:

- Gostosa!

Olhou um ponto a sua frente e passou, rápida.

- Ufa...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Imagina você...”

- Menino, você nem imagina o que eu vi na rua...

- Uma mulher carregando roupa de cama na cabeça? São elas mesmo que ainda lavam e passam a roupa. É verdade e atual no século XXI da Bahia. Vejo sempre uma descendo a Centenário. Uma senhora encantadora.

- Não, não, não é isso não. Eu também a conheço. Delicada, doce, parece vinda de um outro mundo quase que perfeito.

- É o quê então? O senhor que vende vassouras na rua? É também algo comum nas ruas. Tem mesmo um que passa aqui em Ondina, muito magrinho, já bem velhinho, mas quando solta a voz – “Vaaaa....ssoureiiiii...ro!”- é impressionante.

- Também não. Eu adoro esse senhor. Também delicado, também super doce. É outra coisa, outra situação.

- Nossa, estou ficando perdida. Será que você viu o senhor que afia facas, tesouras, etc? Ele é muito conhecido também. Vem lá do Rio Vermelho e passa em Ondina. Depois não sei os outros percursos, mas ele falou um dia que foi com essa profissão que pagou os estudos dos filhos e que vai continuar até morrer. Faz muitos quilómetros por dia, com sua rodinha cheia de surpresas. Tem um som conhecido para avisar quando passa. É muito fofo.

- Também não é ele não.

- Ah, já sei. Você viu os caras que dormem na rua por todo o lado, junto com os cachorros, com o lixo, com o cheiro de xixi, escondidos por detrás das árvores ou bem do lado dos seus passos quando caminha pelas ruas. Os ricos dizem que cidade está limpa e parece estar para quem circula de carro ou “limusine”. Para quem caminha pelas ruas é outro cenário.

- Infelizmente isso que você falou é tão normal... E os que precisam resolver, os que mandam na cidade, dizem que isso não existe. Acham que já está resolvido porque está no papel e nos seus discursos. Esse assunto é um sinal grave de um monte de problemas – o fim de linha das cascatas de problemas das cidades preparadas apenas para turistas e ricos. Não é isso não.

- O que pode ser? Estou quase desistindo de tentar adivinhar. Será o rico que passeia com seu cachorro e não limpa o cocó do bichinho? Mesmo se o bichinho fizer suas necessidades em frente da porta das casas ou prédios dos vizinhos? Temos muito disso...

- Também não. Infelizmente isso ainda é normal.

Mas não é.

- Ué... As galinhas que têm a capoeira em cima de um muro? O lixo que algumas pessoas atiram para o outro lado da calçada, logo pela manhã? E metade dele sai voando antes do saco cair e se esparramar? Os cavalos que comem nos terrenos baldios?

- Noup

- Os caras que fazem cocó bem na tua frente?

- Noup

- As transas com prostitutas bem na mata na frente da tua casa? Na luz do dia? Tipo cinema ao ar livre?

- Noup

- Desisto. E já estou com medo do que será. Vá, fala logo...

- Uma mulher caminhando na rua, num dia de sol incrível, de guarda-chuva. Em plena cidade de Salvador, na Bahia. Vê se pode uma coisa dessas... Gente maluca...

- É memo? Realmente...

Ana Santos, professora, jornalista



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