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2 Contos: “TUDO ISSO NO BONFIM LOTADO” e “Quinta das Lágrimas”

Conto “TUDO ISSO NO BONFIM LOTADO”

              - Você viu a vaia no prefeito, menina?

              - Oxente e não vi? Naquele sol de meu Deus? E ACM Neto ali de pé dando adeus e tomando vaia lado a lado com o prefeito... ninguém mais vê político com devoção, não... Isso morreu com o Cabeça Branca...

              - Também não to entendendo mais o Bonfim... até tiro saiu... e o pessoal ta bebendo demais, rapaz... Antigamente, as festas de largo todas tinham uma parte do dia onde se podia ir sem susto. A gente ia bem cedinho e pronto, pegava a devoção antes da perdição... Que é isso que você ta procurando no celular?

              - To aqui olhando a movimentação. Olhe, já vi que está lotado. Lotadíssimo! Meu Deus, um calor desses... será que a gente vai encontrar água pra todo mundo?

              E assim foi passando o dia. Campo Grande cheio, Barris também, Centro ninguém suportava. Saiu tiro de verdade e eu nunca tinha ouvido falar de lavagem do Bonfim com tiro e morte. Afinal, a gente transformou as festas de largo em quê? A última vez que fui em Iemanjá – era ainda antes da alvorada e desisti de voltar, tanta gente que vi virada na cana, sem ter ido em casa dormir. Essa coisa de chegar na festa cheirosinho e arrumadinho não é mais assim não.  Trocaram iemanjá pelo xixi na praia.  Aliás, Salvador continua sendo a capital do xixi – não tem campanha educativa pra nada.

Os turistas chegam e veem milhões de pessoas cordiais fazendo um esforço enorme para organizar as ruas lotadas. Os portais de carnaval podem ser ótimos pra detectar armas, mas atrapalham muito o escape de pessoas, na Avenida. Se aparecerem 6 abelhas – nem precisa ser a colmeia toda – tem gente morta com certeza, em Ondina. Isso e a bebida – muita - vendida em corredores de caixas de isopor, que tiram a capacidade da gente de fugir pra algum lado e de alguma coisa - como a onda incrível de energia do trio da Ivete.

Aquilo que era uma coisa boa, muito boa, está dando medo. Isso e a ostentação de levar seguranças para a pipoca na Avenida – uma coisa bizarra e ridícula porque estamos lá todos e de repente aparece aquela “bolha protetiva” cheia de seguranças para apertar ainda mais o que está irrespirável.

- Filha, e no Bonfim, lotado desse jeito, você ainda vai pensar em política?

- Oxi... tudo é política... Cada vez que chove, será que só eu me lembro que a Cidade Baixa é aterrada e que por isso enche? Todo mundo assobia pra disfarçar que algum dia, com esse clima extremo, pode acontecer de encher cada vez mais! E se encher? É imposto, é dinheiro, é cerveja, é patrocínio e a gente não vê onde vai o investimento. Eu queria mais da política, não vou mentir...

- Mas comadre, releve...

- Releve nada! Que esses políticos ficam dando título de cidadão, quando deveriam olhar é pra a cidade!

E assim, mais um Bonfim passou. Foram muitos políticos, ano eleitoral, muita apelação, mas ainda pouca solução.

- E o bueiro entupido na minha rua que enche a rua de baixo? E os catadores de latinha “lascando o lixo da rua todo”? E os ratos, meu filho?

Será que algum dia essas ”coisinhas” – esses pequenos detalhes, em meio aos milhões que o “Rei do Lixo” arrecada, chegarão a ser vistas e resolvidas? Porque cidadania não é abaixo-assinado, não. Cidadania é coletivo. É todo mundo preocupado com o bem estar de todo mundo e isso é o que vai fazer esses políticos trabalharem pelo povo!

- Ano eleitoral, todo mundo bonzinho, oferecendo cerveja em troca de voto, cimento em troca de voto, remédio em troca de voto, dinheiro em troca de voto... Mas eleição é a hora do povo! Não se venda! Minta pra eles, como eles mentem pra gente!

Suou frio, passou mal. eram os anos de agonia. Pesam, viu? Pesam...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Quinta das Lágrimas”

Quase todos os dias conheço alguém que diz que já foi ao meu país, que o visita frequentemente e que o conhece muito bem. Em seguida vem a lista e a descrição habitual: fui a Cascais, a Sintra, a Lisboa. Fui naquela cidadezinha pequenina...eu logo completo, Óbidos né? Isso, exatamente. Não foi à Nazaré? Claro que fui ver as ondas. As ondas? Nazaré agora só tem as ondas? Que pena não verem a beleza da Nazaré, distraídos com as ondas. E o que viu em Cascais? Nem sabem dizer bem. Sintra, falam dos doces, do Palácio e da cor verde da vegetação. Menos mal. Lisboa, ai Lisboa, que de vez em quando é apenas pasteis de Belém. Como se eu falasse dos maravilhosos joelhos/mistos quentes do Rio de Janeiro, reduzindo a grandiosidade de uma cidade a isso. E o resto, meus amigos, e o resto? Vocês não olham para mais lugar nenhum? Meu país é pequeno, mas assim, mais pequeno fica. Lisboa, cidade de intermináveis cantos charmosos, cada rua, uma cidade. Sintra e a história. Cascais e o mar. Claro que conhecem o Algarve, mas como se fosse um lugar só. Fomos ao Algarve também. Meus amigos, o Algarve tem tantas linguagens e histórias, que precisa ser visitado e vivido todo e aos poucos, lentamente, para não perder nada. Basta ir a Lagos e caminhar em algumas ruas para perceber como em cada porta ou restaurante, a energia é diferente. Uma rua por mês. O que dizer do Alentejo? Existe o Alentejo de Carlos Tê, de Vitorino e Janita, o de José Afonso. Alentejo precisa ser apreciado, não visitado. Sentem um pouco e respirem na sombra das árvores. Precisam perceber os lugares ou nunca os vão entender.

Alguns ultimamente já conseguem ir um pouco mais longe, como Porto, o Douro, Aveiro, Coimbra, mas tudo visto como se passassem de bicicleta por uma rua com lojas: consegui ver isto mas não deu tempo de ver aquilo. Meu Deus! Nessas horas me dou conta de como somos intensos e me custa ver que as pessoas nem se demoram. Não demorar significa não intensificar. Que dor...tudo agora é mesmo só passar os olhos e já saber como aquele país é.

O último amigo que me contou suas voltas por Portugal, ainda conseguiu chegar a Viana do Castelo. Uau. Uma vitória. Amou “aquela Igreja” lá no alto, as cidades pequeninas. Cidades pequeninas não nos faltam, e a “igrejinha”, nosso amado Santuário do Sagrado Coração de Jesus, faz parte da história de muitas meninas e meninos. Enfrentar o medo de subir aqueles degraus todos e ser capaz de subir a parte final, durante muitos anos em obras e realmente perigosa. Os senhores que tiram fotos com revelação manual e a preto e branco, ou sépia, junto das escadas. O local onde mais amei assistir as celebrações religiosas. Os piqueniques debaixo dos pinheiros, após a missa, as ruínas, a vista sobre o mar e a ponte. O desejo de que naquele dia fosse o dia de ter dinheiro para ganharmos um sorvete. Ou um cachorro-quente. Ou batatas fritas. Qualquer coisa que desse a sensação de ser como qualquer pessoa, sem diferenças, com as mesmas oportunidades e felicidades. Sem nos darmos conta que se comia melhor em casa. Tempos.

Minha cabeça foi voando e voando para cada canto das minhas memórias, recordando as alegrias simples de uma vida simples. Fiquei assim, sem saber se valia o esforço de o estimular a ver mais do que o óbvio e o que todos visitam. Tentei. O senhor falou em muitos lugares. Percebo que conhece Portugal muito bem. Sim, fui muitas vezes, conheço bem e em várias circunstâncias. Por exemplo, amo comer leitão naquela cidade pequenina. Muito bem, disse-lhe eu. Esse leitão na Mealhada é realmente sensacional. Então, depois da mealhada, foi visitar a Quinta das Lágrimas. Não, nunca fui nesse lugar, nem ouvi falar. Pois, disse eu, esse não é um lugar de turismo. Esse é um lugar que deve ser visitado por quem conhece a história de Pedro e Inês. Ai sim? Percebi que nem sabia quem eram. Precisa ir, mas não dá para encher o local com turistas olhando, tirando fotos dos lugares onde se encontravam Pedro e Inês às escondidas e onde Inês foi morta. Mostrei no google as fontes. Não sabia, disse. Na próxima vez que for a Portugal, vou visitar e lembrarei de você.

Espero que vá, desejo muito que se lembre de mim, porque esse é um lugar inesquecível, onde poucos foram.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Francisco Trêpa


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