2 Contos: “SIRI NA LATA” e “Meu El Niño”
- portalbuglatino
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Conto “SIRI NA LATA”
Tem ativismo pra tudo nessa vida. Eu sou ativista do cumprimento. Bom dia e boa tarde precisam ser distribuídos e é exatamente o que fazemos. Nada contra o “boa noite”- apenas não tem muito uso lá em casa, já que mal saímos.
A cada novo cumprimento, vemos como as pessoas se sentem frustradas e descompensadas, atualmente. Num dado momento, no começo, nem nos olham. Vivem olhando os pés. Um belo dia, os levantam – os olhos – mas é um movimento pequeno e fugidio. Dia 1, dia 2, dia 10... de repente, espantosamente, milagrosamente os sorrisos aparecem, as mãos abanando “tchau”, os sorrisos, piscadelas, paradas para todo mundo falar um pouco, brincar com o cachorro, passar uma receita pras nossas grandes amigas garis.
Ficamos amigas de um jornalista francês, uma chefe de alimentos naturebas, cientistas, donas de casa, muitos garis, comerciantes, atendentes, costureiras. Pessoas.
Engraçado: vemos poucas crianças. Onde será que elas andam? Passamos muitos dias sem cruzar com elas. Mas hoje, por acaso, vimos uma saindo da aula. 5 anos de chupeta. Por minha vez, tenho tanta prática que em um olhar eu já sabia da “sua vida pregressa”. Eu, a mecânica de línguas, uma das porta vozes da volta do bom dia. Fã incondicional da comunicação.
O mundo era opressor antes, mas as pessoas sabiam nomear, quando havia chance. Agora está bem pior: a cada bom dia, vemos que as pessoas nem sabem que o que sentem se chama opressão – e estão sendo massacradas pelo sistema, pelo antagonismo plantado propositalmente nas redes, pela solidão. São enganadas, muitas torturadas, em nome de um olhar, um interesse – mesmo que seja falso. E nas redes costumam ser.
Contra tudo isso, bom dia, bate papo, sorriso. Remédios sociais. Espero, fora da nossa extensa linha de extinções. O contrário disso é como “siri na lata”, uns puxando as pernas dos outros.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Meu El Niño”
Tenho algumas dores e mágoas que venho dissipando dentro de mim, com o tempo e com algum esforço. Quando partir, sei que estarei feliz por tudo o que tentei, por tudo o que resolvi, por tudo o que ultrapassei. Tudo farei para ir com o coração resolvido, em paz, sem olhar para trás nem com os pés virados para o passado como me falaram tantas vezes.
Vivi a primeira parte da minha vida de uma forma que parecia perfeita. Não porque corria tudo bem, mas porque tinha a sensação livre de que era aceite por todos, mesmo com tudo o que me apontavam – teimosa, fazer birra por tudo e por nada, chorona, e mais um monte de defeitos. Era eu com todos os defeitos e qualidades, e como todos, era isso que eu era, mas estava tudo bem pois fazia parte de um todo. Mais escolhida para fazer umas coisas e menos escolhida para fazer outras. Parecia ser algo normal. Era assim que a vida me batia no peito e era assim que eu aprendia a viver em cada instante. Afinal via que era mais ou menos assim com todos e todas. Quantas vezes aborrecida, triste, chateada? Muitas, tantas quanto as vezes que estava feliz, mas não era isso que me atrapalhava porque tudo parecia fazer parte e eu me sentia fazendo parte. Sempre! Era a vida com seus momentos variados, exigentes ou suaves, difíceis ou fáceis.
A segunda parte da minha vida foi totalmente diferente. Não porque fiz algo errado, não porque as outras pessoas fizeram algo errado. Foi apenas totalmente diferente. Eu não sei as razões objetivas, mas tudo mudou imediatamente depois de eu tornar público que me relacionava com mulheres e, ao mesmo tempo, tornar público que era totalmente contra que homens fizessem tudo o que desejavam, mesmo que isso implicasse destruir vidas de outras pessoas, e sem serem cobrados, chamados à responsabilidade, ou cogitarem pedir desculpa. Duas posições tomadas num mesmo momento, e a seguir todas as pessoas mudaram. Coincidência? Talvez. Ou talvez a incapacidade do ser humano em aceitar que as pessoas podem ser diferentes do que achamos delas e que não adianta insistir, nem dizer que sabem um caminho melhor, ou que têm razão, ou seja lá o que for. E que essas mesmas pessoas podem manter sua opinião, mesmo que fiquem sem emprego, mesmo que fiquem sem família, mesmo que fiquem sem dinheiro, mesmo que fiquem sem amigos, mesmo que fiquem sem nada. E fiquei sem nada. Perceber como o ser humano pode mudar assim, provocou uma fratura na minha montanha de vida, uma avalanche no meu Himalaia, uma fissura na minha barragem. Como se o mundo deixasse de existir da forma como estava habituada e de repente esse mundo era todo diferente, mas com as mesmas pessoas, as mesmas funções, os mesmo deveres e obrigações, mas os vínculos amorosos, amigáveis, gentis, sinceros, desapareceram. Além disso começam a existir muitos momentos em que percebemos que falam de nós, falam muito, não propriamente para elogiar, na nossa presença e muito mais quando não estamos presentes. Saltamos fora do eixo, saímos do trilho, deixamos de pertencer ao bando, ao ninho, à alcateia, apesar de terem de me aguentar por lá. Só quem já viveu o mesmo entende do que falo porque as outras pessoas acham isto um exagero ou uma vitimização – vítima também é algo que passamos a ouvir muito.
Ninguém te pergunta nada, ninguém te questiona, ninguém demonstra que não agrada a “posição assumida”, ninguém te avisa, e principalmente, ninguém é capaz de dizer olhando nos teus olhos o que realmente sente e pensa sobre os dois assuntos, por isso, não tens espaço de argumentar, de perceber as diferenças, de entender que terás de ir embora ou terás de mudar algumas coisas. Não! E não mudas nada porque não percebes a mudança, até que estás enfiada naquele pântano do “claro que achamos bem, claro que concordamos, claro que não somos preconceituosos, claro que até pensamos igual”, etc. E quando queres te movimentar, não te consegues mover, não sabes em quem confiar porque tudo virou um faz de conta que aceitas para não dar problema.
Uma segunda vida que apenas parece, onde nada é, ninguém é, nada parece confiável. Aguentas porque não tens para onde ir, aguentas porque não podes deixar de ser quem és, aguentas porque se te movimentas muito podes ir parar a um “local do pântano” que talvez seja pior. E para piorar, mais vale aguentar como está. Mas vais adoecendo sem dar conta, vais adquirindo comportamentos que nunca desejaste, vais te enterrando nesse lamaçal.
Aprendi que se desejares muito, mas mesmo muito, se além disso acreditares em ti, na boa pessoa que és e continuares a te comportar da melhor forma possível - mesmo que ninguém aprove – um dia algo muda, algo acontece, tua mão vai agarrar algo, alguma fresta de porta ou de janela se abre. Vai dar medo mas não hesite – é a sua oportunidade de uma vida. A sensação é de perder tudo o que tinha, mesmo que fosse pouco. A sensação é de mergulhar no escuro e de piorar a vida que já vai piorando, dia a dia. Mas esse momento me deu a terceira parte da minha vida onde não tenho chefes, não tenho quem me diga o que tenho de fazer, ninguém tem mais o poder de me diminuir, me criticar, esmagar ou asfixiar. Ainda sinto por vezes ecos imaginários de comentários que me eram dirigidos direta ou indiretamente no passado, ainda sinto medo de algo que me foi plantado na cabeça como sendo meu fim deplorável, mas agora tudo me faz esboçar um pequeno sorriso melancólico. Uma sensação de que já passou, de que ultrapassei esse lugar, de que mudei de nível no game da vida. As pessoas podem continuar a falar, a rir, a debochar, mas agora isso me faz ter pena delas. Não tenho mais medo de sofrer, de perder tudo ou todos, porque percebi que isso não tem valor. Quem não posso perder é quem eu sou, o que desejo, o que me faz feliz. Perder tudo é perder-me.
Com ou sem família, com ou sem amigos, com ou sem dinheiro, vou partir feliz por tudo o que tentei, por tudo o que resolvi, por tudo o que ultrapassei. Vou com o coração resolvido, em paz, sem olhar para trás. Porque não me perco, já que me encontrei por completo.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Van Gogh
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