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2 Contos: “POLÍTICA, POLÍTICA!” e “É só manjericão ou temos um problema?”

Conto “POLÍTICA, POLÍTICA!”

              De alguma forma inexplicável, cada vez que ela via na internet que a polícia tinha feito isto ou aquilo, seu coração a puxava para a política quase que imediatamente. Primeiro porque havia o incômodo da situação social: por que os pobres eram mais presos e eram tratados com muito mais agressividade do que os ricos? Por que a polícia tratava as pessoas com mais agressividade que firmeza?

              Seu Whatsapp mandou uma mensagem com a marcação de seu exame de vista para a renovação da habilitação. Será que o diretor do DETRAN era marcado à esmo como ela tinha sido e não tinha o direito de escolher um lugar próximo da sua casa? Apenas tinha sido empurrada para qualquer lado e, como num cassino, a roleta parou exatamente no Stiep. Por que ali e não ao lado de sua casa? Talvez só o diretor do DETRAN soubesse responder como uma coisa era melhor e tinha sido mudada para piorar a vida de todos. Por que no Stiep e não em Caixa Pregos? Supunha que que por serem municípios diferentes. Mas poderia ser Periperi, Mussurunga, Boca do Rio, mesmo morando no Calabar? Pela lógica, sim.

              - Os governos realmente pensam que somos seres vivos, que também temos tempo escasso e coisas pra fazer?

              Uma americana verdadeira - loira e democrata - foi assassinada pela polícia anti-imigração. Não cometeu crime nenhum. Apenas estava com o carro parado na rua.

- O poder que é dado a cada policial tem algum embasamento ou ele apenas acha que pode fazer o que quer porque alguém lhe disse que podia apenas porque ele é a autoridade armada? E se alguém disse, quem falou? Por que a pessoa fala e se subentende que ela se responsabilize. Mas não. Eu vi o agente ICE dar 3 tiros na garota. Covardia nojenta. A política cria uma coisa absurda dessas porque o assassino não se sente assassino. A culpa é da morta. Da assassinada. As versões vão parar no X e os homens – a maioria é de homens mesmo – acreditam. Não é incrível? Você vê – com seus olhos, ninguém lhe contou – que alguém é assassinado bem no meio da rua, mas essas pessoas – a maioria homens – vê, mas não enxerga.

Isso é a forma como a política está sendo feita. Brutalmente. Para enganar os crédulos que tinham essa nódoa de vingança dentro de si e antes se sentiam tímidos.

- Os homens falam bem menos que o gênero feminino, sabiam? O cérebro é igual, mas ninguém parece se importar em lhes ensinar como nos ensinam. “Se vier ‘apanhado da rua’, vai apanhar de novo em casa”!  - é assim que os homens são criados. Acabam ficando com um lado “ogro”. E assim, suas vidas passam e eles repassam essa crueldade que poderia muito bem ser discutida, posta em palavras, mas não – vira bullying e assédio. E que pode virar assassinato. Feminicídio, por exemplo.

- Que nem o assassinato da menina americana, gente...

              - É. Não tem coincidência nisso.

              Acabou marcando o exame de vista no Stiep porque não tinha jeito. Quinta de manhã estaria lá. Mas sem saber o que afinal pensou o diretor do DETRAN pra inventar problemas na marcação dos horários dos exames onde eles não existiam ou pior: sem saber que era bom e que agora está péssimo porque ele não se interessou pelo bem estar do distinto público, pelo povo, por nós, pessoas que estamos aqui e que também temos vida! Falava entredentes:

              - Só botando esses políticos pra lavarem muito banheiro em suas casas, sabe? Não é possível estarem vivos e não saberem onde fica o buraco do vaso pra enfiarem o xixi lá dentro sem respingar, não saberem que hora marcada pra exame pago precisa respeitar a vontade de quem paga o exame! Não saberem que se você aperta o gatilho da sua arma sai tiro e tiro tem o mau hábito de matar! E ainda se mostram! Ainda se acham!

              Deu um muxoxo e encurtou o assunto porque afinal tinha que descongelar a carne pro almoço. Antes disso, sua amiga ligou contando como o DETRAN marcou o seu exame numa clínica que só funcionava na hora que os exames eram feitos e a fez correr de SAC em SAC pra remarcar porque nunca ninguém atendia ao telefone para a marcação da sua hora, claro que ainda por cima num lugar muito distante da sua casa.

       - Desconjuro!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “É só manjericão ou temos um problema?”

Bate na porta, mas a filha não responde. Bate de novo. Silêncio.

- Ana? Posso entrar? Queria te perguntar uma coisa.

Após um silêncio longo, a filha lá respondeu.

- Mãe, estou ocupada. Também não estou com vontade de falar. Pode ser depois?

- Depois quando filha? Estou tentando falar com você desde que acordamos. Já está na hora de jantarmos. Por favor, me deixe entrar. Me deixe te fazer uma pergunta.

- Pode perguntar. Eu ouço.

- Ana, por favor. Não posso continuar a falar com você através de uma porta, ou através do celular. Por favor filha.

- Mãe, você está me pressionando. Está me aborrecendo. Eu estou te pedindo sossego, mas a senhora insiste. Por favor digo eu.

- Ana, prometo que não demoro. Só quero entrar, sentar na sua cama, junto de você e te fazer uma pergunta.

- Sério isso? A senhora não desiste? Meu Deus...

- Me dá 5 minutos. Só. Prometo.

Ouve a filha se levantar, se dirigir à porta, rodar a chave, abrir a porta, se virar de costas, sentar na cama olhando o chão. Percebe que Ana está aborrecida por ter de fazer aquilo. Sabe que tem de ser rápida. Tem apenas 5 minutos. Ana não lhe vai dar mais do que isso. Incrível como durante anos precisou de aprender a liderar seus funcionários, precisou de aprender a gerir conflitos na empresa, a falar pouco mas bem nas reuniões com a chefia, e agora, estava perante um momento muito mais difícil e muito mais importante. Não sabe se tudo o que aprendeu lhe vai ser útil, mas sabe que precisa de falar com o coração. Não adianta dar conselhos, nem se colocar num lugar superior. Não pode ficar com medo de errar, nem com os cuidados de fazer tudo bem.

Sua filha Ana não sabe, mas ela está com medo. Está com medo porque não mais pode fugir do que fugiu a vida inteira. Fugir de mergulhar na vida, de deixar as regras para lá e viver com o coração, se entregar ao amor que sente por Ana, a coisa mais importante da sua vida. Com medo de mostrar seus medos, suas vergonhas, de não fazer o certo. Nem sabe o que é viver, sem ser esta coisa de fazer o que é certo.

- Posso entrar? – pergunta, enquanto a Ana sentada, olha o chão, aguardando o que ela vai perguntar.

- Claro mãe. Os 5 minutos estão contando.

- Ok.

Dirige-se à cama, senta-se do lado da filha e começa a falar.

- Tenho uma pergunta para te fazer, mas antes quero só te dizer que eu fui assim como tu. Eu fazia as mesmas coisas, reagia da mesma maneira. Também quando tinha problemas ficava calada, isolada. Minha mãe não sabia o que me fazer e deixava-me estar até eu ter vontade de “voltar”. Mas isso fez-me muito mal, fez muito mal a minha mãe. Eu achava que ia conseguir te educar de forma diferente, para não fazeres o mesmo, mas não soube fazer isso. Devo um pedido de desculpas à minha mãe e devo um pedido de desculpas a ti. À minha mãe porque a tratei com alguém incapaz de educar uma filha. A ti porque não soube te educar como merecias. Ana, as pessoas às vezes não sabem fazer as coisas, às vezes erram aquilo que pensavam saber fazer. Eu aprendi com esses erros que quando surge um problema, devemos agir para o resolver. Não com muita pressa, mas com a velocidade suficiente para o problema não criar raízes. Porque dali a algum tempo surge outro problema, depois outro, e outro. E se não resolvemos os primeiros, eles vão se acumulando com os que chegam depois e o caos começa a ter terreno fértil para “entrar”. Também aprendemos com os primeiros problemas e isso é útil para resolver os que chegam depois. Eu ficava assim, como você Ana, parada, incapaz de sair do lugar, deixando os problemas me paralisarem, achando que estava a enfrentá-los, a analisá-los, a ganhar tempo. Na verdade, estava a fugir, estava incapaz de enfrentar a situação e me refugiava num lugar onde isso não era posto em causa. Assim, sem me socializar, parecia que estava tudo bem, parecia que o problema não existia. Mas era só sair do quarto para perceber que tudo estava na mesma. Mas não estava. O mundo sempre continuava e eu não. Isso me fez tentar mudar, olhar para pessoas que eram ágeis, boas a resolver problemas. E fui percebendo que quando surge algo que nos desagrada, nos assusta, tentar descobrir a solução de imediato é essencial. Mas não só na nossa mente, olhando o teto do quarto ou as redes sociais. Falo em buscar solução no google, no pai, na mãe, nos amigos, nas instituições, nos especialistas. Em todos os lugares e pessoas que for possível. Parar, isolar, se esconder, não resolve nada. Piora tudo. Pronto. Desculpa a demora. Devo estar a estourar o tempo, os 5 minutos. Por isso, termino com a pergunta que pedi para te fazer. Ana, você pode ir na rua comprar manjericão? Esqueci de comprar ontem, vou fazer o macarrão que o seu pai ama e sem o manjericão, ele vai ficar me azucrinando o juízo. Estamos num domingo, com tudo fechado, não sei o que fazer.

Ana sorriu, olhou a mãe e respondeu:

- Era só isso? É fácil. Tem uma amiga da escola que mora bem aqui do lado e eu sei que ela tem manjericão no quintal de sua casa.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Francisco Trêpa


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