2 Contos: “PESOS E MEDIDAS DIFERENTES” e “2000 transforma-se em 2026”
- portalbuglatino
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Conto “PESOS E MEDIDAS DIFERENTES”
Existem coisas que acontecem. O passarinho faz cocô no seu ombro – é uma dessas coisas, por exemplo. Sair de casa e deixar o portão aberto – acontece. Partir o pirex da avó de uma pessoa querida – entra no mesmo rol de coisas chatas que podem acontecer com qualquer um. É meio chato, mas pode a vida tem dessas. Pisar no cocô, na rua – é chato. Pode ser em cheio ou resvalar no cocô, apenas. Nunca é propósito – quem, em sã consciência, ia jogar o pé em cima do cocô, meu Deus?
Não parece lógico?
Parece. Mas pra algumas pessoas, não é assim.
Exatamente por isso, Madalena tomava como prova de amor que ninguém pisasse no cocô na presença dela. Criava hipóteses, todas terríveis:
- Se você me amasse, não passaria raspando os pés de propósito nos cocôs de cachorro na rua! Há 10 anos atrás você sujou a escada que eu tinha acabado de limpar. Há 13, você pisou em outro cocô e negou ter feito isso!
Parece mentira. Parece uma história do Barão de Münchhausen, mas não. E a consequência mais comum era parar de falar com as pessoas. Pior: muitas vezes as cortava das suas relações. Perguntava a minha a opinião – e se não fosse exatamente igual... vinha aquele silêncio retumbante, que fazia com que os trovões de São Pedro parecessem traques!
Assim nasceram as perguntas que afirmavam de outra forma “estou de mal”:
- Você quer mesmo que eu coma isso? É isso o que você resolveu me dar de surpresa? Você acha isso realmente certo? Bom? Errado?
Com aquela dose de rispidez, claro.
Não se podia insistir.
Nada do que se falasse ou fizesse faria Madalena sonhar pensar que poderia estar errada com tantas perfeições ou exigências, pelo menos daquela vez. Pelo menos uma vez na sua vida. Não por ser melhor ou pior, mas porque existe uma certa de qualidade de coisas, que simplesmente acontecem. Você esquece, se distrai, resvala, escorrega. Acontecem.
E assim foi vivendo Madalena - como o Américo Pisca-Pisca, do Reformador do Mundo - que culpava Deus por não ter colocado as jabuticabas nascendo nos pés de melancia e as melancias nos pés de jabuticaba, até que uma jabuticaba lhe caiu bem no meio da testa:
- Ih! Já pensou se Deus me ouvisse e me tivesse caído em cima uma melancia? Bem no meio da minha testa? Já pensou se existisse mesmo uma pessoa que pisasse em todos os cocôs de cachorro de propósito como prova de não amor? De pirraça?
Irreal. Claro!
Mas não pediu desculpas. Desculpas serviam para as pisadas nos pés dos outros, no ônibus. Eram uma espécie de “cortesia” para os estranhos.
No lugar de dizer desculpas ou que são coisas chatas, mas acontecem, falou um palavrão bem alto, daquele cabeludo, pouco cortês e mal educado...
Haja sabedoria para tantos pesos e medidas diferentes...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “2000 transforma-se em 2026”
Recebi uma mensagem junto com fotos. Na mensagem a pessoa perguntava se eu sabia onde ela estava. Como não poderia saber? Aquele Estádio, aquele lugar, aquela cidade, aquele país nunca mais saíram de mim. E ali, nas fotos, estava a chama olímpica, um cartaz enorme com o nome do evento de há 26 anos atrás, seu logotipo, as árvores – será que são as mesmas? – aquele espaço sem fim que respira esporte, saúde, sonho. Minha cabeça e meus pensamentos recuaram 26 anos. Parece que foi ontem. Parece que foi agora. O momento de espera para entrar no estádio, o olhar das atletas, a emoção de uma vida, os olhos e as palmas de todos os voluntários. Tinha valido a pena. Tudo valeu e tudo me fez chegar a aquele momento. Anos subindo a árvores, indo de bicicleta às compras de mercado, carregando tijolos, sacos de cimento, desviar móveis, servir à mesa, fazer camas. E sempre algo dentro de mim para fazer, apesar de tudo isso e por causa de tudo isso. Anos apanhando o trem, caminhando na chuva, no frio, para treinar, treinar, treinar. Sem tempos livres, sem férias, sem desculpas, sem perdas de tempo. Estudar no trem, no ônibus, onde encontrasse um tempo livre.
A maior parte das pessoas não entende nada disto, nem é capaz de respeitar. Riem, zombam, apontam, criticam. Não adianta muito tentar lhes explicar. Ainda é pior. Confundem tudo.
E sempre algo dentro de mim para fazer, apesar de tudo isso e por causa de tudo isso.
Mais jovem 26 anos, percebo agora, ao receber a mensagem, que por dentro estou igual, com a mesma determinação, clareza e confiança. Outros sonhos, mas igualmente importantes, difíceis e silenciosos. Adequados aos passos mais lentos, às dores de costas. Mas permaneço a pessoa que era, olhando para onde vou.
Uma mensagem, uma luz, uma mensagem, uma recordação, uma mensagem e a certeza de que ainda tem algo a fazer, para além do que já foi feito.
Os risos e as críticas lá estão, nos mesmos lugares. As pessoas não entendem e não querem entender. Como ouvi uma vez, “saia da frente que eu quero passar”. Não tenho tempo nem paciência para quem não entende o que significa uma chama e o que se faz para tocar essa chama. Talvez por isso nunca tenham conseguido tocar em chama nenhuma.
E sempre algo dentro de mim para fazer, apesar de tudo isso e por causa de tudo isso.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Van Gogh
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