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2 Contos para JÔ


Jô Soares, foto retirada da internet, G1

Conto “DESPEDIDAS TAMBÉM SÃO DOCES”

Ela acordou com uma surpresa quase triste – quase – o gordo voou, foi ter com Deus. Mas não passou de quase porque o convívio com a inteligência dele era leve, sempre foi leve. Mesmo quando sua inteligência se transformava em tapas - de mão pesada. Foi assim quando ele entrevistou a família – condenada à morte pelo karma, pode-se dizer, de Collor - e levantou o que nos parecia um grande escândalo de corrupção – que bobagem, pensou ela – foi só o primeiro deles, acompanhado do outro, dos anões do orçamento e de muitos outros, uma coleção!

Olha que personagem boa:

- O que você coleciona aí, menino?

- Corruptos! Você tem alguma figurinha repetida pra trocar comigo?

- Caraca, ele não vai mais criar personagem pra gente rir da nossa desgraça, cara...

Levantou, fez o café e mais depoimentos. Personagens em fila. Ela amava – amava! – o Capitão Gay. Como alguém, ainda na década de 1980, colocou na tela aquela “bicha adoravelmente engraçada” e seu “paladino da justiça”, Carlos Suelly, no meio da falsa moral – ainda vigente e querendo colocar a “cabecinha pra fora”, no Brasil?

Eram tantas imagens que lhe vinha à cabeça...

Oi Lelé! Oi Da Cuca! E lá começava a discussão sobre doença mental.

- O que é que eu sou, o que é que eu sou, o que é que eu sou? Sois rei! E lá começava a discussão sobre o que é acobertado pela elite.

Com ele o Brasil ficou mais inteligente, mais sagaz – e aí estava o ponto que lhe apertava o peito. Ele se foi, estava doente, tinha envelhecido, poderia ter chegado a sua hora, mas... quem o Brasil fabricou pra o lugar dele? Pânico.

Depois, mais pânico: Caetano, Gil, Chico, Milton, Edu Lobo, Betânia, Nei – todos ali perto dos 80 anos. E agora? Quem nós permitimos que “nascesse” para o talento? Quem nós “retiramos do consumo” puro e simples e aproximamos da arte? Silêncio e escuridão. Ela não lembrou de ninguém com essa explosão.

Pelo menos em um segmento, Jô fez questão de apontar um sucessor maduro – e que delícia! – eu já tinha pensado nele também!

- Randolfe, seja presidente na próxima. Se permita ser preparado para a sucessão de mais um mandato na democracia brasileira.

Se fosse o Jô, se ele não estivesse lá com Deus, ia rir na cara do “twitter democrático do autoritário de plantão pra aparecer de qualquer maneira na carona, na esteira, na rabeira, na luz dos outros” – ufa, como esse cara me cansa...

Uma morte onde ela, de repente, viu todo mundo calmamente triste, com um ar estranhamente carinhoso, amoroso, dadivoso dentro dos olhos. Algo que saltava pela boca de todos, aquela água com açúcar amorosa que reconhece quando uma vida teve sentido. Beeem diferente dos homens histéricos que ela via atualmente aos berros de DESTRUA-SE!

- Ai, mainha, também não havia mais Chico Anysio...

- Quem precisamos deixar nascer pra que faça sentido de novo? Tanta gente perfeita, maravilhosamente perfeita morreu... Paulo Gustavooooo... No lugar delas, a ideia de jerico de colocar tanque na praia de Copacabana...

- Nem você faria um texto tão tresloucado... Nem na sua maior sátira, nem na sua peça mais provocativa! Mas agora, aí com Deus, já peça uma força porque ninguém merece esse texto da vida real! Ninguém merece!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Capitão Gay”

Dormia fundo, como é seu estilo... A casa já estava acordada há algum tempo e na verdade foi por isso que seu amanhecer foi sobressaltado, pelas 6h, com frases que não queria ouvir: “Jô Soares, fazia, Jô Soares era, Jô Soares deixou...” – sons vindos da TV. Foi assim que acordou... Demorou a entender.

-Pareço estar a sonhar. Mas parece a realidade também. Mas o que são estas frases sobre Jô Soares? Sério isso?

Demorou a acordar. De pé tomando sua água, seus medicamentos da manhã, com seus olhos colantes, seu corpo preguiçoso e a TV disparando aquela bruta notícia. Testemunhos, consternação no Brasil. Poucas pessoas sabiam que estava doente, que estava internado, saída do hospital pelas traseiras, cerimonia privada. Até nisso um grande homem.

Uma notícia que ela não queria, que o Brasil não queria, que o mundo não queria. Mais uma vez, uma perda brutal. Mais uma vez um enorme vazio se instala. O mundo perdendo tanto, perdendo os seres estruturantes. Para ela e para muitos, Jô Soares era o Brasil culto, simpático, carinhoso, talentoso, charmoso, intelectual, teatral, humorístico, humano, justo. Por anos, assistiu às suas entrevistas a “grandes” e a “pequenos” e em frente ao Jô Soares viu muitos “pequenos” virarem grandes e muitos que se consideravam “grandes” ficarem demasiado pequenos. A sua grandeza era encantadora e intimidadora. Enquanto menina viu imensos programas com ele, que abordavam o mundo LGBT de forma tão linda, tão doce, tão charmosa, tão hilária. Um fofo, um baita artista. Adulta tentou muito, mas sem sucesso, vê-lo no teatro - os bilhetes/ingressos esgotavam sempre em segundos. Como Portugal o amava...imagina a profunda dor dos brasileiros... Não está fácil. O Brasil parece um iceberg descongelando pedaços brutais de si mesmo...onde o Brasil vai encontrar outro Jô Soares? Desta vez foi um enorme pedaço do iceberg. Enorme. Insuperável. Inesquecível. O homem com quem qualquer mulher inteligente quereria casar. Um homem verdadeiro. Ela está destruída... Do Brasil iceberg que derrete, derrete, derrete, só restou o Capitão ANTIGay, fingindo ser fortão. Esse pedaço mal cheiroso do iceberg, de cheiro a xixi e cócó mental, de "gente" que nem mastigar uma opinião é capaz, de podridão, cheiro a esgoto disfarçado de farofa, abre a boca para sairem as palavras aos trambolhões como baba. Não, não, não, o Brasil dela sempre foi o de Jô. O Brasil amado é o de Jô Soares. Esta noite ela quer sonhar que casou com Jô e que o Capitão ANTIGay foi para Marte. Desculpa aí Marte... Chega de Capitão Gay falso por aqui...está ficando com rinite com tanto mau cheiro e tanto lixo no ar...

Ana Santos, professora, jornalista

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