top of page

2 Contos: “PAPEL EM BRANCO E GARRANCHO HUMANO” e “O sonho de viver”


Conto “PAPEL EM BRANCO E GARRANCHO HUMANO”

              Levantou os olhos do jornal até com raiva – todos os dias nós estávamos lá, “brilhando” na página policial. Decapitadas, esfaqueadas, humilhadas, espancadas. Começou a resmungar, falando sozinha:

              -  É uma perseguição milenar! Os homens não cansam de machucar e depois nos culpabilizar por tê-los provocado! Nós, as vítimas! E seja pelo que for! Se a mulher é linda, é oferecida, se é tímida, é antipática, se é sincera, vira grosseira, se é simpática, é oferecida. Engravida e é prostituta, não quer o filho e é leviana, se rebate uma ofensa, é grossa, se dá um conselho, é faladeira. Estou cansada!

              - O tenente coronel mata a mulher, dá 19 telefonemas, ao invés de chamar 190 e tentar pedir socorro, inventa que sua mulher se suicidou e é recebido com tapinhas nas costas, quando finalmente é preso pela própria polícia militar – graças às poucas pessoas com presença de espírito, que fotografaram, verbalizaram sua estranheza com aquela cena de crime armada pateticamente. Na cadeia, ninguém parecia insultado por ter que receber um ser apodrecido mentalmente, emocionalmente. Ninguém, nenhum policial lembrou de mulher nenhuma! Como explicar virem todos juntinhos no banco de trás do camburão, gente? Nada de algemas! Nada de ir na parte de trás do carro!

- Sempre tão presunçosamente idiotas diante das vítimas...

Se olhou no espelho, ajeitou o cabelo. Não aguentou:

- Mas crimes contra o gênero feminino nunca faltam. Os assassinos são sempre mostrados e entrevistados. É um show! As mulheres nem nome têm! São tantas que nem sabemos quem são. A menina que foi arrastada pelo namorado, que depois disse que nem a conhecia, que arrastou um corpo que gritava – ou uma pessoa é arrastada em silêncio? – sem ouvir nada, sem ver, sem sentir, sem ouvir as pessoas acenando da rua!

- Uma coisa dessas me parecia a pior entre as piores, mas não! Nunca é o fim da linha! Não se ouvem as vozes de homens comentando o que esse tenente coronel falou: “Tome banho porque vou te usar hoje” – nem Lampião falaria assim com Maria Bonita. É pior do que coisa de cangaceiro! Aí depois esgana a mulher, coloca a arma na testa dela e puxa o gatilho, limpa a cena do crime, telefona pra 19 pessoas, toma dois banhos, tentando se limpar dos vestígios de pólvora  – e tudo isso passaria assim, como dizer... “meio desapercebido”, se não fosse o socorrista fotografar uma suicida que não relaxa os membros ao morrer – mesmo que saibamos que morrer é perder energia!

- Que vergonha, senhores...

- O problema é achar a ênfase dada pelos homens nesses casos... Ouvir algo tipo “Caso bárbaro” até rola, mas nunca: “os homens precisam discutir seriamente sobre a forma que o machismo no Brasil tomou, depois do governo Bolsonaro. Armas demais, facilidades demais, delegados machistas demais – não deveria haver cursos preparatórios para que um homem tivesse a sensibilidade de não olhar para uma mulher denunciante como um ‘falso testemunho ambulante’”? Tapinha nas costas de bandido? De assassino? Então um PM assassino é menos assassino do que os assassinos comuns?

Suspirou, desiludida. Viu no Instagram as imagens de mais um bate-boca na Câmara dos deputados – um lugar que deveria ser progressista – afinal, as leis deveriam prever o futuro dos Países.

- Isso tudo acontecendo e quem é que sofre pressão na Câmara? Algum deputado espancador de mulheres, alguém omisso ou corrupto? Algum machista? Não, senhores. Quem sofre pressão é Erika Hilton! Aquela que melhor nos representa, aquela que nos dá a voz mais alta, o berro, a denúncia, o dedo na cara dos machistas! Ah, mas ela é muito perigosa porque fala! Porque grita! Porque aponta! Nada de mulher submissa, como um papel em branco, nada disso.

Mais uma vez a baboseira de que ela não podia presidir uma comissão de mulheres por ser trans...

- Pela milionésima vez, patetas! Por que se chamariam mu-lhe-res trans, se não fossem mulheres? Agora vão nos separar por aquelas que não têm útero e as que têm? O que se faz com um útero na Câmara de Deputados de um País, pelo amor de Deus?

Suspirou.

- Eu não sei se piores são as pessoas que nunca escreveram nada socialmente - as que nunca agem - ou aquelas que se expressam através de “garranchos” sociais, como esse homem-monstro - pessoas que se omitem ou que querem garantir o nosso silêncio a qualquer custo. Como o monstrinho covarde da semana falou: "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser". Cachorro!

- Você é lixo. Você é um garrancho social. É letra horrível, incompreensível. É carniça. É desprezível. E para os que deram tapinhas nas costas do “coronel”: tenho pena e nojo dos covardes. Pena e nojo. São como papeis em branco. Não servem pra nada, não ensinam nada, não marcam nada. São seres descartáveis.

Enxugou a lágrima furtiva. Não saberia dizer quantas lágrimas lhe haviam escorrido pelo rosto, sorrateiras, ultimamente.

- Que espécie de homem socialmente monstruoso é esse que emergiu do lodo, meu Deus?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “O sonho de viver”

Ana como tantas outras.

Ana sensível.

Ana sozinha.

Como tantas outras.

Não sabe por onde caminhar. Ninguém lhe diz, ninguém lhe ensina, ninguém a entende. Ela não entende ninguém.

Como tantas outras.

Os adultos estão sempre ocupados. É preciso dinheiro para pagar as contas, a escola, o médico, a casa, o carro, as férias, as roupas, a comida.

Ana aprende a não ter desejos. Não pode comprar, melhor não desejar.

- Quer?

- Não, obrigada.

- Mas Ana, você nunca quer nada!

- Estou bem.

Essa era a sua marca. Nunca teve aquelas coisas, não tem condições para as ter, aprendeu a não desejá-las. Vive sem elas. Vive bem assim. É tudo uma questão de hábito.

Tem muita gente em volta da sua vida, muito adulto ocupado, correndo para um lado e outro, caras de preocupação, enfados, vidas que parecem sem saída. Percebe o dispêndio de tempo e a dificuldade dessas pessoas em tratar de tarefas e problemas que nunca terminam de surgir. Não quer ser outro fardo,. É assim que é e é assim que a vida segue. Então, o que tem, basta bem.

Como com tantas outras.

De tudo o que ouviu e viu nesse percurso, sua mente filtrou algumas coisas. Infelizmente as que guardou não eram assim tão boas para si. Não sabe por que foram precisamente essas que ela guardou, mas foi assim que tudo aconteceu.

Até que, seguindo o caminho do trabalho, do esforço, de alguma sorte – talvez - mas também porque o mundo mudou, ou porque o mundo tinha opiniões diferentes de todas as pessoas que ela tinha conhecido até então, Ana teve acesso às coisas que aprendeu que não eram para ela. E se perguntou muitas vezes: “Aceito? Isto é mesmo verdade? Mas todos diziam que estas coisas não eram para mim...afinal são? É ilusão?”

“Por que não Ana?” - dizia seu coração. “Não estás fazendo mal a ninguém, pelo contrário. Vai Ana, segue em frente, engole esse choro, esse medo, essa dor de barriga. Tudo isso é passado, tudo isso é hábito antigo. O mundo não é apenas aquilo que viste quando eras menina, o mundo é isso e muito mais, muito mais Ana. Precisas arrumar essas ideias antigas, num baú, bem fechado, no sótão de casa, deixá-lo ganhar teias de aranha de centenas de anos. Ana Ana, existe vida para ti, como para todos os outros. Existe e está te aguardando. E tem outros que te esperam, porque o caminho que abrires para ti, ficará aberto para os outros. E Ana, tem tanta gente aguardando pelos teus passos, tantas mas tantas Ana, vê bem, não podes hesitar. Essas pessoas precisam de ti, dessa luz, desse farol – tu!

Um dia, em adulta, no meio dos dias cheios de tarefas e deveres – igual aos dos adultos que sempre conheceu – ouviu estas palavras que escrevi anteriormente. Percebeu assustada que foi parar ao mesmo lugar que todos os adultos que amou sempre ocuparam, com tarefas, preocupações, caras sérias. Percebeu que precisava mudar algo. Começou a oferecer palestras gratuitas  em escolas, em lares, mas a coisa não resultou muito bem porque, ou a escola não aceitava ou não vinha ninguém. Começou a tentar ajudar pessoas vizinhas que sentia não estarem bem, mas acabava esmagada por tanta energia pesada e limitante.

Talvez não seja assim, afinal. “Talvez essa seja também a minha vida” - pensava Ana.

Continuou a sua vida de tarefas e trabalhos e preocupações. Um dia encontrou um conhecido seu, no mercado. Convidou-a para assistir a uma apresentação de um projeto. Aceitou. Foi, amou, mas soube que o projeto não foi aceite. Não sabia se devia dizer alguma coisa ao seu conhecido, mas como viu algumas coisas que talvez ninguém tivesse visto, sentiu-se na obrigação de enviar uma mensagem de áudio. Agradeceu o convite, disse que amou o projeto e que para ela esse projeto devia ter sido um dos escolhidos. E depois, disse várias coisas que achava que podiam ser corrigidas, pequenos detalhes, que sabia, nas próximas candidaturas, seriam determinantes para serem escolhidos.

Achou que o que falou seria muito útil, mas o conhecido, viu a mensagem, mas não respondeu. Passaram dias, semanas, nada de responder. Ana pensou logo que não devia ter saído do “lugar dela”, que devia ter ficado quieta, aceitando o que estava determinado há muitos anos, para si, pelos adultos.

Um dia, passado bastante tempo, recebe um telefonema do conhecido. Amou o áudio, queria uma palestra da Ana, explicando melhor o que tinha falado.

Fez isso.

Silêncio de novo.

Passado semanas, de novo a quebra de silêncio e um convite de sonho.

Um convite de sonho.

Ana quer saber como são as regras da vida, mas quanto mais vive menos as entende. Ana quer gritar ao mundo para avisar das regras que se utilizam e não são mais funcionais. Mas, deve fazê-lo? Ou deve ficar no seu lugar, aceitando o que dizem os mais adultos, os que dizem saber melhor o que é viver? Mas eles sabem viver? Sabem melhor do que outros? Por quê? A vida é um lugar com muita regra que deve ser obedecida, mas muita regra que se deve saber deixar para trás, porque não é mais regra e sim hábito, e sim a sensação (ilusão) de dominar o mundo. Um mundo que não se domina. Um mundo que faz de ti terra e cinza ou flor e fruto. E só te resta estar preparado para ser o que surgir. Ter botas para circular na terra, vassourinha para varrer a cinza, nariz para cheirar as flores e  sabedoria para mastigar os frutos.

Ana, de vez em quando ainda se assusta com o sonho que vive, mas logo se abana e se lembra que precisa vivê-lo, enquanto dura.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Marino Marini


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


@buglatino

A Plataforma que te ajuda a Falar, Pensar, Ser Melhor.


 
 
 

Comentários


ESPERAMOS SEU CONTATO

+55 71 99960-2226

+55 71 99163-2226

portalbuglatino@gmail.com

  • Facebook - White Circle
  • YouTube - White Circle
  • Instagram - White Circle
  • TikTok

Seus detalhes foram enviados com sucesso!

bottom of page