2 Contos: “OLE, OLE, OLÁ...” e “Precisamos da ajuda dos Deuses”

Conto “OLE, OLE, OLÁ...”
Foi um sonho daqueles que a gente sonha tanto que baba na fronha, não sabe? Saía o resultado do 1º turno e o Demo estava em primeiro lugar! Era uma coisa que a gente normal achava que era fácil porque entre o Demo e qualquer outro problema, a gente escolhe resolver o problema, certo? Mas não. O Demo encantou os distraídos e os mal agradecidos. Teve uma senhorinha que veio no meu portão com umas ideias doidas, dizendo que tinha votado no Demo porque não gostava de votar em partido. Eu logo rebati:
- E tem gostar? Apenas tome conta do que a pessoa que você vota faz! E como é que você teve a coragem de votar no Demo, chamando por Deus, minha senhora? Não vê que Deus não vai dar as caras por aqui se a nossa terra for governada pelo Demo em pessoa?
- Ah, mas ele tem uns olhinhos que parecem contas de tão clarinhos...
- A senhora já viu ele sem o disfarce dos olhinhos? Já viu ele com aquele bafo de enxofre pedindo dinheiro em dólar, em milhão, em bilhão? Porque disfarce para o Demo é uma coisinha bem fácil. Mas se a gente fala em ajudar, em estar presente, o Demo pega até moto de água e foge como bom “fio de cão” que ele é... como se diz aqui “o descompreendido se some...vai pra treva carregando suas mentira disfarçada de verdade”...
E no sonho eu arregalava os olhos, tentando achar nos olhos da velhinha uma compreensão maior do problema. Mas, como em todo sonho, não era assim tão fácil abrir os olhos:
- E quem vai consertar essa calçada, se não é o presidente?
- Presidente não nasceu pra consertar calçada. Isso é coisa de prefeito.
E de coisa em coisa, no meu sonho eu instruía e tentava resolver a calçada toda destruída, a boca de lobo entupida, a rua suja, o terreno do prédio em frente a minha casa, sempre cheio de entulho e sujeira, a larva do mosquito da dengue que mora na casa do vizinho rico, o cavalo que os meninos tinham colocado pra comer o capim do terreno baldio... meu Deus era explicação que não se acabava...
Aí, apareceu a voz já conhecida, rouca, de um senhor – dono de uma energia invejável – o candidato que queria, que ia, que tinha coragem pra enfrentar o Demo! Os implicantes teimavam que o senhor era ruim, mas eu via que não era e tentava avisar desesperada... que agonia!
Nessa hora o sonho me prendeu a respiração e eu fiquei me batendo e querendo falar dormindo, gritar alguma coisa, mas a voz ficou presa, não saía pela minha boca. E eu fiquei igual a doida, puxando a voz pra fora da boca, puxando, puxando, até que... de repente abri os olhos e o Demo tinha sumido. A voz tava lá boazinha. Ao contrário do sonho, tinham aparecido muitas pessoas pra ajudar o povão a ir cada um para seu lugar, apertar um botãozinho. Coisa simples. Quem quisesse votar no velhinho apertava um botão e quem quisesse votar no Demo apertava o outro. Junto da gente veio um bocado de menino-aluno, mas também veio menino não aluno, trabalhador com pouco e com muito estudo. E foram se juntando, como se fosse uma rede de pegar peixe pela verdade e assim fomos. Cheguei no meu lugar. Fui logo das primeira e fiquei quieta, esperando minha vez, ali encostada perto do portão, rezando. Era chegada a hora... Chamaram meu número e eu fui vendo nos olhos das pessoas, da Bahia inteira, um número certo, que todo mundo repetia e uma cor. Todo mundo igualzinho, parecendo coro de igreja... uma beleza, gente...
Fui logo apertando meu botãozinho... Ole, ole, olá... Votei nele e ele ganhou!
- E tu, coisa ruim, tu vai pro lugar de onde tu veio... xô, Demo, xô!
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Precisamos da ajuda dos Deuses”
Deixa eu te contar a história de uma mulher que conquistou outra mulher. Um homem, a quem ensinaram que ele era o garanhão da família, da cidade, do mundo, foi lá e roubou. Não aguentou não provar, não aguentou não ser ele o que conquistava, não aguentou não ser o número um. Não ficou por aí. Para tudo ficar perfeito criou uma ideia em todos à sua volta de que aquela mulher era tradicional, boba, fraca, frígida, incapaz por isso de conquistar fosse quem fosse. Isso fez com que seu roubo não tivesse punição, mas sim imensos elogios. Os humanos não foram capazes de ver a realidade nem perceber a injustiça. Será que os Deuses também não vão perceber?
Deixa eu te contar a história de uma mulher que trabalhava na política, que percebia todos os esquemas fraudulentos e corruptos dos homens que trabalhavam no mesmo lugar que ela. Mulher que não se calava, mulher que enfrentava os momentos, denunciava as irregularidades. Corajosa, firme, negra, linda. Mulher casada com outra mulher – uma afronta para alguns homens. Uma noite, saindo de um encontro político de mulheres negras, foram disparados imensos tiros para dentro do seu carro – mataram essa mulher e seu motorista. Foram destruídas imensas provas, foram inventadas “narrativas”, foram encobertos os criminosos. Alguns mandantes e “participantes” se fizeram muito amigos da família da assassinada. Vários horrores associados, horrores que só podem ser cometidos por pessoas horrorosas. Ao fim de vários anos descobriram-se alguns culpados, mas não todos. Ou melhor, todos no Brasil sabem quem são os envolvidos mas não existem provas – que foram destruídas, como já tinha referido. Os humanos não conseguem ter as informações e provas suficientes para fazer justiça. Será que os Deuses conseguem?
Deixem vos contar outra história, de uma mulher de 21 anos, que foi eleita como deputada federal, pelo Estado de Minas Gerais, mulher negra, bonita, informada, educada, corajosa, esclarecida. A maior pontuação de sempre, na eleição de uma deputada federal. Uma afronta aos políticos que nada fazem, que pensam que tudo é deles, que, como ela própria diz, “não são nem de direita nem de esquerda, são bolsonaristas, por isso de extrema direita”. Uma democrata de 21 anos mostrando o que faz bem e o que faz mal ao Brasil de todos, mostrando saídas, mostrando soluções, mostrando os perigos, fazendo avisos conscientes, colaborando com o presidente do Brasil. Uma democrata incómoda eleita pelo seu trabalho nas redes sociais. Pois foi eleita há uma semana e já tem imensas ameaças de morte, de estupro, e tudo o mais que possamos imaginar de pior. Os humanos que não prestam não aceitam a realidade nem aceitam a justiça. Será que os Deuses vão permitir que façam o mal? Que continuem a fazer o que querem de mais ignóbil?
3 histórias, o mesmo raciocínio, a mesma sensação de que podem fazer o que querem, que nada lhes acontece. Quem os protege, seja homem ou mulher, seja político ou não, seja família ou não, serão responsabilizados, não pelos humanos, mas pelos Deuses, pelos que realmente mandam nisto tudo.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Almada Negreiros
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