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2 Contos: “Não queiras algo que não dás conta” e “INTERESSES MODERNOS E CARINHOS ANTIGOS”

Conto “INTERESSES MODERNOS E CARINHOS ANTIGOS”

              Percebeu assombrada que aquele mundo onde a sua palavra valia muito tinha acabado de vez. Um mundo onde as pessoas, mesmo sem internet, lotavam as ruas para exigirem dos militares “DIRETAS, JÁ”. Onde se acreditava que poder-se-ia sonhar com um mundo onde os direitos fossem um pouco mais igualitários – pelo menos um pouco mais.

              Fizemos isso e parece que depois somamos pequenos retrocessos até chegarmos aqui, pensou. Não apenas em um lugar onde as pessoas prometem e apertam as mãos, apenas para saírem bem nas fotografias do Instagram, mas para, enquanto fazem isso, estarem fechando acordos de traição – não apenas contra políticos – mas contra o nós, o povo do Brasil.

              Olhou a # mais importante do dia: #Congressoinimigodopovo. Os políticos nem se importavam mais de estarmos em ano eleitoral – pensou. Olhou no feed e lá estávamos nós, as mulheres, na mesma – assassinadas de todas as formas possíveis e imagináveis. Aumentou a busca. Piorou: Assassinatos de LGBTQIA+ eram uma constante, uma rotina. Aumentou ainda mais a lente: crianças se machucando, sendo sexualmente abusadas, viciadas em jogo, se autoinfligindo cortes, sendo anestesiadas para machucarem seus corpos, animais, tirarem suas vidas. Tudo online. Um espetáculo macabro. Era amargo: os políticos não colocavam em votação nada que pudesse proteger as crianças, ao contrário: ameaçavam os juízes da Suprema Corte para que nada disso atrapalhasse os lobistas ao redor de suas órbitas.

              Era tudo muito nojento, abjeto.

              Ouviu o sino de casa tocar e foi ver quem era. Sorriu de leve. A criança na sua porta tinha confiança suficiente para tocar e estender-lhe as mãos – só um bom dia, disse. Em casa, tínhamos lhe dado um tênis, que ela havia “economizado” porque ele era muito bonito para servir para a escola. Arrumou então um mais usado e lhe deu – ela pegou os tênis e lhe esticou as mãos. Ficaram de mãos dadas por poucos segundos, a mãe dizendo que se não desse no pé da menina ia dá-lo para a sogra.

O ambiente do dinheiro tinha evoluído para pior – todos se pondo à venda. Mas no ambiente simples de uma casa, os olhos procuravam pelas pitangas, mas as pediam, antes. Pegavam os tênis, mas havia gratidão no processo. O que havia acontecido com os adultos, ela não era capaz de avaliar ou mesmo adivinhar. Apenas ficou por ali, sentindo a beleza do momento: ela, a menina e sua mãe, pequenos lembretes de humanidade, sorrisos, mãos esticadas e passadas pelo meio das grades do portão... um momento, uma vida, uma pequena conversa entre mim e uma criança de 11 anos.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Não queiras algo que não dás conta”

Conheço uma mulher que diz que tem intuição, que diz que sente coisas, que diz que regularmente sua cabeça se gira para olhar para um lugar, ou olhar para determinadas pessoas.

Já assisti algumas vezes a isso e realmente não sei bem o que dizer porque sempre achei que quando ela falava isso, era exagerado ou até inventado. Mas uma vez, estávamos conversando enquanto assistíamos televisão e de repente ela me disse que a publicidade que acabava de passar tinha sido feita por um amigo.

- Como assim? – perguntei eu.

- Aquelas mãos – dizia ela – aquelas mãos eram de um amigo meu. Tenho a certeza.

Não entendi bem a situação. Como ela vê uma mãos numa publicidade cheia de mãos e braços e pessoas e coisas e umas mãos são reconhecidas, em um segundo? No dia seguinte, ela me levou a casa do amigo. Lá ela perguntou-lhe se ele estava fazendo alguma publicidade na TV. Ele perguntou por quê. Ela falou que viu suas mãos na TV, numa publicidade, sabendo que ele nunca fez nada disso na vida.

- Meu Deus, como você as reconheceu? Nem minha mãe percebeu... – disse de imediato o amigo.

Sai de lá impressionada, o amigo dela também.

Passado algum tempo, estávamos caminhando numa calçada, junto à praia, na cidade onde morávamos. Ao atravessarmos a rua, ela do nada me disse:

- Acho que seu ex-namorado estava naquele carro.

- Pera aí, agora tu exagerou. Meu ex mora a 4.000 km daqui, que eu saiba nunca veio a esta cidade e ainda por cima, aquele carro é muito pequeno para ele dirigir. Ele só gosta de carrão.

- Ele não está dirigindo. E é ele que está no carro.

A conversa ficou por ali. Eu fiquei com a sensação que ela parecia atirar para ver se chutava. Na primeira, a das mãos do amigo, ok, mas esta? Aqui exagerou, pensei eu.

Afinal, passado um bom tempo, cruzei-me com o seu ex, num curso nacional da nossa área de trabalho e a primeira coisa que ele falou foi que foi com a nova namorada à minha cidade e que me tinha visto com sua ex, caminhando pela rua, perto da praia. Papai do Céu, essa me deixou espantada. Minha amiga e seu ex, nunca mais se falaram, desde a separação por isso, não dava para isto ser inventado. Tive de aceitar que a coisa tinha sustento, tinha mais uma confirmação.

Desde esses dois episódios, passei a aceitar sua tendência para sentir, ver e descobrir coisas que eu nem sonhava. A tal intuição. De vez em quando, lá surgia de novo mais um episódio inusitado e interessante porque para além de ser estranho, isso ajudava sempre alguém. Era impressionante quando a gente assistia ao vivo a uma dessas situações.

Um dia resolvi aproveitar seu “talento” ou intuição em meu benefício. Minha natureza sem vergonha, moveu meu corpo na direção a ela e tentei.

- Queria te pedir um favor.

- Claro. Diz por favor o que desejas. Se eu puder...

- Será que você poderia utilizar esse seu dom para me fazer um favor?

- Como assim?

- Isso que você faz, essas coisas de olhar e ver umas mãos e identificar alguém de imediato, ver os pés de outra pessoa ao longe e saber quem é, identificar alguém dentro de um carro, olhar para o lado e ver alguém que não queria ser visto por ninguém, etc.

- Que bom que já entendes tudo isso. Mas queres ajuda em que sentido? Porque nunca fiz isto para ter vantagem, muito menos para prejudicar alguém. Eu não programo nada, a vida é que me faz tudo isto.

- Sim, sim, eu entendi. Não te preocupes.

- Ok então vamos lá. Me diz o que desejas.

- Queria que conseguisses o número de celular de um cara que eu quero muito conhecer, mas nunca consigo seu número. Ele não dá a ninguém e quem tem seu número, não me dá. Pensei que poderias conseguir ver o seu número no celular de uma pessoa dessas, sem ninguém dar conta.

- Eu te disse que não é bem isso que faço, mas vou tentar ver se consigo algo.

- Gratidão, gratidão.

Nunca mais a vi. Passados umas semanas, nos encontramos, mas ela não dizia nada sobre o assunto. Ganhei coragem e perguntei:

- Conseguiste fazer aquele favor que te pedi?

- Consegui de forma incompleta.

- Como é isso?

- Está aqui um papel com uma mensagem dele, mas não consegui o número.

- Sério? Puxa vida...

Me entregou um papel. Abri. Desmaiei de seguida.

No papel tinha a seguinte mensagem:

“Você quer casar comigo?”

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Picasso


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


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