2 Contos: “MEU “AMADO MESTRE”” e “Caça sem caça”
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Conto “MEU “AMADO MESTRE””
Todos os dias e sempre em campanha por mais cordialidade social, eu e ela caminhamos pelo bairro. Mil “bons dias”, cachorros pulando ao nosso redor, afeto. Ao redor do afeto, pessoas – muitas, cada vez mais. Para alguns, um bom dia, para outros um sorriso, um carinho, uma conversa. Passamos a ter “companheiros de caminhada”. Diários. Divertidamente diários.
- Vou explicar. Tenha paciência até eu acabar de falar:
Nosso mais fiel escudeiro é um professor de história, que de alguma forma ainda estranha o fato de que falamos com as árvores, os postes! O fato de que paramos para olhar nos olhos das pessoas lhe chama a atenção.
- Isso sim é uma chance de fazer parte da equipe de vocês nas próximas eleições!
E lá vamos nós, todos os dias, com explicações diferentes sobre as coisas. Não importa nada se concordamos com tudo ou não – aproveitamos cada passo da caminhada, nos divertimos.
Chegando em casa hoje, eu e ela nos pegamos no telefone com nosso escudeiro – que queria continuar falando de história – pedindo pra ele trocar uma farinha de tapioca que lhe demos por não termos aula com ele amanhã. E isso às gargalhadas:
- Amado mestre, amanhã nos dê uma chance de não ter aula!
E rindo, olhos brilhantes, me lembrei que viver requer tão poucas coisas às vezes... é tão divertidamente simples trocar ideias, informações – ele falando do Brasil império e ouvindo sobre a nave Orion, a operação Artemis II, Helio 3, as fotos incríveis, o “bully Trump”, a absurda destruição da Palestina, o mundo olhando atentamente para a vergonha de Israel, D. João VI, D. Pedro I, II, filmes mal feitos. Nada é perdoado por nós!
Amado Mestre – termo vindo do tempo em que o Brasil tinha Chico e Jô – gênios do humor. Do tempo onde Bolsonaro poderia inspirar Chico e Caetano com suas intolerâncias. Do tempo onde falávamos...
- Vocês se lembram como era pegar uma caneta e saber escrever? Como era cortar um bife em pedacinhos, sabendo como segurar o garfo e a faca? Vocês se lembram de como era saber fazer contas e ainda caminhando pelo mercado pra não sofrer a decepção de ter que devolver produtos no caixa? Vocês se lembram como era discutir política, sem esbarrar na polarização? De podermos nos dar ao luxo de não transferir nosso título de eleitor para pressionar os políticos medíocres que temos a trabalharem pelo Brasil e pelo voto facultativo? Lembram como se driblava os burros da censura, na ditadura? Os miseráveis da tortura?
- Ah, amado mestre...
Vendo os sorrisos, me lembrei tanto que era tão melhor quando não se comprava felicidade em shopping e se ia tomar vacina sem ser com aquela cara de paciência forçada para a pergunta: Você toma vacina? Ah, amado mestre... o marketing criou um isolamento mental cada vez mais absurdo! Adoro a chuva de palavras! Mesmo as mais absurdas. Adoro quando chovem palavras!
- Amado mestre, oh meu imensurável guru...
Viva a Escolinha do Professor Raimundo, gente... Mas eu ainda tenho o meu guru. E quem é ele/ quem? Quem?
- Raimundo Nonato! Mas isso é para uma próxima história...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Caça sem caça”
A caça era um costume antigo e de família. A tradição era longa e continha muito reconhecimento e consideração para os que faziam parte. Passava de pais para filhos, há gerações e gerações, além de ser uma forma de manter sólidas as relações entre famílias.
Quando abria a época, todas as quintas-feiras e domingos, bem cedo, pela manhã, lá vinha aquele burburinho de gente se organizando, com seus cachorros, carros, reboques, e todo o equipamento e mantimentos para um dia longo nas montanhas.
Dizem que em algumas manhãs, estas pessoas, ao saírem de casa, se cruzavam muitas vezes com seus filhos que vinham das festas noturnas.
Dizem que as comidas que levavam eram verdadeiras delícias gastronómicas.
Existiam inúmeras regras lógicas na forma como todos aqueles homens se distribuíam pelo terreno, para não acontecer a infelicidade de, ao dispararem para acertar num coelho ou codorniz, atingir um deles. Existia também a regra de que nenhum devia caçar sozinho. Se existiam problemas que se deviam evitar quando eram muitas pessoas e muitos cachorros, também existiam problemas óbvios quando alguém ia sozinho com seu cachorro ou cachorros para uma montanha cheia de desníveis e mata cerrada.
Este homem fez a sua vida na caça sempre com imensas pessoas - seu pai, amigos de seu pai e seus irmãos. Depois seu pai morreu e ele passou a ir com os amigos do pai e seus irmãos. Depois os amigos do pai foram morrendo e o grupo diminuindo. Depois ia só com os irmãos. Depois os irmãos também foram deixando de ir por problemas de saúde e ele começou a ir sozinho. A família ficava sempre com medo que ele caísse, ou se sentisse mal, ou até se cruzasse com algum animal ou pessoa perigosa. Ele ia e sempre voltava. Passou a avisar para que lugar da montanha ia para, pelo menos, se saber onde procurar, se ele não voltasse. Mas não era mais uma situação confortável.
Como não tinha filhos, seus irmãos também não, sentia que a tradição estava em fase final. Também já devia se sentir feliz pois tinha acontecido durante uns bons anos. Os tempos estavam mudando, a caça já não era mais um esporte saudável e aceite socialmente e estava cada vez mais dispendioso. Uma arma e sua licença, cachorros, sua alimentação e cuidados com veterinário, transporte, roupa própria, eram despesas que já não conseguia sustentar. Estava ficando mais velho, mais lento, com menos dinheiro para extras. Seus irmãos deixaram de caçar e não pareciam estar tristes com a situação. Talvez fosse o momento de ele também parar. A tristeza era maior porque amava a montanha, amava aquele silêncio, o movimento dos pássaros, a mudança do clima, as pequenas alterações na mata. Eram realmente momentos de muita felicidade para ele.
Um dia, a filha de um primo, pediu para ir com ele. Estranhou uma menina tão jovem querer ir para uma atividade que para ele era de homem. Disse que não, que era perigoso para ela. Ela insistiu, dizendo que amava a montanha, que nunca podia ir lá e que o homem, se aceitasse, naquele dia, podia ir sem a arma, apenas para lhe mostrar os locais onde caçava. Ele gostava de companhia, estava cansado de ir só, por isso resolveu aceitar. Aceitou, mas levou na mesma a arma e o cachorro. Não conseguia ir sem eles. Lá foram. Saíram bem cedo de carro. No local o homem foi explicando como se fazia na montanha – cuidados com os pés, saber para onde olhar, prestar atenção aos sinais dos cachorros. Ela foi ouvindo em silêncio. Ficaram caminhando horas e nada de coelhos. O homem acabou por desabafar dizendo que ela, a jovem, tinha afastado a “caça”. Ela fez cara de lamento, mas por dentro estava feliz, afinal ela detestava caça. O amor dela era pela montanha e pelos animais e vegetação da montanha. Aquela paz, aquela serenidade, todos aqueles pequenos barulhos da mata, era tudo maravilhoso.
De repente o homem fez um sinal com a mão para ela não fazer barulho com os pés, apontou também para o cachorro e para que ela prestasse atenção aos seus sinais e movimentos. Pegou na arma, carregou com dois cartuchos e colocou-a em posição de espera. Quando o cachorro deu sinal, ele colocou a arma na posição de disparo. Era o momento. Bem nesse momento a jovem inventou um espirro e estragou todo o plano. O homem baixou a arma, olhou para ela, primeiro furioso, mas depois deu uma risada quando entendeu que ela fez de propósito. Percebeu naquele momento que talvez o tempo de caça tenha terminado e os tempos tenham mudado o objetivo. Talvez deixasse de levar a arma, continuasse a levar os cachorros e trouxesse sempre a jovem. Talvez fossem tempos de observar, de preservar, de aprender. O seu amor pela natureza era imenso e precisava entender que os tempos mudaram. E a vida seguiu durante vários anos, e eles fazendo as caminhadas, todas as quintas e domingos, bem pela madrugada.
Os anos foram passando, aquela jovem foi para a universidade, estudar Biologia e Geologia, fez o curso, fez mestrado, doutorado e foi convidada para dar aulas na universidade. Criou o dia da caça sem caça, na faculdade. Pela manhã era realizada uma caminhada na montanha que ela conhecia bem e pela tarde, cada um contava o que tinha “caçado”. Era uma caça de fotografias, de vídeos. Tudo aquilo tinha sempre a presença do grande sábio, o homem que a ensinou a caminhar, a conhecer e a amar mais ainda a montanha. Um sábio feliz por ter substituído uma tradição por outra.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Olesya and Andriy Voznicki
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