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2 Contos: “MANCHAS DA ALMA” e “Tantos Brasis!”

Conto “MANCHAS DA ALMA”

As fotos de toda aquela gente morta, em fila, criavam uma passarela macabra que retratava a inutilidade dos 7 anos daquele governador à frente do seu estado.

              - Meu estado, pensei. Afinal, ninguém se livra da raiz de onde nasceu. Ser carioca é um estado de espírito, um tipo de inteligência irônica, devotadamente à serviço do amor pelo Rio.

              - Isso não tem nada a ver com os corpos mortos, nessa peregrinação de violência que os políticos insistem em nos fazer engolir. São 30 anos vendo políticos de direita se acotovelando no estado – metade da minha vida – e uma fila de governadores bandidos, que já foram presos. Nem é mais novidade. Esse, o atual, dos olhos pequenos, suspeitos, tartamudeando desculpas hesitantes ou se enchendo do vento dos outros governadores que vieram usufruir da luz tenebrosa da morte, pisando em cima de pessoas que nem identificadas foram ainda, que tiveram que ser resgatadas do mato por seus parentes, que são e foram sempre “nadificadas”, enquanto na casa deles tem gente de todas as comunidades do Brasil - que varrem, cozinham e costuram para as famílias – a família dos outros. Poderia ser a sua. Quando uma delas morre, ganha a sua etiqueta de “ninguém importante”, não importa se é bandido, atropelado, apontador de bicho ou pipoqueiro. Todos fazem parte dessa população “nadificada do Brasil”, minha terra, meu País, minha vergonha.

              - Ah, então você está ao lado dos traficantes... – viu? Todos já viraram traficantes. Nem nome têm, nem tem perito suficiente pra fazer tanta identificação no Rio de Janeiro, não havia nenhum representante do Estado pra entrar no mato e resgatar 60 corpos – 60! - que a polícia agora diz que “nem viu, nem sabia que estavam lá em cima do morro - mas todos têm que ser traficantes. Claro! Afinal, o que seriam?

              - Pobres – pensou.

              Mas mesmo para os mais “primitivos”, fabricar mais de 100 cadáveres, mesmo “nadificados”, causa congestão na imagem de “bonzinho, de herói, de polícia”, do “senhor excelência”, no Rio, em Brasília, São Paulo, Santa Catarina, Minas e Goiás. Cadáver fede à podridão da política e seus mercenários. Cadáver fede à vergonha que sentimos por, mais de 100 anos depois, ainda não termos conseguido nos limpar do cheiro da chibata nos troncos e no Pelourinhos. É assim com os povos originários em suas nações, apontando para o caos branco, enquanto são dizimados por doenças que foram sempre exportadas pelos “civilizados”.

- Ci-vi-li-za-dos... Sabemos o que é isso?  Uma pessoa – um deputado mineiro, por exemplo – quando se sente importante ao subir num parlamento e gritar que “houve uma faxina no Rio”, depois de ver aquele morticínio - branquinho, arrumadinho, do cabelo bem penteado – pode ser chamado de ci-vi-li-za-do? Civilizado é isso? Ou outro, cavernoso, delegado daqueles de fugir de tanto medo, imitando um tipo de Hulk que nem pra mocinho serve, pode ser digerido como civilizado ou estamos ”engolindo sapos”, aqui?

- Parlamento, parlamentar, parlar, parlement, parler, parole – isso tudo não se refere ao ato de falar, às palavras ditas? Nós pagamos uma fortuna para esse tipo de espécime humano abrir a boca? Então você vê a fila macabra de 100 corpos assassinados, sem cabeça, cheios de facadas, abandonados no mato e pensa em faxina? E diz, e relaciona, morticínio com faxina?

- E há alguém que ouve o tal espécime mineiro falando faxina, pensa o que é uma faxina, imagina 100 mães, tias, avós, pastores, amigos, vizinhos, parentes, vendo o menino morto sem cabeça, cheio de facadas, morto pelas costas, abandonado no mato e concorda porque não é capaz de relacionar nenhuma daquelas pessoas – mesmo as que forem identificadas como bandidas - com nenhum parente seu? Com nenhuma pessoa que conhece?  Então você que tem pena de ver uma galinha, porco ou boi ser morto, vibra e goza com essa cena?

Só suspirando bem fundo... Eu, que passo nesse Calabar de meu Deus todo santo dia... Que caminho nessa Salvador de meu Deus todo santo dia... aqui, quase todos são pretos e preto sem camisa e de sandália Havaiana...

- É senhor deputado... Preto é esse “nadificado” por essa sua boca imunda, que joga tripas e sangue para o alto e grita, feliz: “Vamos lá Brasil! Banho de sangue! Que coisa maravilhosa pra eu aproveitar e conseguir mais votos dos otários que ainda pensam como os senhores de escravizados do século XIX!

- Sabem quando o problema de segurança vai acabar? Nunca! Pra esses políticos é tão fácil, tão bom falarem contra os bandidos... Eles soltam foguetes porque basta deixar como está e assegurar seus salários por mil mandatos! Não é à toa que repetem o mesmo discurso, ainda que todas as pesquisas apontem que a solução do problema está exatamente no lugar oposto!

- Cidade, civitas, cidadão... nós sabemos o que é isso? “Cidade: condição ou direitos de cidadão" e, por extensão, o conjunto de cidadãos que componham uma comunidade”. Isso é o que significa cidade... Quando um governador de olhos apertados, tartamudeando machezas hesitantes que nós sabemos que ele não tem coragem para sustentar na frente do povo, com o peito aberto - você aí eleitor, que para esses políticos é um nada como todos os outros pobres que morreram, sente o quê? Imagine seus ancestrais. Imagine seus parentes. Caçados no mato. Sem cabeça. Se imagine tendo que ir lá no mato resgatar seu sobrinho morto, decapitado, reconhecer seu sobrinho no IML. Você, o tio. Agora imagine um deputado desprezível, pegar o microfone do nosso parlamento para dizer que aquela pessoa – que ninguém sequer identificou ainda – foi “faxinada”. Imaginou? Nunca mais vote nessa gentalha, por favor!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Tantos Brasis!”

“Rachaduras significam dor, mas é também por onde passa a luz.” Ouvi esta frase budista e lembrei dos meus primeiros tempos no Brasil. Não os primeiros, primeiros. Esses foram perfeitos, luxuosos, confortáveis, mas também percebo agora que eram fúteis e falsos. Em 1998, 1999, 2000, 2002, o Brasil que conheci era cheio de gente me agradando, me disputando, tentando cada um ou uma estar mais perto do que os outros ou outras. Eu era uma pessoa admirada e desejada. Tinha o mesmo corpo, a mesma mente, mas representava um estado, tinha um cargo notável, era figura pública. Vocês não imaginam a diferença que isso faz na vida de uma pessoa. Nem eu imaginava. Aliás, eu só entendi quando voltei ao Brasil para viver. Só quando voltas ao lugar onde julgas ter sido feliz, é que percebes uma de duas coisas: ou percebes que tinhas sido feliz e nunca mais o serás, ali, ou, percebes que aquilo não era felicidade, era hipocrisia e que agora é vida de verdade e precisas estar agradecida por ver essa verdade.

Ver a verdade de que, por exemplo, os teus amigos tens de ser tu a fazê-los. Por exemplo, aquelas pessoas que se diziam tuas amigas quando eras figura pública, evaporam. No momento você racha, mas depois, depois entra a luz. E você agradece por viver sem essas pessoas.

Ver a verdade sobre o perigo e a insegurança. Se não fores humana, na tua vida e com a dos outros, se fores uma pessoa cheia de joias e carros e casas, se não fores capaz de te preocupar com ninguém, não cumprimentar ninguém, não dividir o mundo com os outros, se te achares superior, podes ter a certeza que os que sofrem, passam fome e vivem a injustiça diariamente, ou se afastam de ti ou te atacam. Se te conhecerem, se perceberem que te consideras igual a eles, que os respeitas de VERDADE, serão teus amigos e tua família. Por isso um dos perigos é o afastamento, a distância, a frieza, ir a lugares que você não conhece, que não te conhecem. Não criar vínculos verdadeiros e amigáveis com todos à tua volta. Apenas porque és igual a todos, não és mais do que ninguém.

Quando você ouve uma menina dizer que come fruta quando a mãe tem dinheiro para comprar – e falamos de banana apenas – quando perguntamos se come legumes e verduras e ela diz que sim e responde “sim, como feijão”, quando você coloca o lixo na caçamba e pede licença aos homens adultos que estão procurando comida, nessa mesma caçamba e lhes pede desculpa porque seu lixo de hoje não tem restos de comida, quando no mesmo lugar pessoas deitam fora quilos de carne que sobraram do churrasco de domingo e nem sabem o que comprar, comer, desejar, tamanha é a quantidade de dinheiro que ganham, você acorda. Você acorda. Dói no início, rachas doem, mas depois entra a luz.

Eu tenho meu coração sangrando. Vivo com meu coração sangrando. Demorei a me habituar a essa sensação do sangue escorrer, dessa dor, mas a luz finalmente entrou nessa rachadura. A luz está me mostrando que valeu a pena ficar sem emprego, sem amigos, sem ajuda, desrespeitada, abandonada, criticada, gozada, etc. Rachas e rachas e rachas e rachas. Os anos passaram, meus tênis furaram, camisetas também, os cabelos envelheceram. É muita racha, muita desilusão, muito iodo para curar ferida.

Hoje, bem cedo, acordei com raios de sol na minha cara. Achei estranho, como isso acontece se durmo com tudo fechado? Abri os olhos e o local onde eu estava, era um local iluminado, florido e sereno. Não parecia meu quarto. Talvez estivesse sonhando. Mas era tão agradável. Uma parede do meu quarto estava toda furada. Parecia uma obra prima, uma escultura digna de prêmio. Notei que cada buraquinho tinha um nome, um título, uma data, uma legenda. Cada buraquinho era afinal uma racha e todas juntas construíram uma parede mágica por onde passa agora a luz do sol. Me aquece, me ilumina, me protege, me acompanha. Se eu soubesse que era isto que eu iria obter no final talvez não tivesse sofrido tanto. Mas se não tivesse sofrido tanto talvez não tivesse tantas brechas e tanta luz. Foi tão difícil que fez com que agora fosse tão bom. Bom porque sereno, bom porque simples, bom porque casual, bom porque indesejável a outros, bom porque invisível, bom, muito bom. Virão mais rachas. Sim, virão. Mas existe luz do sol, não mais luz artificial.

Estava admirando minha parede com minhas artísticas brechas e senti uma picada no peito. Coloquei minha mão no local e senti um líquido viscoso e quente. Fiquei tonta, minhas pernas começaram a ficar sem forças. Antes de morrer só lembro de ouvir: “Não era ela cara. Que merda! Casa errada. Vem, vamos embora rápido que o “bandido” que queremos matar não pode rir da gente.”

E estou aqui, desde que isso aconteceu. 28 de outubro de 2025. Tentando entender que racha é essa. Que tipo de brecha se abriu e que tipo de luz vai entrar. Daqui vejo minha família toda desesperada, minha mãe morrendo de desgosto. Deus, se isto é para fazer outra parede com brechas e luz, fique sabendo que não quero não. Essa parede não. Não está certo isso... Daí não sai luz, sai esgoto. Estou de mal com o Senhor.

Ana Santos, professora, jornalista


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.

 

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Imagem retirada do Site O Globo

 
 
 

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