2 Contos: “LEGAL E MORAL, MAS NEM SEMPRE” e “Ser Sabiá ou Ser Humano, eis a questão”
- portalbuglatino
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Conto “LEGAL E MORAL, MAS NEM SEMPRE”
Ela pediu de todas as formas, mas não teve jeito – todo mundo iria à festa, menos ela. A mãe não entendia, mas não era uma festa qualquer – o pai de uma de suas amigas viria buscar um grupo de pessoas de helicóptero e ela tinha sido uma das convidadas! Quantas amigas teriam o mesmo privilégio? Meu Deus, sua mãe não compreendia que não era só o convite especial – mesmo na volta, ela seria vista de outra forma, seria muito mais respeitada na universidade, seria aceita, teria mais chances! Acontece, que quanto mais ela explicava os privilégios, mais a mãe lhe negava o pedido.
- Filha, a minha profissão não permite essas relações.
- Mas a relação é comigo, não contigo...
- As pessoas vão te acusar e a mim também. Há favores que não podemos aceitar.
- Ta errado! O favor é pra mim, pra mim!
O tempo passou. Um belo dia, rolando a tela do seu celular, se deparou com uma matéria onde os convidados daquele passeio de helicóptero estavam sendo investigados pela Policia Federal. Foi correndo mostrar. Sua mãe estava triste, preocupada mesmo. Seu colega de trabalho não tinha se importado com o fato de que nem sempre o que é legal, era também uma coisa moral e ele mesmo tinha aceitado várias caronas daquele empresário. No mesmo helicóptero. Agora estava lá, tentando explicar que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, mas todo mundo falava dos tais “privilégios imperdíveis”, dos “convites irrecusáveis” e pediam a sua saída profissional de um caso, já que fazia parte de uma suposta “rede de amigos” que trocavam favores entre si. A mãe, sempre tão consciente da responsabilidade que tinha, do dinheiro que a pagava – dinheiro público precisa sempre dar explicação de suas idas e vindas – estava às voltas com os olhares suspeitos dos outros, já que sua filha estudava na mesma escola que o tal empresário.
A menina levou um susto: então ela tinha perdido a carona aérea e mesmo assim desconfiavam da mãe dela? Preferível então aceitar a carona, já que seria suspeita de qualquer maneira. O olhar da mãe perfurou sua vaidade: se ela trocasse de lugar com as pessoas e visse em risco quantias fabulosas que realmente tinham desaparecido, o que faria? Se sua mãe não tivesse meios de lhe pagar saúde, educação, festas, carro e ela dependesse do dinheiro que constrói os hospitais públicos e que por isso, nem sempre tinham o material necessário: linha, sangue, remédios, leitos, médicos bons? Quantas pessoas podem morrer por esse tipo de desvio? O dinheiro que passa pelas mãos dos órgãos públicos era sempre muito e parecia que nunca acabava. Mas acabava... Cada vez que um hospital, uma escola, em empresa pública acaba, as pessoas assistidas ali precisam procurar outros lugares e muitas podem perder muito mais do que uma consulta, uma aula... Podem morrer. Podem ver morrer um parente...
Ela nunca tinha pensado como sua vida se conectava à essas outras, quando nem conhecia pessoas atendidas pelo SUS. Sua vida escolar não tinha passagens pela rede pública. Deu meia volta e saiu da sala, sem dizer nada. Olhou o portão, o jardineiro ali fora, mexendo nas plantas. Tinham, ele e ela, as plantas em comum.
- Zé! Você tem plano de saúde?
- Sua mãe me ajuda a pagar um, mas muitas vezes eu vou a médicos bem melhores, indo ao SUS. A emergência de lá é incrível. E é claro que vacina é no posto de saúde e preciso levar os meus meninos a cada campanha. Por que quer saber?
- Engraçado a gente falar tantas vezes de plantas e nenhuma vez de criança... Eu nem sabia que você tinha filhos.
Entrou em casa e, da sua janela, viu a babá que a tinha visto crescer, a empregada... pra cada pessoa, uma família. Pra cada família, doenças, comida, livros, roupas, sabonete, shampoo, absorvente...
- Será que todos os brasileiros teriam dinheiro pra comprar sabonete e shampoo? Pra absorvente não tem querer!
Perguntou à mãe e espanto: houve deputados contra essa lei. Teve que vir uma deputada mulher pra brigar, junto com a bancada LGBT. Claro – pra conseguir os absorventes, tem que se inscrever na página do SUS.
Olhou então a postura da mãe de outra forma – era preciso sempre ser mais do que honesta porque as pessoas do mundo precisavam de ajuda para perceberem que o mundo inteiro não era delas e que existiam muitas diferenças que precisavam ser diminuídas. Sem essa postura rígida, como confiar nas pessoas?
- Quem afinal precisa dessa ostentação besta de chegar de helicóptero?
Olhou para mãe com outros olhos – havia finalmente percebido que seu maior orgulho estava no que conseguia dividir e não mostrar. Olhou a faculdade de direito com outros olhos, quis ser defensora pública, depois juíza. Mas seus olhos sempre se voltavam para a negativa da mãe, o helicóptero e os filhos do jardineiro que ela nunca viu.
- Mas eles estão aqui comigo, sempre. Não há o que me despregue da existência deles...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Ser Sabiá ou Ser Humano, eis a questão”
Existe na casa um local onde uma Sabiá fez seu ninho: uma coluna que segura o telhado da varanda. Mais ou menos duas vezes por ano, lá vem ela para ter seus filhotes. Coisa bem prática. Chega, dá uma melhorada no ninho, se instala. Logo os habitantes humanos da casa percebem sua chegada porque os dias passam a ter horários pontuados por vários tipos de chilrear. Aquele mais comum é o chilrear das 17h horas que deve querer dizer mais ou menos: “Rua! Está na hora de dormir. Não perturbem o nascimento dos nossos filhos, por favor!”
E assim, a varanda dessa casa, passa a parecer mais uma Maternidade onde se exige silêncio, limpeza, carinho e boa disposição.
Os humanos da casa vão se acostumando, aproveitando até esse equilíbrio gostoso da vida.
Uma manhã de verão, cai uma chuva muito forte. Tão forte, mas tão forte, que provoca vários estragos na cidade. Incluindo a destruição do ninho da Sabiá. E espantosamente, a Sabiá, apenas numa manhã, faz outro ninho de novo. Com uma ligeira diferença. Em vez de fazer o ninho no mesmo local, constrói na mesma coluna, mas na parte interior. Talvez para não sofrer outra surpresa dessas. Muito surpreendente a velocidade da construção. Afinal, os ninhos costumam demorar dias a construir mas, devido à urgência da situação, numa manhã se resolve. Parece sempre que tudo é “matemático” para as aves, mas pelos vistos, eles também passam por situações inesperadas. No entanto, não se ouve um pio, uma discussão, ninguém deixa de falar com ninguém, ninguém abandona o lar, ninguém amua, ninguém se lamenta, ninguém, ninguém, ninguém. Tudo é tratado, tudo é resolvido, mais lento ou mais rápido, de acordo com a tranquilidade ou não da situação.
Dizem que é a Sabiá fêmea que constrói o ninho e que choca os 3 a 4 ovinhos. Dizem que o Sabiá macho protege as redondezas e busca comida. Dizem que é perfeito o que fazem em conjunto. Em situações especiais, quando se sentem seguros naquele ninho, naquele ambiente, dizem que podem voltar por mais de 10 anos e até, chegar a fazer duas ninhadas seguidas, nesse local. Quando acontece, parece uma espécie de prêmio para os humanos que assistem. Mas as sabiás, os sabiás, seguem iguais, sem piscar mais, ou cantar menos.
No mesmo lugar, no mesmo horário, pode acreditar que lá estarão, fazendo o que é melhor, o que a vida ensina. Ouvem tão bem a vida que até conseguem ouvir as minhocas se deslocando na terra, a uma distância de até 13 centímetros. Enquanto isso os humanos da casa por vezes nem o alarme do celular ouvem, pela manhã.
Deve ser edificante ser sabiá.
Como será ser humano? Porque li que os humanos roubam ninhos, matam outras espécies, brigam muito, podem chegar a matar na sua própria espécie: sua própria mãe, a companheira, os filhos. Constroem ninhos muito maiores do que necessitam, alguns até colecionam ninhos. Nem sempre obedecem ao ritmo da natureza. Parece que têm dificuldade em respeitar os ritmos da natureza, do universo, do espaço, dos ciclos humanos.
Se um dia tiver autorização para viajar para o mundo, vou pedir para ir como Sabiá.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Jacopo della Quercia
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