2 Contos: “INTERNET NA LATINHA” e “Isso é gente?
- portalbuglatino
- há 3 dias
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Conto “INTERNET NA LATINHA”
Era uma vez uma Escola de Samba nova, inexperiente ainda, no grupo das campeãs. Caramba, foi sorteada pra pisar na Marquês de Sapucaí no primeiro desfile, do primeiro dia – barril, né? Arquibancada fria, chegando ainda, nenhum som de samba, nenhuma experiência pra puxar um povão daquele tamanho pra dentro da sua história, seu enredo. Eles tinham tido uma ideia genial – fazer um samba exaltação pra uma personagem que, mesmo virando o mundo de cabeça pra baixo e chacoalhando, seria difícil de encontrar. Um homem simples, de pouco estudo formal, nordestino, que se engajou na política sindical e simplesmente foi deputado constituinte e depois presidente de um País – não uma vez – 3 vezes. Não! Não foi o Abrahan Lincoln!
Se fosse nos Estados Unidos, se fosse na França, ele seria ícone das maiores biografias. Já teria virado filme, DOC, novela, musical, livro. Mas aqui, ele virar enredo é consagração popular, só por ter sido escolhido. Ser enredo não é pra qualquer um porque a pessoa precisa ter uma importância formal, mas também tem que ser popular. Tudo ao mesmo tempo. Principe Andrew – nunca vai ser enredo, por exemplo. Ah, mas o Charles dançou com a Piná! Mas quem foi citado no enredo não foi o Charles – foi mesmo a Piná, meu filho!
Pois a Escola inexperiente inventou um enredo popular com esse presidente – e foi parar em todos os jornais e TVs. De alguma forma conseguiu se apropriar de frases, melodias, histórias populares e usar isso em proveito próprio.
Você pode perguntar: “Proveito próprio”? Mas a escola caiu. Sim, caiu. Mas quem não conhece o nome da Escola de Niterói? Quem não viu que ela é azul e branco igual a minha Portela querida? E a pergunta de um milhão: você conheceria, se ela fizesse um enredo sobre outra coisa? Sim, porque – querendo ou não - falar de presidente é muito visível.
- Que esperteza, hein? O mundo inteiro falando de fato político – e o nome da escola; ajuda falsa ou verdadeira do governo – e o nome da escola; família na latinha – e o nome da escola; mil latinhas com as caras dos patetas se fazendo de super dignos por caberem em latinhas – e o nome da escola. Quais era as famílias “enlatadas”? Sei lá... Vi, mas dei scroll. Qual era o nome da Escola de Samba? Acadêmicos de Niterói. Acadêmicos de Niterói. Acadêmicos de Niterói! Todo mundo sabe! Todo mundo tem o nome na cabeça! Eu não vi o desfile da Mocidade – que tem a maior bateria do planeta - mas vi o da Acadêmicos de Niterói. Claro! Morria de curiosidade, tantos foram os comentários para o bem e para o mal. Afinal, eu não sei como se “enlata” uma família – foi um app? – mas sei como se chama a escola de samba que caiu – rapaz, quem se lembra de uma escola de samba que cai? Mas o Brasil todo sabe: Acadêmicos de Niterói.
As vezes uma história é tão boa que precisa ser contada - pode ser como um conto baseado na nossa imaginação, tanto quanto pode ser a vida ganhando de toda e qualquer forma de imaginação. Acadêmicos de Niterói! Que jogada, hein? Botou todos os comentaristas e TVs na latinha e se projetou nacionalmente! E descendo do grupo especial! Quem conseguiu essa façanha? A Acadêmicos de Niterói.
E quem perdeu tempo aprendendo a se colocar na latinha? Perdeu tempo – exatamente isso. E quem falou que isso vai afetar a campanha? Pensa assim: Banco Master, Bilhões, Escândalo, Denúncia, Delação Premiada, Congresso Inimigo do Povo, Votação do fim da escala 6x1, CPMI do INSS, problema, campanha, caos político – já esqueceram do carnaval, né? Alô, Acadêmicos de Niterói!
– Genial! Vocês venceram a realidade, a vida real, pegaram carona na vida de um cara de 80 anos, Presidente da República e caíram na boca do povo! Mereciam o Oscar! E com um samba chiclete ainda por cima, que é ora gente cantar sem querer! E que samba bom!
Tanta gente fazendo marketing contra o presidente, perdendo bastante o seu tempo e sem ver que a “onda surfável de verdade” era aprender o nome da Escola...
- ... Ah... Deixa de onda que você também sabe, todo mundo sabe: Acadêmicos de Niterói – o resto é gente boba fazendo papel de latinha... Mas tudo bem porque era uma fantasia de latinha e no carnaval... foi de boa...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Isso é gente?
- Tem alguma coisa errada.
- Onde?
- Em tanto lugar...
- Não dá para consertar?
- Não sei não. É tanta coisa que acontece de errado que por vezes dá vontade de sair e voltar de novo, como faziam meus professores nas aulas, quando eu era jovem.
- É, mas a vida não é assim não, meu chapa.
- Pois não. Tá difícil entender.
- Hoje ouvi uma frase boa para você.
- Qual que é meu irmão?
- “Aquilo que não é expresso, fica impresso.”
- Você lembrou de mim depois de ouvir essa frase? Caraca meu irmão...que estranho...
- Não, num é... Acho que se você falar algumas coisas que te atrapalham, que você considera erradas, talvez fique melhor.
- Mas não as resolve.
- Não as resolve mas melhora seu coração. Você fica mais calmo. Experimenta.
- Amigo, meu chapa, meu irmão, eu nunca ouvi falar nisso, mas vou tentar.
- Pode começar.
E o cara começou. Começou e não parou mais.
- Está tudo errado. Como é que um cara psicólogo, especialista em psicoterapia, um dos melhores do país, me apanha deprimido e bem nessa hora, me rouba a mulher? Ou um cara que mata os filhos e se mata por ter sido traído pela mulher, quando a todo o instante os maridos enganam as mulheres e elas têm de engolir e ficar na mesma? Isso é gente?
O outro cara ia começar a falar, mas não deu tempo.
- Como é que um amigo meu, que eu dei cama, comida, o levava para todo o lado, ele não gastava um tostão quando me visitava, quando passei a ser vizinho dele, nem me cumprimentava? Bem do lado dele, passei fome, fiquei doente. Ele viu, ele sabia e nada fez, nem um telefonema perguntando se precisava de alguma coisa. Como é que alguém que você confia seus segredos, aproveita essa vantagem e se aproveita de você? Como é que alguém fala mal de você, sem nem te conhecer? Espalha os boatos que lhe apetece? Sem nem te conhecer ou te conhecendo bem, mas querendo ter sempre razão mesmo quando faz coisa errada? Isso é gente?
E nem dava tempo ao amigo de comentar nada, porque seguia em frente. Ia ficando com os olhos enfurecidos, a voz cada vez mais alta, os braços mais agitados.
- Como as pessoas viram estas coisas e nada fizeram? Assistiram, perceberam como estava errado, mas nem se mexeram? Não se preocuparam, não sentiram nenhum dever em falar algo, fazer algo, perguntar algo? Impedir o que devia ter sido impedido? Aceitaram tudo como algo que apenas aconteceu sem nem sentir o dever, a nobreza de tentar alertar quem estava errado ou mesmo ajudar. Isso é gente?
O outro cara não tinha espaço para falar mas também não sabia o que dizer. Afinal, ele também foi dos amigos que nada fez. Nunca se lembrou de fazer nada. Ficava olhando, era verdade. Olhando e pensando como era possível acontecerem coisas tão injustas ao seu amigo, como as pessoas tinham aquela coragem de fazer coisas tão feias, e realmente nunca se lembrou de ajudar em nada. Estava envergonhado. Nunca nem pensou que ele ficaria melhor se lhe ligasse, se lhe dissesse que achava tudo aquilo uma enorme injustiça. Dava-se conta de que devia ter falado, pelo menos falado. Talvez pudesse o ter convidado para almoçar, de vez em quando. Parecia que ele estava passando fome, mas teve medo de o envergonhar e nada fez, em vez de o convidar para almoçar de vez em quando, para poder ajudar um pouco. Agora estava lhe dando lições de moral sobre se expressar, mas afinal, ele próprio, nunca se expressou com ele. Nem ajudou nem falou nada.
- Tem tanta coisa mais, mas eu preciso parar porque em vez de ficar melhor, fui ficando pior e pior. E estou capaz de explodir. Essa sua técnica não funciona comigo, viu? Tem sido demais. Desilusões, demais, desapontamentos, demais. E tu ficou mudo. Claro! Tu também ficou assistindo enquanto tudo acontecia, né? Mas deixa te dizer uma coisa. A vida não é nenhum filme. Não é para ficar assistindo não. Quando vês algo que não é justo, precisas encontrar uma forma de ajudar, seja de que maneira for. Como puderes, nem que só possas sorrir, ou dizer que lamentas, ou dizer que não concordas com o que está acontecendo. Porque evitas o isolamento daquela pessoa, evitas o sofrimento de se sentir injustiçada e não ter ninguém que lhe dê uma mão, que lhe diga que está errado o que está a acontecer. Eu cá me vou aguentando, me afasto dessa gente que não é gente, vivo minha vida sossegado, fazendo minhas coisas. Encontrei uma forma. Tive sorte. Tenho outro mundo, construído com corações de verdade, mas muitos que não conseguem fazer isto, se matam, e não sabemos se uma palavra, um sorriso, uma ajuda, um abraço, os faz ficar. Não sabemos, mas na dúvida, podemos fazer isso, que não custa nada. Mal não faz. Mas todos ficam muito preocupados quando Bolsonaro é preso – e merece estar preso – quando o Príncipe André de Inglaterra é preso – e merece estar preso – quando coisas acontecem com famosos. Agora o que está do lado, que se lixe, né? Vai lá ensinar essa técnica aos teus amiguinhos, vai. Eu vou sobrevivendo por aqui com o que era pouco e que afinal é muito – um terreno seguro, pessoas de verdade e saber com quem conto. Até sempre!!!!
O outro cara saiu sem dar um som, sem respirar, morrendo de vergonha, sem nem saber para onde ir ou o que pensar. Ele afinal fazia parte daquela gente que o amigo perguntava: “Isso é gente?”
Tinha razão. Não estavam sendo gente. Será que conseguiriam ser gente, algum dia? Ficou com medo de a resposta ser não. Como se tornou numa pessoa que não prestava? Será que ainda estaria em tempo de virar alguém melhor? Será que tinha essa coragem? Resolveu ligar para o filho.
- Oi filho
- Oi pai
- Estava ligando para saber se você queria ir na praia comigo, surfar um pouco.
- Sério? O senhor vai sempre com seus amigos...
- Vou, mas hoje queria ir com você.
- Beleza. Quero sim. O senhor me pega aqui em casa?
- Em 5 minutos
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Lorenzo Ghiberti
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