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2 Contos: “FACEBOOK BICHADO” e “Onde está a Liberdade?”

Conto “FACEBOOK BICHADO”

              Estava meio à toa, vendo o que tinha nas redes e, cada vez que as deputadas apareciam, vários “machões” resmungavam algo em seguida, tentando humilhá-las.  Tinha acabado de ver uma verdadeira aula de filosofia de Duda Salabert, relacionando Bolsonaro a Édipo – sensacional! Há, nela, uma inteligência discreta, mas que se expressa com poucas – e boas! – palavras. Tenho orgulho dela e cada vez mais mulheres falam isso para todos – e todas - ouvirem. No minuto seguinte a esse pensamento sobre Duda, apareceu Erika Hilton falando sobre as diferenças entre ela ser apenas ativista e agora deputada. Honestamente, fiquei pensando que as prefiro mil vezes como deputadas, já que como ativistas talvez eu nem as chegasse a conhecer. Minas, São Paulo e Bahia somam quase 20% do continente europeu, afinal.

              Fiquei olhando os comentários: jamais na minha vida me seria permitido ofender uma pessoa apenas por ela ser como é. Que porta afinal é aberta quando a ultra direita ganha uma eleição, no mundo? Que pessoas nosso País escondia, sem sabermos? O que antes os intimidava e que agora acabou? Será que os pais não educam mais? Não respeitam mais? O problema é o anonimato das redes? É a incapacidade de perceberem que aquelas abstrações virtuais que estão na internet, são pessoas de carne e osso?

              Homens jogam suas ex namoradas pela janela e saem assobiando. Sobem na calçada para atropelarem e matarem cachorros que estavam apenas deitados por ali e fogem – se escondem dentro do shopping – e se sentem ofendidos ao serem desmascarados. Facadas em LGBTs, facadas em mulheres lésbicas, facadas em mulheres heteros, facadas em crianças, em filhos. Tiro na cabeça dentro de casa, vira aposentadoria pra PM e mínima pensão para a filha da vítima, tiro no elevador, tiro na rua. Olho o elemento masculino e percebo que eles têm encarnado o “tiro, porrada e bomba”, do Trump, aquele puxa saquismo mais mesquinho.

              - Diga: mas não são todos! É verdade. Mas o assessor aleatório do Trump terminou o casamento de 20 anos e foi para o mundo inteiro dizer que todas as mulheres brasileiras são vacas imundas! Então, não seria o caso de todos os homens do Brasil sentirem vergonha do que fazem, apenas olhando para o mal feito do “colega ao lado”? Só um pouquinho... Só porque o Facebook aceita a falta de educação como se fosse um tipo de liberdade, isso não quer dizer que seja verdade. Minha mãe me olhava de lado e em seguida vinha o certeiro: pode sentar! – por horas – HO-RAS - de castigo. E eu nunca apanhei. Um tapinha de raspão e mesmo assim, muito às vezes! Então hoje, todos os homens vão levar o seu tapinha de raspão!

              - Podem sentar!

              Mais uma roladinha nas telas das redes e mais homens sendo rudes. Ah sim, claro que devem existir muitas mulheres que também o são – mas agora eu só vi homens e estou cansada de envelhecer, vendo os mais novos entrarem na Idade Média, enquanto eu quero um século XXI vitorioso... não vitoriano – vitorioso...

Das bocas bichadas do Facebook continuam saindo os mesmos sapos espinhosos e difíceis de engolir, mas esbarramos, graças aos algoritmos, em cada vez mais imagens incríveis dessas mulheres ainda mais incrivelmente corajosas: Erika Hilton e Duda Salabert. E claro que são invejadas por esses deputados de 5ª categoria que somos obrigadas a sustentar, mas fazer o quê? Até daquela lama fétida de deputados nascem flores maravilhosas! Como Erika diz: “As mulheres mudaram. Muitas não emprenham, não tem útero, não ovulam e algumas, algumas têm até pênis!”

- Homens, homens, durmam com o nosso barulho, ok?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Onde está a Liberdade?”

Liberdade. O que era a liberdade? Era algo que os adultos falavam, mas que eu nunca tinha visto. Era uma pessoa? Não! Uma comida, uma roupa, uma casa, uma rua? Não! Não! Não! Não! Era algo que eu nunca tinha visto, mas talvez os adultos também não. Então era algo que não se via? Como assim? Existem coisas que não vemos? E são assim tão importantes? E o que significam?

Esta, a liberdade, deve significar muito, porque morriam e morrem pessoas por ela.

Ela, a liberdade, fez meu avô materno deixar, por longo tempo, sua mulher, com bébé na barriga e dois filhos de colo e viajar para outro continente, em busca de trabalho árduo, de dinheiro, para a poder obter e depois dividir pela esposa e filhos.

Fez 4 tios meus, partirem para outro continente, com 14, 15, 16 anos, em busca de uma vida melhor, mais conforto, mais “liberdade”.

Fez uma tia minha mudar de país, apesar de um amor como nunca vi, ao seu país e à sua família.

Fez meus pais fugirem de um país em guerra, abandonando tudo o que tinham e voltando só com a roupa do corpo. Primeiro minha mãe, sem saber se meu pai iria ter direito a liberdade e à vida. E depois meu pai. Nunca nenhum lamentou as dificuldades que passaram para obter a liberdade e podemos imaginar com facilidade que devem ter visto e passado por momentos muito duros.

Faz pessoas abandonarem coisas, posições e situações que, aos nossos olhos, parecem boas, porque preferem a liberdade.

Preferir passar fome, dormir no chão, perder a casa, perder o conforto, perder emprego, perder o respeito, a admiração, enfim, perder tudo, pela liberdade, já vi gente fazê-lo. E nos seus olhos não vejo mais do que luz, alegria e satisfação – futuro.

Jailton, nosso Deus das obras, tem um sorriso e uma alegria, que não se obtêm enganando, corrompendo, manipulando. Aquele sorriso vem direto de seu coração puro, bondoso. Vejo ele perder dinheiro em alguns lugares onde vai fazer obras, mas ele prefere perder o dinheiro. Tem linhas que não ultrapassa. Para não perder sua liberdade.

Sabia que existiam histórias de pessoas que morriam para salvar seus filhos, seus pais, seus irmãos, seus amigos, vizinhos, ou apenas alguém que estava em perigo de vida. Pensar que a liberdade está nesse lugar, em que as pessoas se incendeiam, se envenenam, se atropelam, por ela, é extraordinário. Como ela é importante, poderosa, desejada...

Eu sou nova, digo que morria por um chocolate, mas são só palavras. Entre ir brincar com minhas amigas e morrer, prefiro brincar. Dá menos trabalho, incomoda menos as pessoas. Não gosto de dar confusão. Mas gostava um dia de sentir em mim – deve ser isso a que chamam conhecer – essa sensação de liberdade. Dizem que eu sou mimada, que peço tudo aos meus pais e eles dão. Que se não dão, peço aos meus avós e eles resolvem, nem que seja às escondidas. Dizem que não sei o que é viver, que corro o risco de sofrer muito quando crescer.

O que será que significa sofrer? Porque eu sofro muito quando minha mãe não me deixa comer chocolate sempre que me apetece. Sofro mesmo, não é exagero, mas pelos vistos está muito longe do que sofrem os adultos quando não têm liberdade e aceitam viver e fazer coisas muito desafiadoras e inacreditáveis, para a ter.

Dizem que me arrisco a ser, em adulta, mais uma pessoa que não sabe o que é liberdade e, por isso, me torne uma adulta insuportável e injusta, impedindo muitas pessoas de terem e usufruírem da sua liberdade. Não entendi. Minha mãe me explicou que se eu continuar assim mimada, posso, em adulta, ao tomar conta da empresa dos meus pais, privar os funcionários de muitas liberdades – e eles não querem isso, nem meus pais, nem os funcionários. Eu nem imaginava que a liberdade das pessoas podia ser mantida ou retirada por outras pessoas, pensava que a vida já dava tanto trabalho, como a gente ainda aumenta a busca da liberdade dos outros? Fiquei com esse pensamento na cabeça. Tenho brincado com as minhas bonecas, falando sobre essa tal de liberdade. Perguntei se eu lhes dava liberdade, elas não respondem mas eu sei a resposta – não dou. Nunca tinha pensado nisso – tantas coisas que não tinha pensado. Brinco com as bonecas, faço o que quero com elas, nunca lhes perguntei se achavam bem, nem tão pouco imaginei se elas iam gostar de fazer aquilo. Preciso me preparar. Não quero estragar o que meus pais construíram. Quero aprender. Também quero que as bonecas gostem de mim e se sintam livres comigo. Vou começar a questionar-me se as brincadeiras com as minhas bonecas são boas também para elas – como elas não falam, vou fazer tudo, mas com o máximo de cuidado para pensar em mim e nelas. Liberdade para todas.

A parte mais difícil – o chocolate. Vou começar a pedir chocolate, metade das vezes que tenho vontade. E depois, ¼ das vezes. E quem sabe, pedir uma vez por mês. Preciso aprender como se busca a liberdade, como se consegue fazer sacrifícios, como se faz, para um dia ser capaz de buscar a minha liberdade, seja lá onde ela estiver. E saber proteger a liberdade dos outros.

- Ana?

- Oi Mãe?

- Vem à sala, vem filha. Está lá o chocolate que te prometi. Você hoje se comportou muito bem, fez sua cama, estudou, lá está o seu amado chocolate.

- Obrigada Mãe, mas guarde o chocolate. Hoje não vou comer. Prefiro deixar para o próximo domingo.

- Sério? Tudo bem. É uma excelente ideia. Mas você está bem? Não se sente adoentada pois não?

- Não, não. Me sinto ótima. Mesmo muito bem.

- Ok. Vou voltar para a sala então.

- Tá bom Mãe. Eu já desço.

- Ok.

Logo que porta se fechou, Ana foi em busca de algo para ferrar, tal era a vontade de abrir a porta e gritar “chocolate, por favor, chocolate, quero chocolate”. Ia ferrar uma boneca, mas não podia – lá se ia a liberdade da boneca. Olhou, olhou, olhou, pegou no seu travesseiro de dormir e ficou agarrada a ele, ferrando uma parte, até o seu coração sossegar e a ideia de chocolate passar.

“Aff que a liberdade é difícil mesmo...” pensou.

“Isto vai custar mais do que pensava”.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Picasso


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


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