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2 Contos: “EU AMO ERIKA HILTON!” e “Abençoados mosquitos”


Conto “EU AMO ERIKA HILTON!”

Engraçado - curioso mesmo - esse negócio de polarização. Ao escrever na minha rede social apenas “Eu amo Erika Hilton”, inúmeras pessoas se acharam próximas de mim o suficiente para me dizerem o que pensam – ou pior – o que imaginam, o que são capazes de imaginar, diante dessa frase simples.

              Foi como se alguém tivesse aberto uma espécie de chave da porta do inferno, com pequenos raios brilhantes – os dos concordantes. Mas coisas como “você não viu ele pelado, leva ele pra casa”, foram faladas naturalmente, como se ela não fosse eleita e reeleita todos os anos a melhor deputada do Brasil – e dentro dessa coisa de melhor do Brasil, com inúmeros projetos para pessoas do gênero feminino.

              Não conheço @erikahilton. Sou apenas fã dela, da sua determinação e fidelidade a nós, mulheres.

              Estava mesmo pensando nisso, quando encontrei uma pessoa conhecida no banheiro do shopping. Entramos juntas. Não podemos dizer que tenhamos planejado ser feministas, mas o decorrer do tempo e o machismo dos homens foi – e é – tão completamente irritante, que nos respeitamos por falar o que sentimos sobre fatos indiscutíveis, como o massacre que andamos sofrendo – uma espécie de epidemia cruel e perturbadora que não para de aumentar. Mas mal entramos, vimos as coisas muito mal paradas porque havia um homem – havia um homem! – dento do nosso banheiro, de Bíblia na mão, pregando algo que entendi ser contra o nosso gênero.

              - Ou adivinhamos o assunto ou estamos atraindo os malucos da vizinhança – disse eu.

              Entramos.

              - Moço, o senhor está dentro do nosso banheiro e eu vou  chamar a segurança do shopping pra te tirar daqui!

- Essas mulheres pecadoras...

- O senhor está fora do seu lugar!

- As mulheres biológicas...

- Tenha santa paciência, moço! Que miséria é essa de mulher biológica! Eu não sou vírus ´pra “proliferar biologicamente”, entendeu? – E movimento contínuo, já comecei a olhar ao redor, em busca de alianças. Pousei os olhos numa mulher halterofilista – “que sorte”!

- A função da mulher é servir ao marido...

Ali foi demais. Coloquei meio corpo para o lado de fora do banheiro do Shopping e comecei a gritar que tinha um homem tresloucado dentro do nosso banheiro. Juntou gente – ainda mais que o banheiro que eu estava era mesmo ao lado da praça de alimentação. Alguém chamou uma reportagem. Chegaram fotógrafos, jornalistas, fofoqueiros, curiosos. O restaurante esvaziou porque “a onda” era ver o que se passava no banheiro. Eu, a minha conhecida e a halterofilista começamos a organizar a entrada, por ali. A confusão era demais. Apareceram todos os gêneros, todas as idades, todas as personalidades. Um homem passou mão na halterofilista e ela “cresceu” na frente dele. Veio finalmente a Segurança do Shopping, seguida da polícia. O Homem da Bíblia, caçador de “pecadoras” saiu algemado e a multidão aplaudia enlouquecida.

Tudo frenético. Aparecemos no Instagram de meio mundo. Ganhei milhares de seguidores.

Percebi o que tinha acontecido na minha rede pouco antes, se desenhando de novo. Nunca tinha visto aquelas pessoas. Algumas pareciam surtadas e outras – certamente – estavam mesmo surtadas. Era como um “apagão cognitivo” que, em dados momentos, virava uma coisa coletiva. Uma TV me pediu uma palavra sobre o assunto.

- Não podemos apenas naturalizar 70 anos de atraso social, como se fosse uma troca simples de legumes numa sopa – disse eu. Há anos saímos da existência da “mulher parideira”. Atualmente nem é mais aceitável termos uma cadela apenas para parir filhotes, sem amor e sem vida social porque os cachorros são partes de uma família. De onde os homens tiraram essa história totalmente enlouquecida, achando e citando trechos da Bíblia aos berros, dentro do nosso banheiro, gente? Homens, nos deixem em paaaz!

Microfones na cara. Perguntas, flashes – clic, clic, clic.

- Homens nos deem paz de espiritooooo!

Ali me vi no trabalho de Erika Hilton. Tive o meu momento “Erika Hilton”, pensei. Cheguei em casa, peguei um fundo colorido lindo, entrei na minha rede social e escrevi: ERIKA HILTON, EU TE RESPEITO, ALÉM DE TE AMAR – tomei um bom banho e fui dormir, sem querer saber o que ia dar. E foi meu dia de vivência de Congresso Nacional, na vida real! Um lugar cheio de gente medíocre e louca, mas também de pessoas maravilhosas.

- Sou um ser político!

Ganhei o dia.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Abençoados mosquitos”

Hoje li uma notícia sobre um ataque de crocodilo. Parece que essa pessoa estava tentando tirar uma selfie, que incluía um pântano e um crocodilo lá longe. Enquanto estava preocupada em ajustar a imagem, não percebeu que o crocodilo se aproximou. Foi agarrada por aquela boca gigante, que te aperta, te gira e te leva para o seu ambiente – repleto de água, pântano, lama.

Senti um calafrio.

Há muitos anos, mais precisamente em 1992, fiz uma viagem a uma zona espetacular do mundo. Um lugar que me deu tudo aquilo que eu só via pela televisão, nos programas de Jacques-Yves Cousteau. De repente, aquilo que conhecia, sentada no sofá de casa dos meus pais, olhando uma televisão daquela época – sem controle remoto/sem comando – estava ali na minha frente, real, palpável. Impressionava ter tudo aquilo de forma real. Mas ao mesmo tempo senti que ficávamos um pouco inebriadas por tanta coisa incrível, como se estivéssemos numa espécie de sonho, e se é sonho, tudo é possível e nada de mal nos acontece. Sim, eu sei que não é assim, mas também sei que de alguma forma nos sentimos um pouco assim quando somos turistas, quando somos jovens, quando podemos viver e usufruir de situações que nem em sonho julgávamos possíveis. Todos sentimos isso, mas precisamos puxar o freio de mão, precisamos acordar e colocar o pé no chão, precisamos compreender que não estamos assistindo pela televisão, precisamos usufruir, mas sempre cuidando para nenhum “crocodilo surgir enquanto estamos preocupadas com uma boba selfie”. Não é fácil. Muito são capazes de o fazer, muitos não são capazes e desses, alguns têm sorte e nada acontece e outros são “engolidos pelo crocodilo”.

Vivo com uma sensação de enorme gratidão, sorte, benção, por não ter aparecido nenhum crocodilo, quando nessa viagem nos lembramos de ir à procura deles. Isso mesmo! Duas adultas, responsáveis, inebriadas pela curiosidade, fomos diretas ao perigo, pensando em como seria maravilhoso poder ver e estar junto dos crocodilos. Nesse dia a quantidade avassaladora de mosquitos impediu que acontecesse uma desgraça. Ainda hoje não sei por que fiz aquilo. Eu não queria morrer, achava genuinamente que poderíamos ver os crocodilos, e que eles, como num Zoo, olhariam para a gente e continuariam a sua vida. Ainda não sei por que a vida impediu e enviou tanto mosquito, mas tanto mosquito que fomos obrigadas a recuar – e ainda nos lamentamos por isso. Percebo hoje que existem momentos em que não prestamos atenção ao perigo, acreditamos na beleza da vida, mas algo que só existe em filmes e em documentários Jacques-Yves Cousteau, estando nós sentadas num sofá olhando a televisão. A beleza que vemos nos corais não impede que eles nos causem feridas muito difíceis de tratar, nos façam sangrar e o nosso sangue estimule alguns tubarões esfomeados a aparecer – e isso possa nos colocar em grave perigo de vida. A beleza de assistir ao mundo subaquático, não impede o barracuda de te atacar sem aviso e da sua mordida te causar problemas pela vida fora. A beleza das praias paradisíacas não impede que a gente possa apanhar insolações, alergias, infeções, dadas as condições agressivas e para as quais não estamos adaptadas. Tudo é beleza mas tudo é também cuidado.

Uma pessoa que eu gostava muito foi passear com o marido e o filho, numa zona lindíssima da montanha, com cachoeiras. Encostou-se numa zona protegida e essa zona protegida desprendeu-se. Ela caiu de uma altura monstruosa, em pedras e água. Em segundos tudo foi, tudo terminou, tudo se transformou.

Penso nos crocodilos, nos mosquitos, nas montanhas, nas cachoeiras. E penso nos homens. Também eles bonitos, agradáveis, charmosos, atraentes. Também eles cativantes. Somos capazes de ver a “imagem completa” no início? Durante? Viramos costas para tirar uma selfie? Quantas vezes fazemos isso achando que não tem qualquer problema? Vamos visitar o lado crocodilo deles, mesmo sabendo do perigo? Mesmo com mosquitos nos tentando demover da decisão? Por que a proteção se desprende, na relação com eles, com umas e não com outras? Falta de cuidado? Falta de sorte?

A vida é um mistério, mas não custa nada evitar os lugares que nos dizem que têm crocodilos em vez de ir a correr tentar ser a mais corajosa e capaz de ir em busca deles, de os ver e de sair dali viva. Principalmente sem cuidado nenhum, sem nenhuma ajuda, sem se informar melhor sobre os perigos.

A vida é um mistério, mas é bem diferente das fotografias e vídeos dos documentários, das redes sociais. Os animais, os homens e os perigos não parecem existir olhando apenas as mensagens, as imagens.

Desejo um dia visitar uma cidade do antigo Congo Belga, mas esse desejo vai ter de ficar guardado no meu coração apenas, porque seria a mesma coisa que tirar uma selfie dentro de uma jaula com 100 crocodilos esfomeados. Ou como conhecer um cara que sei que é perigoso, que já fez muita coisa errada com outras mulheres e mesmo assim acreditar que comigo ele será diferente. Nessas horas dava um jeito aparecerem milhões de mosquitos, não era?

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Marino Marini


Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.


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