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2 Contos: “EPSTEIN E OS HOMENS DO MUNDO” e “Eu era Príncipe...e serei”




Conto “EPSTEIN E OS HOMENS DO MUNDO”

              - Se não pegar, é viado! A mulher ta dando mole!

              Com que idade seus irmãos começaram a ouvir frases assim, ela não sabia. De repente, suas amigas chegavam em sua casa e os olhares deixaram de ser amigáveis e passaram a ser cobiçosos – alguns, até meio lascivos.

              - Eu não gostei do jeito que você olhou pra Susy, ok? Não me obrigue a te “embulachar todinho”. Pai! Meu irmão ficou olhando minha amiga igual a taradinho de ônibus!

              Estranhamente, meu pai nunca censurou meu irmão. Censurava a mim, se me visse com algum menino. Eu é que era oferecida. Sempre.

              - Tenha modos!

              Quando saíram os documentos do Epstein, as coisas lá em casa ficaram super confusas porque meu pai e meus irmãos censuravam muito, mas não tudo. Peguei meus irmãos comentando que tinha muita mulher “gostosa dando mole” naquele meio e que o cara tinha tanta grana que podia se dar ao luxo de comprar qualquer coisa – até mulher – soltou meu irmãozinho.

              Tem alguma coisa de muito errado no tipo de conversa sobre sexo, onde o menino ouve: - Se não comeu é porque você é viado. Ou: Se vier “apanhado da rua, vai apanhar de novo”. E no meio disso tudo, ninguém fala em sentimento. Não tem sentimento. O menino vai lá e “pimba” – “carimba a garota” e pronto. Aí é só você falar pra todo mundo que “pegou” ela. Resolvido – é homem hetero cis.

              Um dia, seu irmão pingou o vaso todo de xixi pela enésima vez. Saiu. Não limpou nada. Apenas deu meia volta e saiu do banheiro. Chamei minha mãe e minha avó.

              - Não vai ficar barato. Chame ele aqui no banheiro, minha mãe.

              O menino chegou e já pegou as 3 mulheres dentro do banheiro. Eu logo mandei pra cima dele:

              - Tu conhece o Epstein, ne? Hoje eu vou lhe mostrar onde a mãe dele falhou em sua criação.

              - Oxi...

              - Pegue o desinfetante e limpe esse vaso de dentro pra fora, ok? Todinho. Depois vá na pia e faça a mesma coisa. E depois faça o mesmo no chão do banheiro que você pingou também. Porque pinto não é mangueira sem piloto, ok?

              O menino ia ensaiando a resposta enviesada, mas ao olhar para a mãe e a avó, sentiu que o clima não estava para aquilo que diria. Ainda tentou se esgueirar do banheiro, mas sua avó estava na porta. Parada. Balde na mão.

              Eu continuei:

              - O Epstein era um grande matemático, sabia? Poderia ter impulsionado a economia do mundo. Ao invés, era um desclassificado asqueroso, tarado, pedófilo. A mãe dele deveria ter chamado o Epstein menino e tê-lo posto diante da verdade da vida: o dinheiro te salva até certo ponto porque num dado momento, o que você acumulou de nojeiras, te transforma em um arquivo vivo. Hoje você está aprendendo com três gerações de mulheres, que essa coisa de pegar, de pingar e sair de fininho, acabou. Acabou você falar como se fosse um tarado nocivo. E se eu te pegar fazendo isso com qualquer menina, mesmo na rua - o tempo vai fechar porque nessa casa também mora mulher. Pegue a escovinha, passe no desinfetante e comece a limpar!

              Minha avó tinha um brilho diferente nos olhos. Minha mãe começou a apontar os cantinhos da louça do banheiro ao meu irmão.

Naquele momento estávamos contribuindo para um mundo menos ardiloso, escamoteado e vil. Viva as mulheres.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Eu era Príncipe...e serei”

Que confusão está o mundo. Estava tudo tão organizado. Para quê tanta trapalhada? Parece que desta vez ninguém me quer ouvir, ninguém me obedece. Puxa vida! Eu sou da família real, seus comuns mortais! Eu tenho acesso a tudo o que eu quiser. Eu sempre fui de sangue azul e vocês sempre foram inferiores. Lamento, mas é assim que é, é assim que será. As regras sempre foram estas.

Estão muito incomodados por eu ser amigo de Epstein? Queriam o meu lugar né? E as meninas queriam ter sido as escolhidas, com toda a certeza. Tanto pensamento pudico! Nunca fizeram nada de errado? O que queriam que eu fizesse nos meus tempos livres? Trabalhar? Ajudar os necessitados? Poupem-me!

Tive uma notável carreira de 22 anos na Marinha Real Britânica, principalmente na aviação naval. Sou um privilegiado porque sou mais inteligente do que todos. Deviam entender que eu posso o que vocês nunca poderão.

Sempre que tive um problema, a família real encontrava forma de o resolver. Sabem bem como era. Aconteceu algumas vezes. Somos silenciosos, mas quando é preciso proteger o nosso reinado, aparecemos. E resolvemos. Sem levantar a voz, sem irritações. Com - como costumam dizer - com diplomacia. Sorrisos curtos, voz grave, bem vestido, postura relaxada mostrando que nada tememos. Entrevistas muito sérias e verdadeiras, com as perguntas e respostas que podem achar que são preparadas. Mas não são!

Assim como acham que eu sou amigo das pessoas. Eu sou diferente, sou superior, nunca esqueçam.

Ao longo dos anos fui encontrando formas excelentes de me divertir. Nem vocês imaginam o quanto! Décadas e décadas e agora os comuns mortais lembraram-se de me vir dizer que não posso. Ahahaah! Quem vocês pensam que são para me vir dizer o que eu posso ou não fazer? Agora? Depois de poder fazer tudo? Percebam, eu vou “perder” todos os títulos, as casas, o que quiserem, mas sempre encontrarei uma forma de fazer o que quero. Sempre. E vocês não saberão. Ou descobrem daqui a 20 anos, mas o que isso interessa? Eu sempre encontrarei uma forma de ter o que quero.  Meus amigos árabes já me disponibilizaram casas e “serviços”.

Percebam, vocês gritam, esperneiam, mas eu sempre farei o que quero, quando quero, com quem quero. Se tiver de dizer que não faço, direi. Se tiver de dizer que jamais fiz o que fiz, direi. Isso não me incomoda nada. Sempre encontrarei o caminho para o lugar que eu quero.

Enfim, para não dizer que a vida está perfeita só uma coisa me deixa aborrecido, se bem que alguém da família real não se aborrece, mas estou. Estou porque fui o segundo a nascer. Se tivesse sido o primeiro a nascer, era o Rei atual e tudo seria muito diferente. Vocês teriam de se vergar, mais ainda a mim e nada poderiam fazer em relação ao que que quero. Uma pena!

Isso e aquela entrevista que dei à BBC. Devia ter me treinado melhor. Tive que dar umas desculpas bastantes “esfarrapadas”, mas o que isso interessa? Ninguém me pega. Eu digo o que eu quiser, já falei! Que aborrecido este mundo de agora. Onde encontro outro Epstein? Ou, que ninguém nos ouça, este novo Epstein que encontrei, será que é melhor? Será que sabe melhor esconder as nossas formas de divertimento? Estas chatices me atrapalham...e eu quero me divertir gente!!!!

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Lisipo


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