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2 Contos: “DINHEIRO NÃO SABE ARGUMENTAR” e “Errar, um começo”


Albert Namatjira(1902-1959)

Conto “DINHEIRO NÃO SABE ARGUMENTAR”

Quando a pessoa se vê em meio a uma cena de preconceito – não importa qual – meio que olha ao redor, procurando um aliado que seja.

- Sua velha maluca!

Aquela fala era a anticiência pura. Todos os estudos afirmando que os atuais 60 anos correspondem aos antigos 40 e ela tinha que ver nas redes um atleta destratar uma mulher, apelando para menosprezar sua idade porque não tinha condições de argumentar qualquer outra coisa. Nem era o caso de falar de preconceito de idade, o etarismo, porque ela nem poderia ser vista como do grupo de idosos. Mas, na falta de argumentos, entram (ao invés de busca de informação, estudos técnicos, palavras novas, argumentos) - grosserias. Daquelas! O “pé sujo” onde você entra de nariz e ouvidos tapados perdia pra boca do rapaz.

- E eu que tenho idade pra ser até um pouco mais que a mãe dele, ouviria o quê, por discordar, hein? Será que ele é desrespeitoso com qualquer mulher do mundo?  Até a mãe? Até uma pessoa com a idade da mãe?

Nas redes não se falava se o problema masculino de falta de educação era nascido do machismo ou da falta de modelos femininos marcantes. O que se sabia é que ele havia se desenvolvido em meio a homens acostumados a grosserias. Tudo isso, toda a pobreza de convívio com o feminino, era resumido nas redes como uma “treta”. Mas “treta”, não dava a dimensão de como os dois universos – o feminino e o masculino – poderiam ser atravessados pela falta de educação de mais um “macho” – porque você pensa no Curry do basquete e vê um homem. É bem diferente.

- Não é a discordância; é a falta de educação que nunca é justificada. E agora há esse subgrupo masculino que não sabe conversar. Mas se não sabe conversar, se só grita, xinga e ofende, não importa se tem pouco ou muito dinheiro; nossas características mais humanas nascem do manejo da palavra falada e escrita. Se não as sabe manejar bem, já sabe...

A maior parte das mulheres de sua geração manejava muito bem as palavras porque havia brincado e se educado através delas.

- Esse menino, coitado... contribui com o mundo com qual coisa, além de dinheiro? Porque dinheiro todos temos. Uns mais, outros menos. Mas todos têm pelo menos um “troquinho” pra acelerar a economia. Então, o que se espera da vida, não pode ser só dinheiro. O que esses “pobres ricos” vão carregar da vida, na velhice? Como vão encarar a perda paulatina de capacidades?

- Que geração...

Envelhecer era uma preparação de anos – talvez de uma vida inteira. É preciso confiar na vida que construiu, no respeito que as pessoas sentem por você. E respeito não se constrói em um dia. Muito menos com palavrões e grosserias.

Olhou ao redor. Havia acabado de mandar arquivos de vídeo para uma editora nova, meio sufocada com as atitudes do seu presidente – um machista, mais um. Um grosseiro, mais um.

- Se as mulheres não se reconhecem e ajudam nessa hora... Que geração... onde se sintonizar com uma médium e conversar com seu cachorro morto é normal, mas tratar as pessoas com respeito, não.

- É... O que há a acrescentar sobre pobreza verbal? Adiantaria lhe dizer que os egoístas morrem sozinhos? Que o dinheiro não compra tudo – incluindo vocabulário porque isso é troca, é emoção, inteligência e generosidade em aliança com o outro? Nossa, que geração...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Errar, um começo”

Ela devorava esporte na televisão. As suas horas livres eram preenchidas assistindo a competições de surf, de skate, de natação, de canoagem, de basquetebol, atletismo, tênis, entre outras. Bastava perceber que aquela modalidade era bem organizada, com arbitragens justas e atletas e treinadores educados, perseverantes, esforçados, corajosos, em que as derrotas estimulavam aprendizagens e na competição seguinte ela percebia que eles vinham diferentes – mais focados, mais dedicados ainda, com suas competências trabalhadas e melhoradas. Era uma das coisas que mais amava no esporte. A possibilidade de evoluir. Imaginava-se, como os atletas, que depois de errar, praticam muito até aprender a fazer bem e, na vez seguinte, fazem bem.

Mas, não entendia bem porque isso era tão difícil na sua vida.

Um dia foi com um tio fazer umas compras. Quando voltavam, deixou cair o vidro com azeite. Partiu. Tiveram de voltar à loja para comprar de novo. O tempo perdido, a despesa que provocou, ela viu isso tudo nos olhos frios e secos dele, que tentavam nem a olhar. Na voz ríspida, nas palavras curtas e sem doçura. Nunca mais a convidou para ir comprar nada. Nunca mais se aproximou dela, nem a incluía nas atividades que fazia com os outros irmãos, primos, vizinhos.

Um dia pediram que fosse dar uma ajuda numa loja. Ela foi apesar de ser ainda bem nova. Colocaram-na a pesar artigos na balança. Acontece que ela pensava que se a pessoa pedisse 1 kg, ela teria de colocar um peso de 1 kg na balança – na verdade ao fazer isso estava a pesar o dobro. A loja estava tão cheia que os donos nem lhe deram muita atenção e confiaram no seu trabalho. Ela era bem pequena mas como era boa aluna na escola, confiaram que faria tudo certo. O que aconteceu foi que ela passou a tarde a pesar 2 kg achando era 1 kg e os fregueses felizes da vida, sem falarem nada, não paravam de aparecer. Afinal pagavam 1kg e levavam 2 kg. O dono estranhou aquela corrida ao produto e percebeu o engano. Mandou-a embora e nunca mais a convidou para trabalhar naquele lugar. Ela percebeu que todas as pessoas perceberam o seu erro e mudaram para sempre a forma como a olhavam, como acreditavam nas suas capacidades. Nunca mais ninguém lhe pediu para pesar fosse o que fosse. Nunca mais lhe pediram para ajudar a pesar coisas, ou vender.

Tinha muitas mais histórias dessas, terríveis, desanimadoras. Imaginava que se fosse uma ave, de cada vez que falhava, era como se perdesse uma das suas penas, porque ia se sentindo cada vez mais depenada, mais despida, mais incapaz. Cada vez com menos temas, assuntos, áreas, tarefas onde era considerada confiável ou apenas capaz de ajudar. Sentia que ia-se esvaziando, com o tempo, ia perdendo capacidades, capacidades que nunca tinha aprendido. Apenas tinha de fazer algo pela primeira vez e não podia falhar. Se falhasse, sabia que nunca mais faria isso de novo. A vida não permitia que falhasse. Já tinha vários apelidos, cada um para o erro que cometeu. Era uma coleção de apelidos abundante, asfixiante. E aqueles frequentes olhares carregados de desprezo e aquelas conversas de “pé de orelha”, cheias de sorrisos, olhando para ela. Pensava como seria quando fosse adulta. Era tão nova e já estava tão fragilizada.

Queria um dia ser atleta. Poder errar, considerar o erro como algo que sucede na vida, como algo que tem solução, como algo que se enfrenta, se corrige e se ultrapassa. Queria também ter aqueles treinadores, para olharem para ela com aqueles olhares de esperança, de apoio, de normalidade, de estímulo. Queria que seus erros fossem apenas sinais, indicando por onde ela devia trabalhar e se dedicar mais. Queria que fossem o início do caminho, não o final do caminho.

Ana Santos, professora, jornalista

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