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2 Contos: “DEUS ME VIU E AGORA?” e “Nem tudo é o que parece”


Emily Kame Kngwarreye (1910-1996)

Conto “DEUS ME VIU E AGORA?”

Brasília. Votação de uma lei que com certeza nasceu do inferno das almas que se dizem abençoadas – porque, para castigar as crianças que Jesus chamava para Si, as almas com certeza estavam tortas, sujas, enodoadas.

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Na casa se comemorava o casamento e a felicidade de sua ex mulher, que tinha com ele filhos do primeiro casamento, como muitas. A menina, como filha de um deputado federal, era cercada de amor e cuidados. Uma princesa, poder-se-ia dizer.

Sua Exª era um dos que tinha votado a favor da urgência do projeto que criminalizava crianças vítimas de estupro, mas ele estava certo de que assim teria apoio da bancada religiosa em sua candidatura a prefeito. Era um tiro na mosca!

- Esse pessoal vota até em hidrante se o religioso disser que foi Deus quem mandou, gente! Estou eleito!

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As mulheres estavam na rua protestando 24 horas por dia contra os interesseiros que usavam a fé de pessoas que poderiam ter boas intenções – mas que estavam cegas pela venda que mistura religião com política.

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Na casa de sua ex mulher, poucos dias depois da festa de casamento, o novo marido leva sua enteada para um lugar fétido, onde ninguém ia e lá abusou dela. A menina nem entendeu direito o que acontecia. Foi como um atropelamento, por dentro: Se sentia apenas machucada, ardida. Suja. Agora, cada vez que os olhos deles se cruzavam em casa, a ameaça velada e a voz macia a confundiam.

O deputado fazia discursos ferozes contra as mulheres em geral. O novo padrasto da menina, abusava dela a cada vez que a esposa saía de casa – mesmo quando a menina chorava e implorava pra não ficar sozinha.

O projeto de lei não andava, dado que as mulheres não saíam da rua, as jornalistas choravam e esbravejavam no ar, no meio do jornal e muitos homens finalmente saíam da anestesia do machismo para entenderem que o corpo de cada pessoa precisa pertencer a cada pessoa – senão ela não pode se defender de ataques.

O deputado estava ausente, dedicado a aprovar o seu projeto eleitoreiro. A mãe tinha uma vida normal, com muitos compromissos. Mas a menina – a menina voltava da escola e lá estava ele – o padrasto. Todos os dias.

Engravidou. Se traumatizou, perdeu notas, provas e chamava a atenção de diversas formas, até que desistiu. Tentou se matar.

Correria.

Preces.

Internação.

O padrasto arrumou uma viagem. Sumiu.

O médico apontou a gravidez. A menina finalmente pode abrir seu coração. Mas sua gravidez estava adiantada, dado que ninguém podia esperar uma desgraça daquele tamanho.

– Meu Deus, quem poderia imaginar uma coisa dessas? Um canalha!

O deputado tinha diante de si a encruzilhada da vida: votaria contra o projeto e abriria a porta para o aborto da filha ou tentava se eleger prefeito? Ambição ou amor? O que venceria?

Sentia nojo de si mesmo. Não conseguia mais olhar para os olhos da menina. Que vergonha sentia... Ela estava destruída emocionalmente, toda machucada por tantos estupros sucessivos. E ele lá – lutando para aprovar a criminalização e a pena de vinte anos de cadeia para a própria filha!

- Que castigo...

Ele chorava em seu escritório. De repente, a governanta se aproxima e lhe disse:

- Às vezes, Deus vê a coisa e dá a resposta na hora. Isso se chama provação. Me diga aqui, doutor: que nota quer tirar na prova? A nota dos enganadores que vencem ou dos perdedores que salvam os que amam?

Responda você. Há uma encruzilhada aqui.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

 

Conto “Nem tudo é o que parece”

- Alô?

- Sim?!

- É da casa de Deus?

- Depende. De qual Deus está falando?

- Depende.

- Como assim, depende?

- Depende.

- Ligou para brincar ou para falar de coisas sérias?

- Nunca quis falar tão sério...

- Então porque responde depende quando eu lhe pergunto qual Deus está falando?

- Porque eu quero falar com O ou os Deuses que se preocupam com as pessoas, que lhes querem bem. Não me entenda mal, mas, eu respeito todas as religiões se elas respeitarem as pessoas. Por isso, reformulo a pergunta: É da casa de Deus ou dos Deuses que se preocupam e tratam bem as pessoas?

- É sim. O que deseja?

- Desejo fazer várias perguntas a todos os Senhores Deuses.

- Pode começar.

- Ok. Vou deixar uma lista de algumas perguntas para não os aborrecer e depois ligo novamente com mais perguntas. E não precisa responder agora, mas peço que pensem seriamente como podem ajudar a inverter algumas coisas que se estão a passar por aqui, na vida dos (des)humanos.

- Tudo bem.

- Bom, aqui vai a primeira lista:

1. Porque existem pessoas passando fome e ao mesmo tempo alimentos que são deitados ao lixo desperdiçados?

2. Porque existem pessoas sem dinheiro e pessoas com dinheiro a mais?

3. Porque existem pessoas doentes por comerem de menos – em quantidade e qualidade – e existem pessoas doentes por comerem demais?

4. Porque valorizamos um ser humano cuja função na vida é marcar golos e não valorizamos um ser humano que faz coisas úteis?

5. Porque existem familiares que estupram crianças e jovens? Adultos? Doentes? Filhas?

6. Porque existem homens capazes de estuprar?

7. Porque existem homens que protegem esses homens? E mulheres que protegem esses homens?

8. Porque meninas estupradas têm pena superior aos homens que as estupram, se decidirem abortar – por risco de vida, por exemplo?

(pausa)

- Alô?

- Estou aqui. Só parei um pouco para respirar. Continuando...

9. Porque existem pessoas com mais de uma casa e outras sem nenhuma?

10. Porque pessoas sem culpa nenhuma, ficam sem nada, enquanto os que provocam alterações climáticas seguem vivendo nas suas ilhas de luxo?

11. Porque os mentirosos têm mais vantagens do que os sinceros?

12. Porque os homens têm direitos sobre as mulheres e elas não têm direitos sobre os homens, nem sobre seu próprio corpo?

13. Porque seguimos inventando guerras sem sentido?

14. Porque incitamos muito mais à guerra e muito menos à conciliação?

15. Porque o dinheiro virou um veneno?

16. Porque o que as mulheres falam, pensam, dizem, não tem importância nenhuma, se um homem tiver a opinião contrária?

- Senhora, senhora?

- Sim?

- A lista já vai longa, nesta primeira fase. Vamos terminar e daqui a dois meses, volte por favor com a segunda lista e nessa altura damos-lhes as respostas. Combinado?

- Tudo bem. Mas precisam de dois meses para responder a estas perguntas?

- Precisamos sim. É que já estamos velhinhos e passamos o dia a tomar medicamentos, a ir ao médico, a fazer exames. Sabe como é...

- Como é que é? Quem fala? Para onde liguei? Gente, será que liguei errado?

Desligou o telefonema e gritou o mais alto que pôde: “Socorro, alguma coisa que faça sentido, por favor.....”

Ana Santos, professora, jornalista

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