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2 Contos de Celebração


Conto “BALADA NA NOITE”

Tinha amigos em muitos lugares diferentes, mas ultimamente as pessoas a cansavam.

- Será que fui desabituando, depois de tanto tempo sem conviver com gente? Pois se foi, talvez tenha sido a maior sequela deixada pela COVID na minha vida...

Não pegara o vírus – Graças! – mas o medo ao redor da doença foi atordoante. No lançamento do livro, risos e comidinhas. Entre conversas agradáveis e “belisquetes”, as risadas fluíam: “tive tanto medo que confundi minha rinite, com COVID! Pior que COVID era ter que sentir medo do presidente também”. Pandemia no Brasil foi dose dupla!”. De qualquer modo, o barulho das conversas ainda a aturdia.

Não tinha o que reclamar dos silêncios. Se acostumara a eles com total facilidade.

- Ai como meus pés doem de ficar em pé...

De repente, um som que lhe pareceu mecânico – mas não... Era ao vivo... Um som de violino. Mas moderno, hightech, arranjos simples, feitos pelo computador - mas naquele momento tudo pareceu ter mais nexo que antes... Algo que tinha sido assim, mas antigamente...

A animação das pessoas, as fotos incríveis, geladas, com animais polares, de uma beleza inacreditável. O livro, a fila para pegar o autógrafo do autor, os doces e a música tinham uma plenitude, uma completude. Uma alegria complementar ao mar, ao céu, à lua quase cheia...

Enfiou mais um docinho na boca – gente, que delícia! – deu muitas risadas, viu o mar, à noite e se viu em cada barco ancorado por ali. Amanhã ouviria de novo apenas os passarinhos no quintal, mas hoje, o violino, os sorrisos e conversas foram criando um encantamento tão grande que acabou se sentando num sofá, ao lado do músico, apenas para ouvir.

A fila de autógrafos continuava enorme, mas o som da música, dos passos dos garçons, do papel celofane dos docinhos foram criando um ambiente tão confortável e calmo que ela se quedou em silêncio, ouvindo os ruídos – vivendo um presente que ela tinha perdido um pouco a esperança de rever/reaver em si. Os pés – totalmente desacostumados de a manterem em pé por tanto tempo, reclamavam, gritavam, mesmo depois que se sentou. Mas o que importava? Encostou-se mais, querendo mesmo enroscar-se por ali.

Seu amorzinho a chamou pra irem embora, a preguiça de sair do conforto foi forte, mas tudo se vencia na tranquilidade dos murmúrios, docinhos e o som do violino embalando tudo.

- Que noite, que noite...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Quem sou e para onde vou?”

Ana quase tropeçou em algo que estava no chão. Olha para ver o que era e percebeu que tinha caído da estante o seu diploma da faculdade. Velhinho, já esfarrapado, a moldura deve ter quebrado e ele escorregou da prateleira da estante onde está há décadas. Pegou nele, colocou-o na mesa junto da porta de saída de casa pensando em leva-lo no dia seguinte para arranjar. De repente passaram tantas décadas e o diploma está pedindo um carinho. É o seu “xodó”, seu orgulho. Há 40 anos atrás, obteve aquela qualificação única na sua família, única na sua cidade. Desde esse momento, alcançou o respeito de todos, a vida ficou mais facilitada – você entende. Sempre que se esquecia de levar dinheiro, o senhor do mercado dizia que podia pagar no dia seguinte. Muitas vezes esquecia de pagar e as pessoas não cobravam. Quando Ana se lembrava de pensar nos outros e lhes perguntava quanto devia, todos diziam que esquecesse, que não era preciso pagar, que tinham muito orgulho nela e no que tinha obtido para si e para a cidade e que estavam lhe agradecendo da forma que podiam. No início estranhava, depois foi achando maravilhoso. Quase não gastava seu dinheiro, foi deixando de ter vontade de trabalhar mais para ganhar mais. Bastava o dinheiro que ganhava, bastava o trabalho que tinha. Não tinha nenhum desejo de melhorar de trabalho, de aprender coisas novas. Fazia o necessário para cumprir seus dias de trabalho. Qualquer problema, administrativo, burocrático, de saúde, até de obras em casa, alguém sempre resolvia, alguém sempre fazia por ela.

Ficou vaidosa, inundada de confiança, perdeu a noção de cuidar dos outros. Como se tivesse parado no tempo no dia que recebeu o diploma, depois dos anos de escola e dos anos de faculdade, dedicando-se e esforçando-se profundamente para obter aquilo que parecia impossível, já que ninguém tinha sido capaz por aquelas bandas.

O grande detalhe é que o mundo não é só a cidade onde vivemos.

Ana Lúcia, tinha sido sua amiga na faculdade. Também ela queria ter o curso, que também era uma coisa que ninguém tinha obtido na sua cidade. Mas, ao contrário de Ana, Ana Lúcia, que também fez o curso com muito esforço, considerou esse momento um começo e não um fim. A partir do momento que obteve o curso, Ana Lúcia, tinha planos para fazer mestrado, doutoramento, descobrir coisas novas para a sua cidade e seus habitantes. Queria ter esgotos, queria ter água potável, queria que a cidade tivesse hospital, queria que sua cidade tivesse direito a usufruir de condições que viu noutras cidades, noutros países, noutros continentes. Ela e os habitantes da sua cidade tinham também direito ao que os habitantes de outros lugares usufruíam. Porque não poderiam ter? O que tinham de diferente? Ela sabia que eram iguais, ela sabia que a diferença poderia ser o que ela fizesse, o que ela estimulasse as pessoas que lideravam a fazer, ela sabia o que era necessário. A faculdade lhe ensinou isso através da possibilidade de estudar, de conhecer colegas de todo o país, de viajar através de projetos de estudo. Aguçou seu olhar, abriu as portas da possibilidade. Não parava, tinha sempre ideias novas, estava sempre em contato com antigos colegas perguntando por novidades, pedindo ajuda nos problemas que enfrentava. Já estava velhota mas ainda sentia energia para fazer muita coisa e ao mesmo tempo já ensinava pessoas mais jovens a fazer as coisas, prevendo o momento em que ela iria partir do mundo – deixar o legado e deixar percursores.

Um dia, foram convidadas para fazer uma palestra no mesmo congresso. Se cruzaram, se cumprimentaram.

- Ana, você por aqui? Que legal...

- Ana Lúcia, é você mesmo? Já faz uns bons anos que a gente não se vê.

- Pois é né? Já faz muito anos, nem me fale.

- Mas você está bem...

- Vou andando, mas os meus ossos andam me dando muitos avisos.

- Não diga isso, você está uma jovem.

- Obrigada, você é muito gentil mas está com problemas na visão...

- ahahahahah

- Como vai essa vida Ana?

- Nem me fale. Muito trabalho, muitas tarefas. Quase não tenho tempo para mim. Imagina que ainda estes dias percebi que a moldura do meu diploma de melhor aluna do nosso curso está a precisar de ser arranjada e nem tempo para isso tenho tido. E você Ana Lúcia? Como tem estado? Lembro que você era mais devagar, mais limitada, desculpe a sinceridade.

- Vai bem. Pacata, tranquila, sinto-me feliz pela vida que tenho. Desculpe, mas agora preciso ir. Está na hora da minha palestra.

- Que legal. Vou ouvir você porque a seguir sou eu e vou falar sobre o mesmo tema do meu trabalho final de curso – “Como ser líder, como vencer. Qual é o seu tema mesmo?

- “Como você pode ajudar a tua cidade com o que você sabe e com o que você é?”

- Ah...

Ana Santos, professora, jornalista

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