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2 Contos: Conto “- CORREIO!” e Conto “O Puzzle”



Xadrez, de Luciano Garbati

Conto “- CORREIO!”

Nossos carteiros são sempre os mesmos. Eles sabem mais do que ninguém no que consiste o movimento dos nossos desejos e sentimentos – tudo é entregue pelos Correios.

Eles conhecem nossos cachorros pelo nome, sabem quais são os mais ferozes e chegam nas nossas casas, sabendo quem é quem.

Guilherme é assim. Nos conhecemos pelo nome. Não apenas eu, mas todos: porteiros, moradores, transeuntes.

- Bi, bi – lá vem ele, de moto. Agora, nessa época de Natal, todas as tardes.

Talvez poucos conheçam sua sensibilidade, sua forma de olhar – sempre nos olhos. Talvez quase nenhum morador de prédio. Mas quem vive na “parte térrea” do mundo – portarias, casas – tem com ele uma relação especial.

Sua relação com o mundo é a do mensageiro – queira Deus que com mais boas, do que más notícias para todos, com seu uniforme amarelo. Todos os dias.

Nos natais do futuro, talvez existam outros tipos de carteiros, mas sem o brilho genuíno das relações humanas, sem o sorriso, o toque melancólico e saudoso dele, do interior, e de Ana, estrangeira de um universo ainda mais distante, fora do Brasil. Eu, que também não sou daqui – “estrangeira” do Rio de Janeiro – vejo nos olhos deles o mesmo que vejo eventualmente cruzar os meus. As ausências são sempre vazios que nossos olhos tentam ocupar com saudades.

No seu leva e traz, nas idas e vindas, Guilherme entrega vidas e lágrimas. Ele nunca sabe que notícias leva, se a sua moto vai pesada ou mais leve. O que importa é que para nós, os que vivemos nos térreos, Guilherme buzinando sua moto costuma ser o portador de noticias do mundo real: os óculos "xing ling", a conta, a carta; também de desejos: o cartão que não devia ter feito, a fatura que está acima do que eu queria; das nossas esperanças de vida, do que esperamos e o que cada Guilherme, de cada rua da cidade pode nos presentear. Todos e a cada um dos dias.

Hoje ele chegou e nosso coração comemorou essa amizade mais uma vez. Um papo, uma lágrima, um sorriso. Tudo saído da emoção que nasce e percorre quilômetros pelos Correios. Por Guilherme.

Bom Natal a todos.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “O Puzzle”

Jovens somos. Inocentes profundos. Rimos de tudo. Tudo o que sai da normalidade do que aprendemos achamos ridículo. Pipocam das nossas bocas, enormes e sonoras gargalhadas, a todo o instante. Os donos do mundo, é o que somos. Sabemos todas as soluções, todas as causas dos problemas – esse mundinho redondo e curto em nossa volta.

Tristes almas sem saber de que somos feitos e para onde devemos ir. Somos o que os adultos que nos sustentam conseguem nos proporcionar. Nem percebemos seus esforços. Nada percebemos. Tudo parece normal se tivermos tudo. O mundo só está errado quando falha nos nossos desejos. Ou quando nos falta algo ou alguém.

Até a chuva nos molhar os ossos, rimos dos perigos e dos problemas.

Um dia, nossos olhos vão olhar baixinho. Teremos momentos de falta de capacidade, falta de dinheiro, ou de soluções. Humilhações, vergonha, culpas. Tentaremos esconder o vazio que construímos dentro do nosso peito frágil e inexperiente. Hora de “apanhar”, hora de aprender. Acordar. A vida não é cor de rosa, não. Quem falou isso enganou a gente.

Outras vezes parece que tudo está sincronizado. Tudo bate certo. E a vida parece tão fácil e nós tão capazes. Só nos falta voar.

E vamos crescendo, sem pedir, sem querer. Crescendo – é o corpo que cresce. E envelhece. As meninas e meninos que éramos parecem pessoas importantes com as rugas e preocupações. Por dentro as mesmas meninas e meninos, somando algumas águas paradas, por vezes com os pés voltados para o passado, ou os olhares assustados tentando adivinhar o futuro.

Sorrir nos aniversários. No Natal. Nas redes sociais. Nos encontros com amigos, no trabalho, nas comemorações em família.

Precisamos ser alguém. Para isso, achamos que é necessário estudar, ou trabalhar, ou viver noutro país. Ganhar valor de mercado. Voltar para o meu país inundado de currículos, para cargos poderosos. Está ganha a vida!

Não, o valor não se ganha ao atravessar o mediterrâneo em barcos furados para sobreviver. Nem a fugir do meu bairro e do meu país porque meu irmão bateu na minha mãe na frente dos vizinhos e eu não consigo mais viver ali. Nem quando o amor te apanha pela lateral da vida e te troca tudo o que estava organizado, te colocando, de repente, noutro país, profissão, vida. Nem no tiro que te apanhou no meio da rua e te levou a filha mais nova, na volta da escola. Ou no empurrão que levaste quando te levaram o carro. No terror que sentiste quando o hacker quase te levou o pouco dinheiro que tens. Em passar o Natal na prisão apenas porque lutas a favor da justiça para as mulheres. Não, isso não tem valor.

Estou no mercado, de pé, em frente de todas as ofertas para a ceia de Natal e de Ano Novo. Vejo as pessoas correndo para encontrar promoções, os alimentos que necessitam. Olhares atarefados.

Não é bacalhau que nos falta. Nem marisco, nem carne. Nem Perú. Nem refeições Vegan. Nem doces. Nem bebidas. Nem roupas novas. Nem luxos.

O que procuro não está no mercado. Nem em nenhuma loja. É um puzzle que se constrói, dentro do nosso peito. Peças que trazem momentos do passado que se encaixam com peças do presente - tal qual ele é, com peças que têm a imagem do futuro que desejamos. Um puzzle invisível, gratuito, único.

Não consigo esquecer o que minha filha mais nova me disse hoje de manhã quando a acordei. Me deu um abraço longo e carinhoso, depois olhou nos meus olhos e falou: - “Este momento, mãezinha, será uma das peças do meu puzzle da vida. Até já sei onde vai estar. Bem no centro, mas também uma espécie de coringa que é bem fácil de encaixar em mais de um lugar. Bom Puzzle, Mãe. Ou, Bom Natal!”

Ana Santos, professora, jornalista

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