2 Contos: “BOTA PRA VIRAR, BOTA PRA VIRAR” e “Sonho ou realidade?"

Conto “BOTA PRA VIRAR, BOTA PRA VIRAR”
Foi um sonho medonho desses que as vezes a gente sonha e baba na fronha...
Mas acabou...e de uma maneira totalmente inusitada, inesperada, repentina. Acabou com o povo fazendo festa na rua – e ao mesmo tempo se rebolando, chorando, se abraçando e sambando. Ao mesmo tempo em que dando carona e xingando o prefeito.
Nem sei como deu tempo de fazer tanta coisa. Foi a campanha mais longa, a eleição mais comprida – muito mais que a votação em si porque, logo à saída, quando as mulheres se abraçaram, choraram e gritaram a música de Kannário: “Bota pra virar, bota pra virar”! – começaram a brotar pessoas com a estranha forma de se identificarem que virou um rastilho, pelo mundo: faziam um L com as mãos e ofereciam carona, denunciavam o prefeito ao Ministério Público, colocavam noticias nas redes sociais, telefonavam, avisavam, reclamavam – o exército do Lula era invencível e nada, ninguém, poderia impedi-lo de avançar, de tentar até a última gota de suor.
Na minha seção eleitoral, eu era a primeira idosa da fila, como sempre. Mas, perto das 8 horas, os velhos começaram a chegar. Não velhos de 60 e tal, como eu, mas velhos com mais de 80, mais de 90! Comecei a organizar a fila: mais velhos na frente. Havia um clima de absoluta cordialidade no ar – os filhos deixavam os pais na fila dos idosos e nós os “velhos mais novos”, cuidávamos deles, ali todos sentadinhos, à espera da abertura da votação.
Era inacreditável. Ninguém jamais tinha visto uma eleição assim, tão sorridente. Tão confiante. Talvez também tão desesperada porque não podia dar errado, seria o fim dos sonhos até dos que ainda estavam sob encantamento! Pouco mais da metade do Brasil sentia pela outra e assim netos levaram avós que sambavam na rua, dançavam, mesmo de cadeira de rodas, de macas, de soro, no colo – era a guerra da alegria contra a barbárie, contra a grosseria, o bullying social.
... E num dado momento à noite, vencemos. E foi como viver uma catarse que afetou mais de 60 milhões de pessoas que gritaram juntas e descontroladas de felizes, com suas famílias. Muitos gritos tinham o nome Lula, mas outros eram só gritos de alívio.
Vencemos.
Passamos a ser motivo de união internacional. Citação. Nos colocaram nas redes com muitas trilhas diferentes. Mas aqui em Salvador, dentro do nosso coração, naquele ritmo de percussão baiana que ecoa nos nossos batimentos, lá estava a música de Kannário: “Bota pra virar, bota pra virar”!
Viramos.
Fomos heroicos. Viramos exemplos. E estamos ensinando a guerrear do nosso jeito. Sorrindo, pra variar.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Sonho ou realidade?"
Um dia sonhou que ouviu umas senhoras lendo cartas e dizendo que seu ciclo de dificuldade de mais de 27 anos iria terminar. Eram várias. Ouvia e ouvia e ouvia e não queria acreditar porque nunca achou que essas pessoas soubessem o suficiente da vida dela. E também porque sua vida sempre tinha um momento em que as coisas recuavam. O que achava curioso é que aqueles 27 anos batiam certo no momento em que tudo ficou mais difícil. Vivia num lugar onde tanta gente tinha vida difícil que acabou por considerar que tudo o que era problema na sua vida, era normal, ou até nem assim tão mau. Achava que podia ser pior por isso nunca ficou muito aborrecida com a vida. Mas agora estas senhoras, em fila indiana dizendo aquilo, repetindo que tudo ia terminar e para ela acreditar. Ela não sabia que era sonho, por isso sentia como se fosse verdade. E era verdade que as coisas foram circulando e acontecendo mas tudo o que implicava que ela desse um passo, fizesse um esforço, acreditasse, decidisse, não avançava porque ela também não avançava. Você sabe como são os sonhos né, eles dão saltos, e de repente você está muito à frente na sua vida – de sonho – e foi o que aconteceu. De repente ela se viu sendo convidada para coisas que sempre sonhou, ela encontrou amigos que nunca pensou ser possível ter, ela se sentiu de novo inteira nas suas decisões, mais calma quando chegavam uma centena de não’s. Mesmo no sonho ela sentiu que parecia um sonho. Mas foi quando o mundo lhe deu a possibilidade de viver em democracia, quando lhe deu espaço de opinião, espaço de fala, espaço de liberdade, espaço, espaço, espaço, que ela começou a relaxar. Parecia que afinal tudo estava mesmo mudando e que ela estava também.
Acordou com o despertador, com dificuldade porque estava muito cansada, mas acordou. Ficou um pouco confusa e demorou a perceber que tudo aquilo tinha sido sonho. Mas depois de se preparar e sair para o trabalho olhou as notícias e viu que Lula tinha ganho as eleições no Brasil, viu que a Sérvia conseguiu voltar à democracia, viu que Netanyahu perdeu maioria no parlamento, viu que seu coração não mais batia apressado, seu vizinho miserável já não a incomodava, e aquele cara xingando ela por causa da manobra que fez com o carro até lhe deu vontade de rir.
Parecia que o sonho tinha trazido algo para a realidade. Será que trouxe? Olha, ela veio diferente. Ficou até com muita vontade de dormir no final do dia, ela que sempre tinha insônias terríveis. Será que esse milagre também ia acontecer?
Obrigada, gratidão, axé.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Almada Negreiros
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