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“війна – GUERRA” Bug Sociedade


війна - GUERRA

Há uma pergunta terrível ao redor das guerras: se elas existem e são justificadas sempre para a construção da paz, de um mundo melhor, de liberdade – como todos as justificam – por que elas existem? Por outro lado, para muitas pessoas do mundo “facebook e whatsappiano”, alguém escrever sobre guerra e covardia “é textão”, “é política”. Uma chatice desnecessária quando se está falando de “criação, projetos e arte”. Pra mim, é como se a arte estivesse sendo amordaçada, a cada vez que um artista coloca em palavras sua perplexidade e os supostos colegas se acham em posição de questionar quem questiona. Só pra lembrar que esses artistas questionam a guerra e o interesse sórdido que sempre está por trás dela.


Bem, eu a questiono o tempo inteiro. Primeiro que, quem declara guerra a qualquer outro País, pela lógica, deveria perder o direito ao voto em qualquer assembleia por conflito de interesses. Mas na ONU é ao contrário. O País, inclusive, tem direito a veto. Ele veta a sua condenação por ter invadido, bombardeado, matado. E isso nunca é questionado pela população mundial. É apenas assim, como se não houvesse outro modo de ver a questão.


O fato é que os mais poderosos – vê-se que os mais poderosos são os que têm mais armamento e que o vendem para aos encrenqueiros tamanho pequeno e médio – são os que podem vetar as decisões. A maior parte dos Países pode - no máximo - reclamar. Sem veto.


O fato é que depois de décadas o Conselho se reuniu de maneira emergencial – uma coisa histórica - para dissolver o que a Rússia tinha feito na reunião passada. O Putin vai obedecer? Claro que não. O nível de vaidade dele está já no grau catarata grave. Eu penso inclusive que ele achou que a coisa seria super rápida e menosprezou a Ucrânia e o seu povo. Menosprezou o poder do presidente de lá. Menosprezou a resposta europeia imediata e certeira contra as fakenews. Ele preparou uma resposta à altura, mas “se achando o rei da cocada”. Claro que a Rússia pode manter essa guerra por muito tempo antes de as sanções internacionais a transtornarem. Mas, a Europa não entregou o jogo fácil pra ele.


Aqui no Brasil, a Ucrânia mais próxima fica ali no Paraná. Nós estamos tão acostumados com encrencas diárias que parece que uma guerra distante nem parece pertencer ao nosso mundo. Mas pertence. Exatamente por isso, o nosso amor pela paz deveria estar mais visível. Temos que entender que a inflação vai aumentar mais ainda – agora pelo efeito Putin. Mas o mundo inteiro vai arcar com isso, querendo e torcendo pra ele se enfraquecer. Pela minha vontade, se esvair e sumir (pena que não o vejo tão distante assim do mundo). Pãozinho com a cara do Putin, petróleo com a cara do Putin. E nós, apostando que a Ucrânia precisa ser respeitada de algum jeito, vamos gemer em silêncio e comer menos pão.


Fora dessas idas e vindas da economia, guerra é treva. Quem atira a primeira bomba, vai pra treva. Quem apoia, vai junto pro mesmo lugar. Quem se omite, vai também. Não existe abstenção no cenário de uma guerra covarde como essa. Quem se absteve na ONU, ou paga agora ou paga depois.


Eu não me abstenho. Porque qualquer pessoa que cala, se ajusta à injustiça. E por causa do karma, a injustiça tem o hábito de cobrar suas dívidas. Como o povo russo, domingo, na porta da ONU, nos Estados Unidos, eu também tenho vergonha do Putin. Não tenho passaporte pra rasgar, mas um covarde é o pior entre os piores. E ele é dantesco.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Putin, um homem?” Bug Sociedade

A realidade é também onde reside o absurdo. Uma realidade que nos espanta sempre, mas que, sossegados na nossa vidinha, assistimos à sua silenciosa construção. Um homem compra um clube de futebol, compra os melhores treinadores e jogadores e passa a pertencer ao grupo dos top do mundo. Ninguém se perguntou de onde vinha tanto dinheiro? O que temos com isso? O mesmo homem pede, gentilmente, a cidadania portuguesa e Portugal aceita, afinal, esse homem vai fazer coisas boas pelo país. Engraçado, conheço tantas pessoas que já fazem coisas muito boas por Portugal, já têm há anos condições para ter a cidadania portuguesa, mas são aconselhadas a esperar mais um pouco para não parecer “golpe”. Mundo estranho este.

Sempre tive muita dificuldade em aceitar uma regra dos seres humanos adultos: saber coisas erradas, graves, terríveis e saber calar, guardar. Não importa o sofrimento que isso possa provocar em alguém. Saber guardar segredo. Essa é uma das capacidades mais elogiadas num adulto. “Alguém com quem se pode contar”. Uma pena esquecermos que guardar esse tipo de segredos é abrir a possibilidade das pessoas continuarem a fazer o que querem...de errado, de ilegal, de grave. Pessoas que sempre foram habituadas a fazer o que lhes apetecia, vão fazer mais e pior. Não têm travão. Não sentem culpa e ainda culpam os que pararam de guardar segredo. Vínculos em volta de segredos graves tornam frágeis os menos poderosos quando surgem desentendimentos. Jeffrey Epstein encontrado morto na prisão, Jean-Luc Brunel, encontrado morto na prisão, são exemplos no mínimo curiosos. Mas no mundo de Putin a curiosidade tem uma lista extensa, sempre com quem o confronta. O envenenamento de Alexander Litvinenko que o levou à morte, de Alexei Navalni, que sobreviveu milagrosamente, ambos com polónio-210, Mikhail Lesin, corpo com marcas de objeto contundente, mas oficialmente, morte por excesso de álcool. Alexandre Perepilichny, morre enquanto praticava esporte – vestígios de uma planta venenosa que só existe nos Himalaias, foi encontrada no estômago. Berezovsky, encontrado enforcado na residência perto de Londres, sem bilhete de despedida. Boris Nemtsov, morto a tiro em Moscovo. A jornalista Anna Politkovskaya assassinada à porta de casa, nos arredores de Moscovo. Um dos casos mais impressionantes é o de Mikhail Khodorkovski, antes de Putin no poder, era o homem mais rico da Rússia. Teve a coragem de enfrentar e até mesmo de afirmar que Putin nada entendia de economia, na frente dos maiores empresários e oligarcas da Rússia, numa das reuniões habituais de Governo e empresários. Esse gesto ousado, cutucou o “urso” e subitamente a empresa Yukos, de Khodorkovski, poderosa petrolífera que ia fazer negócios com EUA e China, foi acusada de fraude fiscal por decisão de Putin. Perdeu valor, foi desmembrada e comprada, por uma bagatela, por uma pequena empresa – Rosneft. Atualmente, Rosneft é uma empresa com escala global e liderada por uma pessoa de confiança de Putin. Khodorkovski foi acusado de fraude fiscal e estelionato, 10 anos preso, uma vez na Sibéria, outra em Moscovo. Preso político camuflado de acusações infames e também patéticas, como não poder ter direito a liberdade no meio da pena por não estar com os braços atrás das costas no passeio do pátio. O mundo permitir tanto “espaço” a um homem como Putin, capaz de tanta atrocidade durante anos, foi um profundo erro. Ele avançou, cresceu, quer tudo. E matar pessoas não é para ele impeditivo de nada. E enquanto discutimos o que fazer e como fazer, muita morte, muito êxodo, muito sofrimento.


Somos todos culpados do estado poluído do planeta, do nível cada vez mais degradante da educação das pessoas, da forma cada vez mais animalesca como nos tratamos nos grupos de WhatsApp, no trânsito, no trabalho, da forma cada vez mais abusiva e autocrática como as forças de segurança e de proteção da sociedade tratam as pessoas. E fazemos cara de espanto para o que está a acontecer. Precisamos ser melhores a controlar a nossa agressividade, a nossa raiva, a nossa mágoa e precisamos aprender a lidar com a dos outros. Precisamos aprender a prevenir o que percebemos que está a “querer” começar a entortar. Precisamos criar melhores estratégias de escolha das pessoas que terão muito poder sobre outras. Votar, saber votar, é cada vez mais importante. Se continuarmos a descuidar a educação nas famílias e nas escolas, construiremos uma linha de produção de Putin’s, de gente entupida de ódio, de maldade, de teimosia, de inveja e de ambição cega, no mínimo.


Ser líder não se aprende em cursos, nem se nasce com o talento. Não, não são os currículos cheios de diplomas que constroem bons seres humanos. Não são os acordos e as amizades convenientes que fazem um mundo justo. Não, não é a quantidade de patrimônio que identifica um ser humano de caráter. Tem a ver com bondade, com visão coletiva, com desapego. Como as pessoas conseguem, mesmo com os avisos da pandemia e com a guerra na Ucrânia, continuar a viver mergulhadas em consumo e status? Do lado de gente que cata comida no lixo? A vida muda num instante. Bastam acontecimentos que nos ultrapassam como uma pandemia ou uma guerra para perdermos em segundos o que levamos anos a construir. E sermos nós a catar lixo. Ou a morrer.

Ana Santos, professora, jornalista

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