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Poesia sem Medo


Edíria Carneiro

“Quando a morte chegar”

 

“Quando a morte chegar

como um urso faminto no outono;

Quando a morte chegar e tirar da carteira todas as moedas brilhantes

 

para me comprar, e em seguida lacra-la;

quando a morte chegar

como um sarampo-varicela

 

quando a morte chegar

como um iceberg entre as omoplatas,

 

quero atravessar o portal cheia de curiosidade, me perguntando:

como será essa cabana das trevas?

 

Por isso enxergo tudo como uma confraternização,

e vejo o tempo como não mais do que uma ideia,

e considero a eternidade como outra possibilidade,

 

e penso em cada vida como uma flor, tão comum

e singular quanto uma margarida do campo,

 

e cada nome como uma confortável canção entre os lábios,

tendendo, como fazem todas as canções, ao silêncio,

 

e cada corpo, a coragem de um leão, e algo

precioso para a terra.

 

Quando isso acabar, pretendo dizer que por toda minha vida

fui uma noiva do assombro.

Eu fui a noiva, tomando o mundo entre meus braços.

 

Quando isso acabar, não quero me perguntar

se fiz de minha vida algo especial, e real.

Não quero me ver suspirando e assustada,

ou cheia de argumentação.

 

Eu não quero terminar tendo simplesmente visitado este mundo.”

Mary Oliver

Trad.: Nelson Santander

 

“POEMA DOS OLHOS DA AMADA”

“Ó minha amada

Que olhos os teus

São cais noturnos

Cheios de adeus

São docas mansas

Trilhando luzes

Que brilham longe

Longe nos breus...

 

Ó minha amada

Que olhos os teus

Quanto mistério

Nos olhos teus

Quantos saveiros

Quantos navios

Quantos naufrágios

Nos olhos teus...

 

Ó minha amada

Que olhos os teus

Se Deus houvera

Fizera-os Deus

Pois não os fizera

Quem não soubera

Que há muitas eras

Nos olhos teus.

 

Ah, minha amada

De olhos ateus

Cria a esperança

Nos olhos meus

De verem um dia

O olhar mendigo

Da poesia

Nos olhos teus.”

Vinicius de Moraes

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