top of page
Buscar
  • portalbuglatino

Poesia das voltas do tempo


Tela de Di Cavalcanti danificada, no Planalto, em 8 de janeiro de 2023. Foto retirada do site Bahia.

O mundo parece avançar

Um dia após o outro

Vamos nascendo e vamos morrendo

E tudo parece ficar no mesmo lugar



“AMIGO DI CAVALCANTI...”


“Amigo Di Cavalcanti

A hora é grave e

inconstante.

Tudo aquilo que prezamos

O povo, a arte, a cultura

Vemos sendo desfigurado

Pelos homens do passado

Que por terror ao futuro

Optaram pela tortura.

Poeta Di Cavalcanti

Nossas coisas bem-amadas

Neste mesmo exato instante

Estão sendo desfiguradas.

Hay que luchar, Cavalcanti

Como diria Neruda.

Por isso, pinta, pintor

Pinta, pinta, pinta, pinta

Pinta o ódio e pinta o amor

Com o sangue de tua tinta

Pinta as mulheres de cor

Na sua desgraça distinta

Pinta o fruto e pinta a flor

Pinta tudo que não minta

Pinta o riso e pinta a dor

Pinta sem abstracionismo

Pinta a Vida, pintador

No teu mágico realismo!


Carioca Di Cavalcanti:

Na rua do Riachuelo

Nasceste, a 6 de setembro

Do ano noventa e sete.

Infante, foste criado

No bairro de São Cristóvão

Na chácara do avô materno

Emiliano Rosa de Senna

(Nome de avô de pintor!)

Orgulhoso proprietário

Do antigo morro do Pinto

Logo os bairros se renovam:

Botafogo, Glória (hotel)

Copacabana e Catete

(O Catete de onde nunca

Deverias ter saído

E ao qual agora voltaste

Humilde e reconhecido).

Moraste no hotel Central

E no hotel dos Estrangeiros:

Ambos desaparecidos

E onde à tarde, entre os amigos

Tomavas, e com que gosto

O melhor uísque do mundo!

Paquetá, um céu profundo

Que não sabe onde acabar

Viu-te muito passear

Ó genial vagabundo!

- Quantas vezes foste à Europa

Dize-me, grão-vagamundo?


No ano de trinta e oito

Em Paris te descobri

Rimos e bebemos muito

Nos bares de por ali

Lembras-te, Di? Consue-

Lo de Saint-Exupéry

Saía sempre conosco

E mais o sargento Thyrso

Que uma noite lá, por pouco

Não sai no braço comigo.

Como foste meu irmão!

Como eu fiquei teu amigo!

E no México, te lembras?

Com Neruda e com Siqueiros

E a linda Maria Asúnsolo

Que tenia blanco el pelo

Bebemos tanta tequilla

Que até dava gosto ver-nos

A comer com gulodice

Um prato de tacos pleno!

Mais de setecentas luas

Ungiram tua cabeça

Que hoje é branca como a Lua

Mas continua travessa...

Que bom existas, pintor

Enamorado das ruas

Que bom vivas, que bom sejas

Que bom lutes e construas:

Poeta o mais carioca

Pintor o mais brasileiro

Entidade a mais dileta

Do meu Rio de Janeiro

- Perdão, meu irmão poeta:

Nosso Rio de Janeiro!”


Vinicius de Moraes

Rio de Janeiro , 2004

São Paulo, nos 66 anos do pintor mais jovem do Brasil

39 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page