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Poesia da Leitura


Lili Elbe (1882-1931) e Gerda Wegener (1885-1940)

“UM LIVRO, UM VASO, NADA”

 

“Todas as noites deixo

entre os livros a minha solidão,

abro a porta aos oráculos,

fundo a minha alma com o fogo

do salmista.

 

                                               Que contrária

vontade de perigo me desvela,

quebra a vigilante

sede de viver na minha palavra.

 

                                               Todas

as noites vivo inutilmente

a frustração do dia, recupero

as horas mortas da minha liberdade,

consisto no que fui.

(Mão esquecida entre os lençóis

rasga papéis, mancha o último

pedaço do meu sonho.)

 

                                               Oh coração

sem ninguém – para quê

tantas páginas vãs, tantos

hinos vazios? Olha

em teu redor – que fica? Estamos

sós: toda

a vida cabe entre o calar

e o sonho. Aqui

a minha solidão é a minha alegria:

um livro, um vaso, um nada.”

José Manuel Caballero Bonald

(1926-2021)

Tradução de Egito Gonçalves

 

 

“Foi a Páscoa enxuta,

choveu no São João.

À Galiza a fome

logo chegará.

 

Com melancolia

olham o mar

os que noutras terras

têm de buscar pão.”

Rosalía de Castro

(1837-1885)

Tradução de Ernesto Guerra da Cal

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