Poesia Africana
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“Mulher Africana”
“Mulher Africana
Tu mesma, sim tu mesma
que de manhã encaracolas pedras no chão do rio,
de tarde acendes ventos no silêncio do pôr-do-sol.
Mulher Africana
és a primavera do sol que rouba as paisagens da aurora
e escuta a fome da flora.
Teu rosto resguarda a infância das borboletas
e engole a poesia dos lábios das formigas.
Mulher Africana
meu inseto divino, minha casa espiritual, minha cigarra.
Existem em ti andorinhas que crepusculam luas no estômago das árvores.
Mulher africana
és sempre igual a ti mesma
e sempre serás uma mulher nua em véspera de ser lua.”
Morgado Mbalate
poeta moçambicano
“Angolares”
“Canoa frágil, à beira da praia,
panos presos na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.
Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.
Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andante por sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.
E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas
as gibas pestilentas
mas não tem terras.
P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
(É nosso o solo sagrado da terra)”
Alda Espírito Santo
Imagem: Salvador Dali
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