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“Morte” Bug Sociedade


“TORVELINHO”

Há momentos em que a vida pega a gente como os redemoinhos e somos arremessados de um lado ao outro. Mil vezes nós ouvimos cientistas falando que tanto quanto a vacinação, o cuidado pessoal, o uso de máscara, a higiene e o distanciamento social eram a nossa melhor arma contra o contágio. Mas de alguma maneira, marcamos o reinício da nossa vida com a segunda dose e quando as perdas aparecem diante de nós, a nossa inferioridade e pequenez são assustadoras.


Em 24 horas perdemos o Shazam e o João Coragem. O Xerife já tinha ido, pouco antes. Paulo José, Tarcísio Meira, Flávio Migliaccio em algum momento vão olhar o Brasil e ver o quê? E a Nicete Bruno, o Paulo Gustavo que já foram antes? Estamos perdendo pessoas todos os dias e no torvelinho das lágrimas que choramos e engolimos, percebo que talvez nunca mais eu seja capaz de me aproximar das pessoas sem pensar em contágio. Um descuido e pode ser o fim, com um vírus que parece não ter fim. Ah, sim, os médicos também falam isso: é muito difícil acabar com eles. Aprendemos a conviver, mas acabar com suas mutações... Mas voltarem as aulas sem termos tomado todos as duas doses da vacina e com mutações cada vez piores é aterrorizante.


Fico pensando naquilo que a arte exige e no que perdemos, quem já perdemos. Alguns morreram e nem tinha vacina ainda, num descuido que nem se consegue visualizar. Um corpo aberto para o mundo e desprotegido, como é o corpo do ator. Outros, mesmo vacinados, se descuidaram por um instante e a idade, a saúde ou a sorte de conseguir se distanciar de algo tão invisível e mortal falharam.


Abrindo o olhar, lá está o Afeganistão e a perda de todas as mulheres artistas para o terror, a barbárie. Com uma bandeira do Talibã ali por trás do Roberto Jeferson, o que você veria? Alguma dúvida sobre os motivos de uma prisão? Lá vamos nós de novo e vemos o pobre, o desgraçado Haiti, com seus desastres naturais, humanos, de saúde, higiene, organização, geológicos. Escolha o seu desastre e sofra. Escolha o seu e reze.


Abrindo o olhar, somos um povo onde 600 mil pessoas estiveram diante do mesmo monstro invisível e não conseguiram. É a morte. A perda lamentável. Aquilo que se tenta corrigir, explicar, justificar. Num País como o nosso, líder em vacinação no mundo, professor de potências mundiais, olhamos ao redor, vemos São Paulo processando a União porque tem direito a vacinas e vacinação, vemos a variante Delta como uma maldição invadindo mais uma vez o nosso minúsculo espaço de respiração e pensamos que sem vacina para todos e comida, não deveria haver dinheiro para mais nada. Sem Natal, Réveillon, Carnaval. Nada. Porque enquanto os políticos fazem planos e esfregam as mãos, nossas vidas estão sendo esvaziadas da nossa capacidade de sonhar. E réveillon e carnaval só são sonhos, se não houver morte como consequência. Amo o Governador da Bahia por cada não que ele soube dar. E enquanto vemos perplexos o bochicho em torno dos 6 bilhões para uma eleição, o vírus se prolifera e nossos heróis desaparecem diante de nossos olhos. Nossas vidas sem o diamante que João Coragem partiu, que Jerônimo e Duda Coragem carregaram bem antes da COVID. Na vida real, nossa vida está também sem Eva Vilma, sem seu Peru (Orlando Drummond), mas os políticos querem coligação, partidos de aluguel, dinheiro, vida mansa. Parem tudo. Parem tudo. Porque nós queremos - exigimos - muito menos. Queremos vacina, comida e eleição. Na nossa urna eletrônica. Brasileiríssima. Mas bem rápido. Antes que percamos mais, percamos todos, percamos tudo.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


“Morte” Bug Sociedade

Morreu Tarcísio Meira. Morreu Paulo José. Tantos mais, tão seguidos que nem temos tempo emocional de dar a cada um a atenção máxima e sensível de uma despedida que merecem. Continuam morrendo tantas pessoas importantes nas nossas vidas. Difícil.


A gente aprende que a morte faz parte de tudo isto mas insistimos em esquecer. Manoel de Oliveira, o grande cineasta português, morreu com 106 anos. A partir dos 100 anos, sempre lhe faziam a mesma pergunta – Como era viver tanto tempo - e ele sempre respondia da mesma forma – era muito doloroso e triste porque os amigos e família morriam e ele ia ficando cada vez mais sozinho, triste e com uma vida mais vazia. Acho que começo a entender isso agora, Senhor Manoel de Oliveira. Com eles vamos morrendo também. A vida parece perder o brilho, o sentido. Fica mais vazia. Quase sentimos culpa por sobreviver, por ainda estarmos aqui. Fazemos tanta coisa errada e quem vai é quem faz tudo certo, ou só vão os que gostamos ou o vírus escolheu assim porquê? Perguntas e interrogações que não têm resposta e que nunca nos largam.


Ai a morte. Aquela de quem sempre fugimos. Aquela que surgiu muito mais presente nas nossas vidas, desde março de 2020. Ela ia e vinha mas agora veio para ficar, para marcar, para magoar. Para nos buscar. Para tirar aos que ficam, pedaços, sem parar. Sem dar tempo de recuperar. E aí vai um pedaço de nós...e aí vai um pedaço da nossa voz...e aí vai um pedaço do nosso coração...e aí vai quase a nossa alma...e aí quase vamos nós... Já não sabemos bem onde estamos, parecendo circular entre a realidade e as recordações. A saudade, a falta. A reconstrução no meio do caos. Todos estilhaçados, todos perdidos, todos desamparados. Aqueles que queríamos para sempre também vão. Aqueles que seguravam os lemes da vida também vão. Aqueles que perfumavam a vida também vão. E não pára. Esta máquina trituradora não fica satisfeita e continua... Não basta o Covid19, suficiente para dizimar um planeta. Juntam-se os tremores de terra, sismos, maremotos, tsunamis, ciclones – Haiti, um lugar onde tudo o que é dor, perda, destruição, acontece. Impressionante. Juntam-se os Talibãs que foram retirando à mulher tudo o que um ser humano tem direito, desde os anos 70, que tomam conta de um país, quatro vezes maior que Portugal, o Afeganistão. Uma espécie de morte horrorosa em vida para muitas mulheres e meninas, nos dias de hoje. Proibição de ir à escola, de sair, estupro, violação, maus tratos, etc, etc, etc. Como é possível?


Ai a morte. Que vai nos ensinando que não adianta tentarmos estabelecer escalas de quem é mais importante. Porque cada um é importante para alguém. Não dói mais porque são os “nossos”. Cada um tem os “seus”.


Ai a morte. Que umas vezes faz uma visita suave e já deixa tudo fora do lugar.


Ai as pessoas que nem a dor, a dificuldade, a pobreza, a doença, o sofrimento dos outros a faz parar de roubar, de corromper, maltratar, mentir. Ai as pessoas que ficam viciadas no sucesso, na vaidade, na inveja e no ego. Ai as pessoas que estão em cargos políticos, lugares para onde foram para proteger o povo, se dedicar a melhorar as condições de vida de todos e deixaram morrer a sua alma no caminho. Morrem em vida, matam em vida. 560 mil mortes no Brasil.


É doloroso demais ver o mundo se desmoronando, apodrecendo, seres humanos se maltratando sem culpa, sem arrependimento. Sem solução. A morte vigia o mundo. A morte física, moral, emocional, espiritual.


Ai a morte. A maior lição de cada um. Tentar enganá-la, fugir dela ou fingir que não lhe damos importância, não parece adiantar. Ela não ouve, não fala, não pede. Ela apenas vem.

Ana Santos, professora, jornalista

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