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Conto de uma tristeza boa


Ana é triste e gosta. Não sabe de onde isso lhe vem. Existe uma demora agradável nesse estar. As pessoas dizem-lhe que estar triste não é bom. Ela fica confusa com esses comentários de pessoas adultas, maduras, que dizem que sabem da vida. É que ela é muito feliz nessa tristeza. Nessa demora. Também gosta muito de rir, de dar gargalhadas, de se divertir com os amigos, de conversar, de conviver. Aliás fala pelos cotovelos quando está com pessoas e gosta de as fazer rir. Mas não é a mesma viagem, não é a mesma coisa. Por que isso acontece? Está errado? Nunca entendeu isso...


Foram os livros, volumes misteriosos e silenciosos arrumados por todas as prateleiras da casa que lhe abriram um mundo único e que ela acha triste e demorado. Um mundo que acordava dentro dela devagar sempre que olhava as palavras nos livros e elas saltavam para dentro de si, umas atrás das outras, se transformando em coisas, pessoas, histórias, medos, riscos, coragens, sentimentos, sensações nunca vistas. Uau, tudo tão incrivelmente mágico. Os dias eram fantásticos por dentro e por fora. Por fora ria e vivia um mundo veloz, por dentro construía outro, desconhecido, igualmente rico. Demorado.


Como algo parado e fechado numa prateleira, quando aberto, se transformava dentro dela em tantas coisas, tristes boas, tristes gostosas e diferentes. Demoradas. É que ali, nos livros, as pessoas, os lugares, as vidas, eram colocadas em muitas palavras, momentos mais compridos dos que existem no mundo “real” e Ana sempre se encantou com isso e sempre achou lindo e triste-bom. Porque é demorado. Ana acha que os risos e gargalhadas são sensacionais, mas são muito rápidos, muito velozes. É uma explosão, mas é curta. Já as histórias dos livros, têm outro sabor, outra velocidade. Deixam lastro, deixam um diferente gostoso no corpo e nos pensamentos. Permanecem. Mexem com as arrumações interiores, reorganizam. Tornam-te outra pessoa por dentro. Te transformam. És quem desejas ser. Aprendes que por dentro se faz o mundo cá fora. Demorado, triste, bom. Lindo como um livro. E Ana foi entendendo que a tristeza boa que falava afinal era crescer. E era bom. Demorado e bom.

Ana Santos, professora, jornalista

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