2 Contos: "Tic Tac – o tempo está passando..." e “60 anos”

Conto "Tic Tac – o tempo está passando..."
Terça é dia especial... mas ainda hoje aprendi muitas coisas – futuro e presente unidos pelas mãos das pessoas que se cruzam pela minha frente, na rua.
- Ansiedade, culpa, profissionalização com profissionalismo, doença com dignidade, emagrecer, comer, andar, sorrir, plantar – viver é um ajuntamento sem fim de complexidades porque pessoas são complexas.
- Pessoas querem coisas cada vez mais fáceis – de que adianta vender tudo como coisa fácil, se viver está cada vez mais difícil?
Setembro amarelo, tratamento psíquico, emoções à baila... mas viver é apenas aquele botão que se aperta, apesar de tudo...
São muitos tudos, são muitas coisas e pessoas. São muitas energias que se cruzam por universos incrivelmente complexos. Alguém faz aniversário e o comemora entre doentes e seus familiares, num lar. Alguém se perdeu do tempo e se sente tragada pelo medo do que virá e a culpa pelo que se já passou.
- Lembre, comece, inicie sempre pelo presente imediato. O que você precisa fazer agora, de imediato? Um copo d’água? Ir ao banheiro? Ceder a vez? Agora. Quem é você agora? Do que precisa, o que quer dar, com quem quer falar? O que precisa ser dito? Agora.
Comunicação cursos, comunicação marketing, vendas. Pessoas. A comunicação original dá origem a tudo. O ministro Mendonça tentou subverter a comunicação e o Dino o colocou nos trilhos, apesar da inoperância presidencial do Fachin. Aqui no Brasil se entende isso. Mas a comunicação fraciona experiências de interpretação e compreensão, como Mendonça muito bem exemplificou com suas ações nada nobres. Apenas, houve alguém que achou aquilo inaceitável, refez a proposta e conseguiu nova resposta.
- Fatos, realidades. Yes, eu tomo vacina!
- Tudo com pouco sentido porque a vida joga dados e você que faça as contas! Mas o que fazer se as pessoas precisam da ajuda do celular até para receberem 21, numa conta de 16, e saberem quanto é o troco?
- Sabemos comunicar? Entendemos o que nos é comunicado?
Eis a questão. Pobre Shakespeare. Pobres de nós.
- É narrativa sua!
- Onde está o tempo simples, onde bastava gritar bem alto: é mentira!
Tantas simplicidades viraram vazio existencial, depressão, busca.
Quem somos nós, sem nós?
Eis a questão.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “60 anos”
Estou fazendo 60 anos.
Nem parece.
Por dentro me sinto muitas vezes a menina que corria pelos campos, segurando as calças com uma das mãos para não escorregarem, de tão largas que estavam.
Alguém que apenas queria ir e ir e ir, e seguir os olhares cativantes das pessoas, seguir as águas dos ribeiros, e ir com o sol que se punha.
Ir e voltar, ir e voltar e ir e voltar em cada instante.
Sempre em movimento, acompanhada pela sensação de que a vida era maravilhosa em cada instante, pelos laços e aconchegos, pelas construções que aconteciam quando pessoas se juntavam.
O coração explodia de alegria com os sorrisos e gargalhadas das pessoas, com as mãos que se estendiam para colaborar, com as caminhadas em conjunto – a pé ou de bicicleta, ou mesmo descendo o rio de barco.
As pessoas na vida como algo com sentido, porque elas eram o sentido, elas eram a vida.
Aos 60 percebemos que não são as pessoas que são a vida. Elas são o acompanhamento, como a farofa numa feijoada. Feijoada sem farofa, não tem tanto valor, mas continua a ser feijoada.
As pessoas fazem parte da sua vida e depois já não fazem mais, enquanto sua vida segue. Muitas pessoas querem ir embora quando as pessoas que amam se vão, por que pensam que a vida eram elas. Mas não eram. Por muito que custe, não eram.
Seguimos, com a feijoada, com cada vez menos farofa, mas quem sabe, mais à frente, com calças que não escorregam mais, quando corremos, a farofa aumente de novo e de novo diminua e de novo aumente e a vida seja essa oscilação de acompanhamento.
Tudo isso me recorda uma conversa há muito tempo atrás:
- mãe?
- sim?
- porque eu nunca tenho festa de aniversário e todas as minhas amigas têm?
- porque não temos dinheiro para festas, filha. Já falamos sobre isso. Um dia, quando a vida melhorar, terás as festas de aniversário iguais às das tuas amigas, combinado?
- combinado...e quando será isso?
- não sei filha, mas sei que tento a todo o momento para ser o mais breve possível.
E esta conversa também:
- filha?
- sim?
- cadê as festas de aniversário para as tuas filhas? Estavas constantemente me perguntando quando terias festa de aniversário, quando eras bem pequena, mas agora que tens condições financeiras para o fazer para as tuas filhas, por que não o fazes?
- ai mãe, agora acho uma despesa desnecessária, não tenho paciência para muita gente aqui em casa e já não vejo essas festas como algo bom e sim como algo que me dá muito trabalho.
- eu sempre vivi com a culpa de nunca te ter podido dar festas de aniversário...
- oh mãe, desculpe por nunca lhe ter dito que isso me passou quando comecei a sentir o quanto custa ganhar dinheiro e o quanto trabalho dá uma festa de aniversário, onde quem menos festeja sou eu.
- é...estás mesmo a chegar aos 60...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Pollock
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