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2 Contos: “TENHO MEDO DA CHUVA” e “Dia de medicamento”


Lucas Avendaño

Conto “TENHO MEDO DA CHUVA”

Ela não tinha medo de chuva – até o ano anterior. Sua casa era sólida, graças.

Não adiantou muito. Tinha ficado com medo do que o clima poderia criar em Salvador desde o ano passado. Tanto foi, que trocou o telhado. Mas agora que o tempo das chuvas estava bem próximo, se pegava a olhar o horizonte, as nuvens... 

Tinha medo.

Tinha medo da falta de educação ambiental de todos, em Salvador. Ninguém parecia se importar com o lixo, com a derrubada alucinante de árvores, com a troca do verde pelo “cinza-cimento” ou “preto-asfalto”, do não compartilhamento da vida urbana. Tinham festas e festas e festas, além de obras loucas que afinal não se sabia dizer para que serviriam e sobretudo por que a cidade estava ficando cheia de muretas, sem escape para as pessoas.

- Nenhuma campanha educativa... Se cair uma tempestade, o que devemos fazer? Tem muitos bueiros que foram simplesmente tapados e pronto. Quem é o nosso interlocutor? Na campanha, tenho certeza de que os carros de som vão passar à vontade. Deveriam estar nos informando e treinando desde agora porque a chuva vem, com certeza!

Diálogo não era o forte da cidade.

Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro debaixo d’água – deu na Tv agorinha.

- E agora, gente?

Não suportava nem a ideia de ouvir um governante dar desculpas esfarrapadas:

- Não sabíamos... - sabiam muito bem; Estavam acabando com as cidades há décadas e agora fazem esse “oops” fingindo surpresa - uma “cara de pau assombrosa”!

Estava cansada de ter medo, aliás. Olhou mais uma vez para o céu nublado, avaliou a situação e apurou o ouvido – ainda sem trovões.

Seu coração estava enterrado na falta de juízo de um mundo masculino, preconceituoso e cada vez mais agressivo. Que não discutia nada, não conversava sobre nada. Ao contrário, queria vender ideias cada vez mais tresloucadas de que somos adversários no Brasil. Que havia muitos Deuses – todos separados e adversários uns dos outros.

- Já pensou se essa maluquice virar a crença de que cada Deus precisa vencer o outro? De que Jesus estava errado ao pregar o amor? Que agora basta “descer o David” e sair quebrando todo mundo no pau?

Lá longe estava ele - o medo. Ela o “espantou” de novo e de novo. Olhou sua rua, sua casa e temeu pela casa de todos. Pela vida de todos.

- Sem governo, abandonada na cidade que achava que estava fazendo tudo, quando, ao contrário, tinha tudo por fazer.

De um coco aberto, jogado na beira da calçada viu uma cabecinha bem sua conhecida: um rato. A cidade era cheia deles, já que ninguém era educado a separar lixo e ninguém fazia nada a não ser reclamar dos ratos, enquanto os alimentavam.

- Onde isso vai parar, gente?

- Hei, moço! O senhor vai mesmo fazer xixi na minha porta?

O homem já tinha colocado o “instrumento pra fora”...

- Só chorando, viu? Só chorando!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Dia de medicamento”

É mulher. Gosta de ser mulher. Uma vez, em trabalho, conheceu um homem muito simpático e gentil em Marrocos. Ficou amiga dele, trocaram contatos. Quando chegou a Portugal escreveu-lhe uma carta – no tempo saudoso das cartas pelo correio. Dizendo que amou conhecer Marrocos, amou conhecê-lo. Ele respondeu e retribuiu. Também tinha gostado muito dela e queria muito convidá-la para passar uns dias em sua casa, para lhe mostrar com calma como Marrocos era ainda mais bonito do que quando era visitado a trabalho. Ela ficou muito feliz com o convite, comentou com o namorado. O namorado também achou uma ideia super legal. Então respondeu com outra carta dizendo que ela e o namorado iam com muito gosto e que seria encantador também conhecer sua esposa e seus filhos. A carta de resposta do homem de Marrocos, veio com menos encanto. Disse que a tinha convidado a ela, não a ela e ao namorado. Que como tinha várias mulheres, só tinha lugar para ela ficar, nos aposentos de uma das mulheres dele. E, a facada final – disse que estava interessado nela, que tinha 8 mulheres e que não havia problema nenhum em ter outra mulher. Não respondeu nunca mais a esse homem. Nunca mais o viu. Nunca mais voltou a Marrocos. Ainda hoje se pergunta como algo que parecia tão bonito, virou apenas um desejo daquele homem? Ficaram tão amigos naqueles 10 dias de trabalho, parecia uma pessoa tão séria e gentil. Sabia que era casado e estava tudo bem porque gostou muito dele como amigo e isso já era um pequeno milagre. Hoje percebe que ele vive noutra cultura, que pensa diferente, que não viu a mesma coisa que ela viu. Para ela isso não está certo, para ele é assim que é certo.

Gosta de gostar das pessoas, gosta que gostem dela, mas com os homens percebe que existe uma zona perigosa. Se for feia, se estiver descuidada, se estiver com peso a mais, se se vestir de forma pouco sensual, se falar alto, se for mal educada, tudo isso afasta bastantes homens interessados. Por outro lado, isso por vezes aproxima homens ainda mais problemáticos. Parece que alguns pensam que ela, desmazelada, é mais fácil de conquistar e se ele for mais violento ou rude, ninguém vai acreditar nela. Mas quando se cuida, se veste bem, se maquilha, e fica linda e atraente, percebe que os olhares deles mudam. Percebe que muitos agem como se ela os estivesse a chamar. Ficam perdidos, em sua volta, tentando ser o eleito. Por vezes, a perseguem, a pé, ou de carro, ou a sua vida, os seus comportamentos, questionam suas escolhas. Este último grupo de homens inclui por vezes seus amigos, maridos das amigas, irmãos, primos, tios, sobrinhos, netos.

Se for muito gentil, muitos se aproximam, se não for tão gentil, alguns se aproximam. Ela conhece um homem na oficina, ao final de 5 minutos de boa conversa, o homem já está virando o sentido do encontro, já está querendo marcar para passarem um final de semana juntos – sem nem saber se ela deseja isso, se ela é casada, quem ela é e o que quer. Ela conhece o homem bonito, num casamento. Falaram bastante, ficaram amigos – pensou. O cara conseguiu seu celular, ligou-lhe. Muito legal. Ele queria convidá-la para um final de semana de um festival de cultura numa zona linda do país. Ela ficou feliz, mas quando percebeu que ele, ao tratar de reservar hotel, reservou um quarto duplo para dormirem juntos, sem nem lhe perguntar se ela pensou nisso, se queria, recusou. Ele ficou brabo, nunca mais quis falar com ela. Nunca mais se viram. Lá se foi a amizade. Numa festa de aniversário de uma grande amiga, conheceu seu irmão. Amou conhecê-lo. Culto, educado, bonito, gentil. Trocaram contatos. Um dia ele enviou-lhe uma mensagem, mas foi exatamente no momento em que saía de casa para ir ao funeral de uma tia querida dela. Nem viu, nem respondeu. No final do dia, olhou o celular e viu a mensagem. Ele estava convidando ela para ir ver o seu apartamento novo, que estava ficando pronto. Olhou aquela mensagem e percebeu que, de novo, a proposta não contemplava seu pensamento, sua opinião. Respondeu que não podia, se desculpando. Nunca mais se falaram e soube que ele ficou muito brabo por ela ter recusado. Tem mais histórias, muitas, muitas e tristes. Tem outras histórias, igualmente tristes mas mais terríveis, mais incómodas, mais fraturantes, mas que ela não quer mais desenterrar.

Ela envelheceu e ganhou medo aos homens, anteriores amigos, em menina. São poucos os homens em quem confia, poucos os que ela aceita estar só, poucos os que ela sabe que respeitam a sua opinião, que a protegem, poucos os que não a desiludem.

É fim do dia. Pôr do sol. Baixou o calor. Hora de tomar seus medicamentos de velhota. Está cansada, com um pouco de tristeza no seu coração, depois de pensar nisto tudo. Tudo isto sempre é desapontador, tudo isto sempre machuca seu coração. Resolve ligar a Televisão para se distrair. Mas nem a televisão a ajuda. Estão passando notícias de Daniel Alves, Robinho, goleiro Bruno, treinador Cuca, Alan, etc, etc, etc...uma lista interminável. Mais as situações que ninguém nunca vai saber, mais as situações que não sucederam porque as mulheres, como ela, tiveram a sorte de poder recuar, poder fugir, poder evitar, mesmo sofrendo algumas consequências. Mas consequências preferíveis a estupros, violações, agressões, manipulações, ameaças.

Hoje já viu que terá de tomar um comprimido para dormir. Aquele medicamento que o médico insiste, mas que ela não gosta.

Ana Santos, professora, jornalista

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