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2 Contos sobre Perdas


Conto “QUANDO TUDO SE RESUME EM ACREDITAR”


Levantei os olhos e fixei um ponto, em algum lugar dentro de mim mesma – o que devo dizer? Tanta gente, tanta coisa morre e agora eu olho pra você que ainda não sabe que o seu cachorro morreu. Não sou eu a lhe contar, mas posso ser eu uma mão displicente que se estende e diz que é sua e que está ali pra dizer que te ama.


Eu te amo e estou aqui.


Há um percurso nosso, confiante e silencioso, sempre. E houve sempre a perda. Não sei porque a vida vive tirando e trocando as coisas de lugar, mas sei que é assim. Tem uns terremotos, uns rios de lágrimas. Uns sangues. O que posso lhe dizer, é que quando as coisas me doem demais, eu levanto os olhos pra esse lugar imaginário em mim mesma e penso o que quero dizer sobre aquilo. Nunca deixo uma dor sem palavras. Não reclamações – palavras. Tento olhar na cara da dor e dizer o que vejo. Não discuto com a dor. Acho mesmo inútil que a gente discuta com ela porque ela é surda. Surda. Quando eu quebrei o pé, não adiantava nada dizer à dor “que injustiça você ter nos alcançado no nosso primeiro dia em família”! “Que injustiça você ter nos tirado a alegria do movimento e os trocado por pinos e cirurgias”! Então, acabei perguntando mesmo: “E agora, como vou me mexer? Onde consigo muletas? E você, menino? Como te devolvo pra sua mãe, sem que você fique tão triste? E você, menina? Que namoro estranho vamos iniciar agora”...


A vida é assim – cheia de perguntas à queima roupa e imediatas – a filosofia pode tentar respondê-las, mas... muito mais eu preciso de perguntas de resposta imediata.


Você sente dor. Eu sei. Agora são dores que somam porque ser adolescente já é uma dor que silencia a sua busca. Eu olho pra esse lugar que fica no alto e é imaginário e embora lá não haja resposta, tem a luz da esperança de perguntas que podem ajudar a clarificar muitos agoras. Você sabe que eu te amo, ok. Você quer outro cachorrinho, eu sei onde te ajudar a procurar por um, ok. Você prefere os silêncios, eu posso viver com isso e continuar confiando que o nosso amor está no centro do nosso mundo, mesmo quando as luzes se apagam, ok.


Porque tudo é mistério, a vida é um estranho ter e perder. Mas no amor nós nos temos. Sem delongas, sem economias, sem regras. Lá no céu dos cachorros há muitos amores nossos antigos e atuais se conhecendo e brincando de viver como novos anjos. Um dia, lá estaremos e eu vou te levar pra brincar com todos eles.


Sem perguntas. Ou com elas, não importa. Nós, apenas.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV



Conto “COLO”


Pituquito,

Estou com medo. Eu sei que tu achas que pessoas como eu, com a minha idade e com um sorriso sempre na frente da cara, não têm medo. Mas têm. Muito. E muitas vezes não têm a quem pedir ajuda, com quem falar, quem as entenda. Um colo. Deves estar a rir agora. Imagina...um colo... É verdade. Um colo. Algo que nunca senti necessidade em menina, em adolescente, em adulta. Agora, estou com medo e preciso de colo. Não sei como se faz, não sei a quem pedir. Sei que não o vou ter. Mas sinto necessidade. Um pouco louco eu sei, mas é isso. Todos morrem à minha volta. Os que não morrem estão doentes. Não consigo ajudá-los. A vida morre em torno de mim, por dentro de mim. Desde que a pandemia começou, quase tudo o que eu era na minha vida não posso ser nem fazer. Faz um ano que isso acontece. Perdi meus trabalhos por conta dos confinamentos que não terminam nunca. Eu era tão boa. Agora não sou nada, ninguém. Me sinto inútil. Tenho algumas economias e isso tem me aguentado, mas seriam para a minha aposentadoria. A pandemia parece se estar a tornar um modo de vida e isso me preocupa. Me preocupa como me vou sustentar no futuro. Tinha tantas certezas com a tua idade. Era eu e as certezas. Agora aqui estou, despida de caminho e cheia de dúvidas. Tenho medo pela primeira vez na vida. Pela primeira vez me sinto num barco que penso que está à deriva e por isso me sinto assustada. Preciso aprender a esperar serenamente pelo que vai chegar, a aceitar tudo o que está a acontecer. Sempre te mostrei que sabia tudo, mas eu achava mesmo que sabia tudo. Preciso que saibas que agora sei que não sei. Pensava que sim, mas agora sei que não. Mas espero que gostes de mim na mesma. Eu te amo como no primeiro dia que nasceste. O meu amor por ti está dentro de mim e me conforta. Mas o teu amor por mim não o vejo, não o ouço, não o sinto e isso me deixa perdida. Dizem que é por causa da tua idade, que adolescência é assim. Mas tu não me ligas, não me atendes, não lês as minhas mensagens. Quando lês não respondes e se insisto para responderes, vem uma palavra “sim”, “ok”, “lol”, ou uma mãozinha ou um boneco, se tiver mais sorte naquele dia. Não tenho comunicação contigo. Não consigo identificar o que quer dizer esse silêncio, esse afastamento. Não conheço os signos e significados do teu mundo. Não conheço a tua linguagem. Poderias traduzir o que expressas? O que sentes? Como comunicas saudade? Amor? Carinho? Pedido de ajuda? Como nos aproximamos de novo? Qual será a nossa linguagem “universal? O nosso “inglês? Preciso da tua ajuda. Não te quero perder. Estou com medo. Sinto falta de colo. “Sentir-te” mais perto seria um pouco de colo e afastaria um pouco este medo.

Um beijo meu filho

Ana Santos, professora, jornalista




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