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2 Contos sobre Eles


Conto “VERGONHA ALHEIA”

Todo mundo falava mal daquele Condomínio. Ficava bem localizado, mas...

Os moradores, ao invés de fazerem alguma coisa juntos, se reunirem, falavam mal uns dos outros.

- Você viu que o vizinho do 314 quer se candidatar a síndico? Deve querer se dar bem em alguma coisa! Será que vai tentar pegar a vaga na garagem de alguém que está sem carro? Desviar o dinheiro do condomínio?

E assim, de suspeita em suspeita, ninguém reparou num morador que parecia novo, mas que era antigo, antiquíssimo por ali, desde 30 anos passados. Tinha os filhos meio barra pesada, mas apesar disso, eram todos vistos como bons moços “branquinhos dos olhos claros” se não fossem todos bandidinhos celerados e agressivos. Mas “seu Coisinho, paizão” passava a mão na cabeça de todos – claro, eram seus filhos – e lá iam eles, de briga em briga, de bullying em bullying, de desaforo em desaforo.

Num dado momento, ele fomentou tanta fofoca, que todos suspeitavam de todos no Condomínio. Todos falavam mal de todos. E, de tão ocupados, ninguém prestou atenção ao grupinho barra pesada que se candidatou a sindico pra uma “nova gestão”.

Hoje vendo isso, o pessoal percebe que a palavra “novo” nos leva na direção de coisas maravilhosas, mas pode ser que não... As coisas podem ficar nocivas, piores e isso ser o novo, afinal.

E foi assim que aconteceu. O pai começou a urinar nos postes do condomínio, os filhos a chamarem todo mundo pra briga.

- Chamamos a polícia?

- Mas ele é amigo da polícia.

Começaram a aparecer uns cocôs nas calçadas:

- Gente, que cachorro grande é esse?

- Não é cachorro não... Esse cocô aí é de gente mesmo.

Aí ninguém mais dizia urina porque era tanta que virou mijo; mijo na parede, mijo no muro, cheiro de mijo em toda parte. Aí as meninas começaram a ouvir que ali só tinha homem macho e imbrochável e que era pros outros pais guardarem suas cabritas dentro de casa porque o paizão tinha soltado seus bodes pelo condomínio e quem reclamasse podia levar “tiro na cara”, porrada na cara.

Aí, o que era a antiga suspeita, nascida de fofoca plantada, virou vergonha. Vergonha de ver um bocado de homens andando pela rua do condomínio - agarrados à parte da frente das bermudas, balançando os pênis pra todos, todas, todxs os discordantes. E eram muitos. E não paravam de aumentar de número. Havia um vizinho e amigo do “paizão” – sempre ao lado dele, colado – que parecia o Louro José depois da saída do programa da Ana Maria Braga – e ver aquele ser ridículo (porque adulto), querendo aparecer na frente do diretor da escola, do dono do curso de inglês, do representante das lojas dava... vergonha. E só porque estava ao lado do síndico, naquele momento bizarro.

O lugar já era depredado na frente de todo mundo. Pichado, com jardim queimado, plantas arrancadas, grama toda pisada, mulheres gritando: tarado, tarado! – e o que era um condomínio, virou um antro. Muitos se mudaram e foram falar mal uns dos outros em outros condomínios. O “Parque Portugal” foi logo invadido – o síndico de lá passou uma vergonha imensa, numa visita por aqui.

Outras eleições vieram e, os homens do condomínio – muito mais abrutalhados e invasivos – começaram a ameaçar todas as autoridades presentes e ausentes, prometendo porrada na cara, ao invés de respeito às regras.

Mas as meninas – bem, as meninas e os empregados, que eram continuamente massacrados – poderiam transformar sua vergonha em resposta.

E a fé de todos, a aposta era que a resposta viesse como uma bofetada bem dada e aquilo virasse o exemplo do que nunca mais repetir.

Ah, em tempo: o nome do Condomínio semidestruído era “Jardim Brasil”.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “A Glória”

Ela sabe o que quer. Desde os 11 anos que adquiriu as suas certezas, o seu rumo, para onde caminha. Para quem observa, muitas vezes, deve parecer que é uma pessoa perdida, que não sabe o que quer, que muitas vezes teve a vida equilibrada e abandonou tudo, que podia ter tido tudo e recusou, que deixou de seguir coisas que eram fáceis para ela sendo irresponsável, que não tem competência para os mundos novos onde se envolve e que deve achar que sabe tudo. No mínimo, estas devem ser conversas dos urubus e abutres, que não conseguem digerir seu caminho. “Quem ela pensa que é?” Muitas vezes acharam que ela estava adormecida ou anestesiada, no lugarzinho certo para ela – só ou mal acompanhada, vivendo apenas para o seu trabalho, seus pais, irmãos, sobrinhos, problemas, tarefas, deveres, despesas. Ouviu de tudo, literalmente de tudo. Alguns dos comentários mais agradáveis recorda com um sorriso maroto: “O que fazes aqui quando todos estão no Algarve? Não tens para onde ir? Que vida é essa que tens? Vais ficar para tia? Afinal és uma incapaz. Esta ninguém a quer... O que conseguiste até agora foi sorte afinal. Viver noutro país? Ela nem da aldeia dos pais consegue sair, para onde ela iria?...ahahahah.” Ah também tem o de: “ela é muito tradicional”. Esse ela gosta particularmente.

Pensa muito, ela pensa muito. Quer muito, ela quer muito. Não se impõe limites, ela não tem limites. Tem sonhos, é inundada de sonhos. Persistente, quando decide algo, vai em busca, em silêncio, sem grandes publicidades, sem medo. Fica sempre espantada pela quantidade de limites, críticas, silêncios recriminadores, tentativas de boicote, intimidações e principalmente, invejas, que os seres humanos são capazes. Porque não vivem a sua vida? Tanta coisa para fazer no mundo e desperdiçam tanto tempo desejando mal aos outros, achando que os outros se consideram mais importantes do que são.

Um ser humano tem dentro de si tudo. Ela sabe disso. Tenta sempre avisar os outros disso, mas muitos não prestam atenção. E outros simplesmente se riem e pensam: “quem é ela para lhes ensinar alguma coisa? Eles os eleitos, os capazes, os inteligentes, não podem prestar atenção a quem é da plebe como ela.” Ela sempre tenta avisá-los, mas percebe bem os que ouvem e os que não. E está tudo certo porque eles é que escolhem. Ela tem, digamos, seres semelhantes a ela pelo mundo. De vez em quando cruza-se com um. Alguns ficam na sua vida, outros precisa deixá-los porque o caminho que faz não a deixa ter esses pesos, esses olhares sobre a vida. Não pode nem se perder do seu caminho nem impedi-los de fazerem o seu.

De vez em quando a vida polui seu pensamento, sua clareza. Sua culpa é imensa e profunda. Nada disso ajuda. Mas existe nela algo que não sabe definir, mas que a impele em direção ao seu caminho, à sua jornada. Quando algo precisa ser feito, não tem questionamentos. Ela sabe que deve seguir por ali, ela sabe que é o momento de mudar de direção, ela sabe que o vento mudou. Simples, leve, claro e muito intenso.

Barack Obama lhe disse que ele também sentiu o mesmo quando chegaram as horas de fraturar os caminhos construídos pelos outros, para ele. Juan Carlos Ferrero também lhe disse que não existe desistir, não existe rendição, não existe “deixar pra lá”, não existe reconhecer que não somos capazes. Não existe. Só existe um caminho certo, o caminho que suas pernas a levam sem ela nada lhes dizer... Mesmo, raramente, quando não sabe o que fazer, o silêncio, a pausa, a espera, lhe dá a resposta. A resposta assustadora da vida dizendo por onde é a glória. E é vê-la indo, sendo, seguindo...vivendo o que veio aqui para viver.

Ana Santos, professora, jornalista

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