2 Contos:“#SignalForHelp” e “Mulher Ivetada”
- portalbuglatino
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Conto “#SignalForHelp”
Fim de novembro. Calor, em Salvador. Caminhava pela rua desligada, dispersa que sou pela minha própria natureza hiperativa, quando senti um esbarrão. Por algum motivo, ainda antes de dizer alguma coisa, qualquer coisa, vi a mão da garota nas costas, abrindo a fechando os dedos em torno do polegar. Na hora me lembrei do sinal de socorro para abusos de gênero.
- O nosso sinal de alerta!
Fiquei morrendo de medo. O cara segurava a garota pelo braço, apertado. Pararam, à espera que o sinal fechasse. Ele falava sempre próximo ao seu ouvido, com o olhar de poucos amigos para quem passava ao redor. A garota continuava com um braço pra trás, abrindo e fechando os dedos, em torno do polegar. Tomei coragem:
- Vem cá pra eu te abraçar logo! – peguei ela pela mão e a levei direto para o posto policial, fazendo o mesmo sinal para a PM feminina.
- Me ajuda a ajudar essa menina, guarda! – cochichei.
O cara, me pegou pelo cotovelo, perguntando que história era essa, já que ela era namorada dele.
- Minha história com ela é bem mais antiga! Sou sua professora mais querida e ela vai ficar aqui comigo. – Ali, naquele momento, nesta frase, olhei fixamente pra ele e soube que ele tinha entendido que eu tinha visto o ataque, a agressão silenciosa.
Tentou tirar o braço dela do meu e teve eu e a PM segurando seu braço de volta.
- Ela está aqui e não parece querer ir com o senhor! – disse a oficial.
- Ela está aqui e estou achando a sua forma de lidar com mulher meio estranha. – disse eu.
- Eu estou aqui e daqui não vou sair. – disse a garota.
Tumulto, gritos, puxões. Empurrões, algemas, palavrões. Gente, burburinho, confusão. Ele foi de camburão, naquele passeio que toda pessoa tenta evitar – aquele, na traseira do carro da polícia.
Eu e ela nos tremendo da cabeça aos pés, mas com o pensamento firme: Essa forma de agir dos homens tem que acabar. A garota me disse que fez o sinal inúmeras vezes e as pessoas se afastaram dela, ao invés de ajudar. Muitas dessas pessoas eram homens – ela teve medo de sinalizar para as mulheres por causa da violência do namorado. Mas se os homens veem e não reagem, se eles estão diante das mulheres sendo assediadas, “sarradas” nos transportes, se ninguém se importa de que haja um vagão que segrega mulheres para que os homens tarados andem soltos e à vontade pelos vagões, se não há uma campanha que pressione os homens, como vamos ganhar essa guerra?
A menina me abraçou. Agradeceu. Mas a pergunta continuou sacudindo a minha cabeça: o prefeito não anda no transporte público – quem dera. O governador, o presidente – todos homens e todos andando com o melhor transporte disponível. Também a maioria dos assessores e diretores eram homens, na maioria héteros, com motoristas – também homens e na maioria héteros. O que eles viam de errado no transporte? Nada. O que viam nos elevadores? Desviam o olhar, uma grande parte.
- Achei que era fantasia sexual das garotas...
- Fantasia sexual ter um homem se “sarrando” nas suas costas? A cara de desesperada também fazia parte da fantasia sexual, idiota?
Isso precisa acabar. Mas qual autoridade liga para isso se todas são homens héteros, sem nenhuma sensibilidade, ainda na calibragem de “puxar pra fora o instrumento e fazer seu bom xixi na rua”, bem na frente de todo mundo? Isso precisa acabar. Mas como?
A história não pôde ter fim. Recebeu apenas um ponto, mas não um ponto final. Os homens continuam olhando o gênero feminino com um objeto de satisfação, algo um pouco melhorado do nível boneca inflável. É nojento. É indiscutivelmente asqueroso. Só os homens acreditam na história de que somos deles, que mulher serve “pra isso”. Seja no trabalho, no prédio, no ônibus, somos de nós mesmas, pertencemos ao nosso próprio desejo, somos donas do nosso corpo e não merecemos essa escória nos pegando, estuprando e depois fazendo as malditas leis que nos tornam criminosas por não querermos filhos, não querermos a violência, a morte.
- Que sejam tratados todos os homens como mulheres, nem que seja por um dia! Os direitos humanos apareceriam na hora, no mesmo minuto!
Demos um suspiro, as três e nos separamos. Levei a menina em casa e a deixei com a mãe. Elas disseram que iriam à delegacia. Não sei se foram. Mas tenho a esperança de que tenham ido. Mas que política, justiça e sociedade mereciam umas passadas de mão bem devassas, ah... mereciam...
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Mulher Ivetada”
Procuro na internet a definição de mulher. Falta qualquer coisa sempre. Pergunto à inteligência artificial. É muito completa e perfeita, mas não me satisfaz.
Um destes dias perguntei ao meu amigo Teo e ao vizinho Cordi. Vi que ficaram sem jeito, se atrapalharam nas palavras e, principalmente, não falaram o que realmente pensam. Ou sentiram vergonha ou é mesmo esse jeito de homem que aprende que nunca se diz tudo a uma mulher. Aff. Falaram o que é bonito de se falar. Ouço pessoas mais velhas falando sobre as mulheres no ônibus. Não sei se o que dizem depende da sua roupa, seu dinheiro, sua profissão, suas vivências, ou se eu é que comparo o que dizem com tudo isso. De qualquer forma, tem sempre a falta de algo. Parece que estão a falar de algo imaginário, algo que podia ser melhor, mas nunca apresenta a sua perfeição.
Todas essas informações que adquiro com as pesquisas e com as perguntas, me mostram que, quem não é mulher, diz o que vê. E o que vê é o que está fora. E o que está fora não é que é uma mulher, mas sim o que uma mulher exterioriza. Parece igual, parece parecido, mas é muito diferente. Sua opinião vem de um resumo de todas as mulheres que conhece.
Ora eu, mulher, não me vejo por fora, vejo-me por dentro. Eu sou, por dentro, bem dentro.
O que digo então a este cara, que me olha como seu fosse um hamburger? O que digo, sem dizer muito de mim, porque ele não merece saber de mim – interior. E por que me olha assim? Bem, ele não me olha. Quanto mais próximo está, mais eu entendo que ele não me olha, mas sim olha as minhas mamas. Esqueci de sair com o soutien. Que raiva! Meu Deus! As minhas mamas, que mais são umas mamitas pequenas e com meio século de vida, parece que o hipnotizam. Com que direito? É como se eu estivesse nua. E se eu, em troca, olhasse para o lugar do seu “pênls”, com a língua de fora? Eu queria poder fazer isso e ele sentir o mesmo incômodo que eu sinto. Mas acho melhor não arriscar porque é capaz de achar que é desejo ou vontade de algo que realmente não sinto vontade. Mas o que faço então? Faço de conta que não percebi.
Caminho mais um pouco e vejo um homem passar por uma mulher e de seguida se virar e olhar a bunda dela como se fosse um prato de arroz com feijão. Novamente tenho vontade de lhe fazer a mesma coisa. Mas não posso porque ele vai interpretar que eu estou com ciúme ou querendo algo com ele.
Tenho de ter muito cuidado com o que digo, para onde olho, quando me rio, evitar expressões faciais que possam ser interpretadas como vontade de transar com aquele homem. Aquele, o que olhou minhas mamas, o meu chefe, meu vizinho, etc, etc, etc.
Por que sou só umas mamas? Ou uma bunda? Ou um lugar onde desejas ter teus desejos satisfeitos? Por que razão isso não pode ser a dois? Algo a buscar, ou um momento, onde os dois procuram encontrar o mesmo lugar, as mesmas sensações, o mesmo fim? A dois, pelos dois e para os dois? Como é possível que existam mulheres que morrem sem nunca saber o que é, nem sentir um orgasmo? Algumas morrem até achando que o orgasmo é pecado. O que olhou minhas mamas deve estar a pensar para que raio a mulher precisa de sentir um orgasmo. Talvez também considere que já é muito ser escolhida por algum homem. Recordo uma aluna adulta, que um dia me disse, que estava muito cansada, que ainda ia fazer o jantar, tratar dos filhos, jantar, deitar os filhos, preparar tudo para o dia seguinte, mas que ainda tinha de deixar o marido “transar” com ela porque era sua função. Como é?
Estou quase a chegar a casa, ansiosa por entrar, fechar a porta e ficar longe dos olhares invasores, do desconforto. Estou feliz por estar divorciada. Não posso dizer a ninguém porque me vão achar estranha, mas estou feliz. Que deveres? Se algum dia, casar ou namorar de novo, será a dois, não um que decide e outra que cumpre. Não. E não posso mais esquecer de vestir o soutien antes de sair de casa. Não posso, nunca mais.
Minha amiga que vive na esquina da minha rua grita feliz da vida:
- Ivete separou do marido! Uhu! Viva Ivete! Não tem homem para ela. Muito menos se for apenas para aparecer em público para abraçar e beijar, para falar de desejo e tesão. Ivete é mulher retada. E eu já falei com meu Luís que ou ele me cuida ou vai sobrar para ele também. E quer saber? Hoje sextou e ele disse que hoje a janta, os filhos e arrumar a cozinha é com ele. Está se salvando, é só o que eu digo!!!! Ahahahah...
- Uhu!! Greice, você me salvou o dia!!!
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Andrea del Verrocchio
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