2 Contos: “SIGNAL FOR HELP” e “Cuidado! Indesejar pode libertar!”
- portalbuglatino
- 6 de dez. de 2025
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Conto “SIGNAL FOR HELP”
- Parede de apartamento anda cada vez mais fina, pensava ela. Foi assim que, do seu apartamento, “meio que ouvindo” tudo o que acontecia na casa da vizinha, foi se acostumando a acompanhar a rotina dos seus dias. De repente, aquele barulhinho de coisa sendo desembrulhada – “ai, gente, também tenho que ir ao mercado” – pensava. Mais umas horas e lá estava a vizinha falando com a mãe. Ela sorria e continuava no seu dia, já jurando que, sem ter muita intimidade, eram muito amigas, já que tinha certeza de que a vizinha também a ouvia muito bem, mesmo em casas separadas.
De repente, começou a ouvir sons de beijos.
- Ta namorando!
Andava meio sensível em relação a namoros, depois que sua última relação tinha terminado e preferia se resguardar. De toda forma, ouvir “o som” do carinho lhe fazia bem. Só que, depois um tempo, entre o som dos beijos e afagos, suspiros e gemidos, ela começou a perceber também alguns sons abafados por algo que pareciam almofadas. Como gritos de dor amordaçados por algo.
Sem querer, foi ficando cada vez mais atenta aos ruídos. Lá estavam os sons estranhos. De novo...
Tinha tomado banho e se arrumava para o trabalho quando pensou ouvir nitidamente: “Assim você não vai”. E de novo vieram sussurros e aquela coisa que parecia um grito sufocado. Levantou, sem pensar no horário, foi à cozinha pra pegar um copo e encostando-o na parede, tentou ouvir melhor.
- Você ta com roupa de piranha e mulher minha não vai ser chamada de piranha. Assim você não põe o pé na rua, entendeu?
- Amor, pare com isso!
Ela ouviu passos e lhe pareceu que ele chacoalhava a vizinha – aos sussurros. De novo aquilo, meu Deus.
Ao invés de sair, ficou com a porta entreaberta para ver, perguntar se a vizinha estava bem, se precisava de algo. Fazia o que ninguém tinha feito por ela, antes do término de sua relação. Fazia o que tinha rezado para que alguém fizesse. Sua respiração estava cada vez mais rápida e ela ouvia seu coração batendo dentro de sua cabeça. Medo, medo, medo... gritava mentalmente.
Ouviu o barulho de chaves na porta e suspirou fundo. Sua vizinha saiu. O namorado dela a olhou de alto a baixo. Ela lhe sustentou o olhar. Enquanto batia a porta, viu o sinal de socorro que de vez em quando, tinha visto acontecer na TV e na internet. Ficou paralisada por um tempo que tanto poderia ser 1 segundo como 1 minuto. Se empurrou também na direção do elevador e pegou a porta fechando.
- Que bom querida que você ainda está aqui! Você se incomoda de me emprestar um absorvente, em sua casa? O meu acabou.
O homem, miserável já se movia na direção do apartamento. Ela sentia as mãos suarem, o coração a mil.
- Não, por favor! Nos espere lá embaixo! Eu já estou incomodando tanto a vizinha... Como era mesmo seu nome? Nós nos vemos tanto aqui no corredor, mas... sabe que nunca me ocorreu te perguntar?
Dentro de casa perguntou baixinho:
- Era um pedido de ajuda? Você precisa de ajuda?
Desceram de escada juntas. Mãos dadas. Por um instante, ela viu o homem parado na porta do elevador e do outro lado, na calçada do prédio, o carro de polícia que sempre parava por ali, em busca da média com pão e manteiga da padaria. Avaliou de novo. Ela precisava correr até a padaria com a vizinha.
- Ele vai dizer que é mentira! Ele sempre diz que é mentira e todos acreditam, enquanto ele me espanca e me enlouquece com esses ciúmes absurdos!
As duas se olharam. Parecia loucura, mas tinham tomado uma decisão, ali – juntas. Alguém abriu a porta do elevador, o namorado não nos viu saindo por ali e ficou furioso, o outro vizinho de andar foi empurrado por ele e não gostou. Um pequeno confronto – aproveitaram e pularam da escada para a porta do prédio, chave na mão, porta aberta, correram, carro da polícia, socorro, a carona para a delegacia, a delegada, o depoimento, a queixa, o chamado de rádio reportando uma briga no prédio das duas. Se olharam. Era ele, brigando com o vizinho do andar de cima, tinham certeza, o coração à mil, saindo pela boca, precisam sair dali, a delegada, por favor! – entendia totalmente a situação.
Saíram correndo até a esquina, viram o carro da policia chegando com os dois. O vizinho de cima jamais poderia supor que tinha salvo duas mulheres em risco. Os homens – sempre parecendo tão espertos – pareciam sempre deixar escapar a visão do perigo. Infelizmente pra nós, era cada vez mais visível, estava em todas as esquinas, habitavam o corpo de um namorado, um chefe, um paquera. Eram homens ou animais furiosos?
- Quem sabe?
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Cuidado! Indesejar pode libertar!”
Uma menina. Falo de uma menina que virou uma mulher. Mas, para muitas pessoas, ela continuou a ser considerada e tratada como uma menina, achando que não era capaz de fazer imensas coisas sozinha.
Conseguiu muitas coisas, longe desse ambiente. Coisas grandiosas, coisas raras. Perto dessas pessoas, nunca teve espaço nem oportunidade. Naquele ambiente começou a aceitar que não era capaz, que as coisas não davam certo, percebia que as pessoas duvidavam das suas capacidades. Foi entendendo que os espaços que conseguiu fora daquele ambiente a salvaram porque nesses espaços diferentes, era a sua decisão, o seu desejo e a sua entrega que determinavam o que alcançava. E como alcançou, no meio de estranhos e em meios bem desafiantes, começou a entender essa lógica. Que existem lugares onde te é dada oportunidade, te é dada a possibilidade de seres grande, te é possível seres o máximo de ti. Noutros lugares não existe espaço, nem oportunidade, não podes ser mais do que aquelas pessoas decidem. Percebeu que teria de entender essa diferença nos ambientes da vida para ser feliz.
Sempre que chegava a um lugar, tentava perceber se existia “espaço” de crescimento. Se não existisse, sabia que teria de encontrar forma de mudar em breve. Dessas decisões dependia a sua felicidade e o seu bem estar.
Não sabe se isso é assim por ser mulher, por ser minoria, etc. Sabe que é assim e tem de estar atenta permanentemente.
Um dia cometeu a ousadia de querer espaço, no ambiente que a proibia. Uma mulher que decide enfrentar um homem, enfrenta todos os homens e as mães dos homens, desse ambiente. Aos poucos, silenciosamente, estrategicamente, foi sendo excluída, diminuída, difamada, humilhada. Quando contavam sua história de vida contavam sempre de forma alterada, incorporando cada vez menos qualidades e mais defeitos. Foi resistindo, mas adoecendo ao mesmo tempo. Percebeu que precisava sair desse lugar, ou ficaria cada vez mais doente.
Era muito difícil sair. Era quase impossível. Parecia impossível. Como tudo o que é difícil.
Experimentou sair, aos poucos, gota a gota. Por vezes tendo que recuar de novo, para voltar a avançar, e de novo e de novo. Sentia que era difícil, sentia que talvez não fosse possível. Foi sentindo que nas tentativas de sair, se ia deteriorando. Parecia ser consequência de tamanha empreitada. Estava difícil a situação. O horizonte foi perdendo luz.
Um dia sentiu que não era capaz de sair, não era capaz de resistir, não porque não tentasse, mas porque se via degradando cada vez mais, pagando com o corpo a vontade de sair de um ambiente que realmente era maior do que ela. Nesse dia desistiu de tentar. Apaziguou seu coração e disse a si mesma que teria de tentar viver o melhor possível no meio daquilo. Aceitou não existir saída, aceitou ter de viver a situação, como pudesse. Nesse mesmo dia teve uma proposta aliciante, mas teria de deixar tudo. Tudo, significava também o que amava. Arriscou. Aceitou. Quem sabe é essa a saída. Mas tudo deu errado. Recebia emails de pessoas perguntando o que estava a fazer ali, foi intitulada de bêbada, de mentirosa, de traidora, de louca, de masculina, de irresponsável, de má filha. Ofereciam emprego e depois retiravam a proposta. Isso aconteceu muitas vezes. Ofereciam trabalho sem remuneração. Se perguntou muitas vezes se era isso que ela era. Se perguntou muitas vezes porque diziam isso dela? Se perguntou porque o mundo desabava. Para quê? Por quê?
Perdeu tudo. Tudo.
Mas os cachorros dos vizinhos a olhavam com carinho. Até os cachorros enormes e intimidadores. Pessoas que nem conhecia a convidavam para jantar. Artistas a respeitavam e a tratavam com carinho. Pessoas com quem se cruzava lhe ensinavam coisas novas, a olhavam com respeito e doçura. Se deu conta que estava se formando um novo ambiente. Agradável, seguro, sem obrigações, simples.
Onde podia ser quem desejava, quem ansiava ser, quem queria ser.
Quem merecia ser.
Que loucura! Ter sido indesejada a libertou...
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Arnaldo Pomodoro
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