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2 Contos: “ORGULHO E VAIDADE ANDAM JUNTOS” e “Definições”

 

Conto “ORGULHO E VAIDADE ANDAM JUNTOS”

De repente, eles aparecem. O caráter da aparição é sempre um pouco insidioso: você deveria estar apenas feliz, vivendo o momento, mas não – aparece aquela pequena sensação de que a pessoa merece mais que as outras e sempre por algum motivo particular: sofreu mais, trabalhou mais, cavou oportunidades melhores, se expôs mais. Nessa hora, o alerta vermelho emocional precisaria se acender para que você se perguntasse:

- É justiça ou vaidade?

Quantas vezes ela tinha visto aquilo acontecer? Muitas. Conforme sua idade avançava, mais ela pressentia o avanço de orgulho e vaidade e de como desestruturavam elementos de convivência e de dignidades humanas.

Algumas pessoas vibravam verdadeiramente, outras engoliam em seco a inveja daquele momento. Essas pessoas – as invejosas – pareciam de algum modo “puxar” as emoções densas, pesadas, as recordações de momentos difíceis, humilhantes. Momentos que estavam perdidos no tempo, acordavam.

- Quando eu era muito pobre vivi isso, meu pai passou por essa humilhação por mim, aqui todo mundo faz assim.

Diante das memórias, a escolha difícil entre se apegar ao rancor ou apenas deixar ir. O que você faria se isso estivesse acontecendo agora na sua vida? Se você visse o sentimento pesado saindo dos olhos do invejoso? Se você recebesse uma proposta para passar a perna em alguém? Apenas deixaria que o olhar atravessasse o desonesto ou se apegaria ao passado, à perda, ao mau trato social?

Esse é um dos piores impasses da vida. Sim, porque esperamos – e deveria ser assim – reconhecimento pelo que fazemos. Um “obrigada”, pelo menos. Mas quando a vida não lhe dá o que é devido, muitas vezes, o problema não é da vida – é da qualidade da pessoa ao seu lado. Portanto, é uma boa pergunta a ser feita intimamente:

- Vale à pena perder tempo com uma pessoa dessas, mesmo que ela seja parente direta, indireta? Quem quer se relacionar com pessoas que não podem ver um sucesso, não podem ver dinheiro, que sucumbem diante dele?

Nesse caso: sua opção é deixar ir ou apegar-se você também a sentimentos pesados como vaidade e orgulho? Como inveja e cobiça? Parece uma pergunta fácil, mas não é. Parece uma decisão fácil, mas não é.

Se corromper pela vaidade de ter coisas, andar de aviãozinho, se vender por jantares é tão fácil..., mas e o seu íntimo? Sua consciência? Se sentir superior é isso? Isso significa vitória ou espírito corrompido?

O que você faria? Qual seria a sua opção? Qual seria a punição que daria para crimes assim, se você testemunhasse, você visse?

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Definições”

Quando era menina, lembro de ouvir muito as pessoas mais velhas dizendo de forma bem comum que o sapateiro era um senhor muito calmo, o homem do açougue era preciso ter cuidado porque trocava carne boa por carne mais ou menos, a costureira levava muito dinheiro pelo trabalho que fazia, a empregada de limpeza era fraquinha, mas não existia mais nenhuma para a poder mandar embora, e muitas mais definições de pessoas, funções, vizinhanças, negócios, namoricos. Era pequena, aprendi que os grandes é que sabiam viver, é que tinham sempre razão. E se fosse professor, doutor, Padre, mais razão tinha perante todos.

Quando saí da minha pequena terra, para a cidade, todos me olhavam e me consideravam a menina da pequena terra. Quando fui estudar para a Universidade, na segunda cidade do meu país, me tratavam como a jovem que veio da cidade pequena – minha querida terra pequena nem existia para eles. Depois fui trabalhar um ano para uma das ilhas dos Açores e aí a coisa ficou estranha porque na minha terra pequena, na cidade pequena e na segunda cidade do meu país, me chamavam de açoriana, e nessa ilha dos Açores, me chamavam de jovem da terra pequena.

Sempre me perguntei quem eu sou para os outros, sempre me questionei sobre o que olham, o que reparam, o que consideram importante. Sempre me interroguei porque fazem comigo e com todos, essa fácil definição de - esse taxista é preciso ter cuidado com não sei o quê. Nós somos tantas pessoas em uma, mudamos, pioramos, melhoramos, nunca somos a mesma pessoa. Mas parece que não querem que a gente saia do lugar que nos colocaram, quando é muito melhor para todos, que cada um de nós consiga sair desse lugar e avançar “casas”, avançar “níveis”. O açougueiro não pode ser honesto e apenas naquele dia ter feito uma troca com boa intenção? Por que uma ação nos marca para sempre e nos define para a vida toda? Por que fazemos isso?

Quando mudei de país, constantemente me perguntavam de onde eu era, quem eu era, o que fazia. Eu tentava explicar, mas as pessoas não têm mais o tempo de ouvir e por isso você precisa sintetizar tudo. Tudo o que sou, tudo o que aprendi, tudo o que sou capaz, não cabe numa conversa, numa fala, num pitch, numa entrevista de emprego. Precisas saber sintetizar, mas também não esquecer de nada porque quando não és escolhida, ficas com a sensação que devias ter dito o que não disseste. É uma roleta, um sorteio, ou então, a própria pessoa toma conta e vai em busca.

Eu adoro assistir competições esportivas e no olhar dos atletas vemos com muita clareza se eles estão parados na definição que fizeram deles – menor ou maior do que o seu verdadeiro tamanho, naquele momento - ou se estão fazendo seu caminho e construindo-se à medida que vão treinando ou competindo.

Não são os outros que dizem quem somos. Os outros podem nos definir, mas apenas baseados no que viram e no que concluíram. Se essa definição é menor, precisamos mostrar que temos mais. Que somos mais.

Estou nessa luta. Preciso avançar. Meu namorado quer casar e ter filhos, de imediato. Talvez ele me veja como apenas a sua companheira, queira construir uma família e isso seja urgente. Mas eu quero a mesma coisa mas não com essa pressa. Eu sou atleta, eu ainda quero competir mais uns dez anos, eu posso ser mãe daqui a 10 anos e ser melhor mãe do que agora – meu pensamento está dedicado ao treino, competição, meu corpo e minha mente. Não quero misturar com filhos porque eu quero me dedicar completamente a eles e elas, quando vierem. 

Algo que eu pensava que se poderia resolver com sensatez, está virando um problema, porque meu namorado não quer esperar, mesmo gostando de mim por ser atleta e mesmo a gente se dando muito bem, em todos os aspetos da vida.

Ele veio ver meu jogo um dia, como sempre. Tocou na campainha. Abri a porta. Precisávamos almoçar, para eu poder descansar e sair cedo para o jogo. Almoçamos. Ele nesse dia pouco falou. De repente, quando estávamos descansando, vendo Tv juntos, começou a falar.

- Ana...eu quero terminar.

- Terminar o quê? – achei que era terminar o descanso.

- Terminar

- Mas o quê?

Silêncio

Eu perguntei de novo

- Desculpa, eu não estou entendendo. Terminar o quê?

Silêncio

- Meu Deus – disse eu – até parece que você está terminando nosso namoro de tantos anos.

- Sim

- Sim? Você está terminando nosso namoro?

- Sim

Se levantou e foi embora. Veio, almoçou, terminou e partiu. Ao partir, partiu tudo. Tudo o que eu tinha por dentro. Já estava na hora de sair para o jogo e tive de ir para a competição, assim, espantada e chocada. Mas lembrei do açougueiro, da costureira, etc, etc, etc, e joguei como nunca, joguei como uma campeã.

Um dia atrás do outro dará razão ao que desejo. Atleta mais 10 anos, depois filhos. Quem define quem eu sou eu.

Ana Santos, professora, jornalista


Imagem: Picasso


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