2 Contos: “O SONHO DA LIBERDADE SOBRE NÓS” e “Um oceano de abóboras”

Conto “O SONHO DA LIBERDADE SOBRE NÓS”
O Facebook deu sinal e, aprisionada dentro do meu sonho, não tive alternativa a não ser ver o que era. E era Max. Eu nunca o tinha visto na minha vida – nem real, nem imaginária – mas ele se comportava sempre como aquele pirata que atacava o navio dos outros. E sim. No meu sonho, naquele dia, ele tentou atacar o meu navio.
Estava lá um texto doido falando maravilhas do candidato da ultra direita a presidente. Eu nasci na mesma cidade que ele e todos os que nascem por lá ou foram forjados contra ele ou amealhados a favor dele. Gostava de comprar pessoas, era mesmo adepto da compra delas. Balançava ao vento os restos dos bilhões que roubava – ah, sim – desde sempre se acostumou a desviar nossos dinheiros, tomando-os para si e para os seus. Mas com aqueles olhinhos e sua infinita capacidade de mentir, com seus dedos que se multiplicavam, dada a sua agilidade em roubar e desviar recursos, ia passando incólume.
Max não via isso. Talvez porque fosse de outro estado. Ou talvez nem tivesse nada a ver com estado, dado que eu, no meu sonho e na vida real, me perguntava o que lhe fanatizava tanto, quando um dos roubados sempre tinha sido ele – só se ele não pagasse imposto! Mas não... Não duvidava que ele fosse honesto, apenas via nele os olhos do otário, aquele que no Rio seria facilmente chamado pela malandragem de “mulher de malandro” – meio pejorativo porque nos envolve a todas na questão do machismo, mas... é assim.
O fato é que ele escreveu um texto onde colocava um bandido mafioso praticamente no colo de Deus, sem se dar conta que nem morto o bandido iria parar no colo de santo nenhum, nem de anjo, nem espírito benfeitor, nunca, nunca. Porque bandido assim, quando morre só tem a treva como companheira.
No pesadelo, logo me deu um calafrio na espinha – meu Deus, meu Deus, livre o Brasil desses espíritos do mal que aqui vieram aportar! Voltem pelo oceano, subam no mapa mundi e fiquem por lá mesmo, todos juntos com a “boneca loira aguada”, a prostituída pelo dinheiro, a entregue ao mal.
No sonho, lutei com Max, mostrando a verdade, mas da treva onde ele estava saíam muitos cegos iguais a ele. Levantei os olhos, chamei pela força da luz. Engraçado – começaram a aparecer pessoas simples, todas com cadernos na mão dizendo que a luz os tinha ajudado a estudar, a ter remédio, a consolidar formação acadêmica, a não passar fome. E todos juntos, mais vários cantores, artistas, atletas, num toque feito no ambiente, transformaram o enfrentamento, a guerra, num desfile de escolas de samba na Sapucaí, aquela ópera maravilhosa – e ali, os crimes do bandido dos olhos verdes apareceram nos carros alegóricos e nós, os mocinhos, apontávamos tudo, cantando um samba de enredo envolvente, com Anitta como rainha da bateria.
- Dum iskidum dum, dum...
Nessa hora, eu já nem queria acordar mais. Sambei muito, sambei como nunca e pisei na prole nascida com a tarja de proibida, de trevosa – até que ela se mandou do Brasil pra sempre – ou como eles gostam: Forever.
No meu sonho, o Brasil acordava e ia valente, no dia 4 de outubro com um L dentro do seu coração pra, sem alarde, devolver ao Brasil sua democracia, tirar daqui, expulsar, os bandidos, os neonazis, os preconceituosos, os racistas e assim devolver ao povo sua liberdade mental e social.
Vi Max no meu sonho. Estava algemado à ideia de que direita é melhor que esquerda. Eu não tinha nenhuma chave pra abri-la, mas quando toquei nas algemas e falei que ele não precisava ficar pra sempre com os grilhões da ignorância e da teimosia, o metal se partiu. Com Max, todos os brasileiros, aturdidos pela libertação, caíram meio tontos, mas foi assim que o Brasil se viu livre do mal, do racismo, da pobreza e da ignorância porque nos vimos finalmente enquanto povo. Ninguém melhor do que ninguém. Sem status, sem cegueiras.
Ali, naquele desfile, se viam apenas brasileiros, diante de um novo Brasil. E tudo isso aconteceu só por votarmos com consciência, vendo o Brasil de verdade e sendo os fiscais – e não os seguidores cegos – de bandidos confessos, promíscuos, vendidos e traidores da Pátria.
E assim, no meu enredo - nesse, do meu sonho - acordei, vendo a liberdade com as asas abertas sobre todos nós e tendo como voz, a igualdade e o desejo de justiça.
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Um oceano de abóboras”
Em Portugal aprendeu a ser professora, mas aprendeu muito mais do que isso. Aprendeu como um profissional de educação física deve ser humano, competente e saber de muito mais do que “apenas” a sua profissão. Educar como se fosse o cultivo de alimentos, respeitando os momentos e os tempos. Perceber como se pode mudar vidas e ajudar as pessoas a voar os voos para os quais foram feitas. Um trabalho prático, de formiguinha, mas também intelectual, filosófico, psicológico, sociológico. Para além da saúde e da educação.
Conhecia o Brasil e suas capacidades e competências esportivas, mas não conhecia a Bahia. Nem Salvador, na Bahia. Mas foi quando foi viver para essa cidade que percebeu melhor o quanto foi abençoada na sua formação portuguesa. As pessoas na Bahia e em Salvador estavam ainda no século passado em educação física e esporte. Assustador, triste e preocupante. O corpo, nas artes, era mais bem trabalhado do que na educação e no esporte, mas mesmo assim, muito incompleto. Mas seu choque é mesmo na educação física. Qualquer profissional é ainda a pessoa que se preocupa em ter o seu corpo com bom aspecto – cada vez com mais músculos inchados e esteticamente discutíveis – e que lidava com seus alunos como se fossem números. Ter bom aspecto, ar de treinador, com sua roupinha com as palavras mágicas escritas nas costas – algo que só viu ali. Não conseguia entender até começar a falar com um, dois, três, dezenas, centenas deles. A questão é que para ter dinheiro suficiente para pagar as contas, cada profissional precisava trabalhar em vários lugares – uns 8 ou 9, no mínimo. Sua profissão nobre, ali era um trabalho precário. Como alguém consegue trabalhar, se dedicar a cada aluno, quando anda a correr de um lado para o outro, vendo as pessoas uma vez por semana, durante 45 minutos, no máximo 1h30? Agora entendia por que via sempre estes profissionais de apito na boca, de mãos atrás das costas, fazendo exercícios da época medieval, gritando como militares gritam nos seus exercícios – sempre morria de vergonha quando isso acontecia. Percebia que quando estavam no trabalho, se sentia que também estavam pensando para onde iam em seguida. Sempre pensando no que faltava fazer. Não conseguem ter serenidade de parar, falar, pensar em algo, refletir, nem que seja por 10 minutos. Não têm tempo, nunca têm tempo. Andam sempre a correr. Não conseguem olhar para além do óbvio porque só têm tempo para trabalhar com o óbvio.
Parece uma viagem no tempo. Você vem de um tempo e chega a Salvador e se depara com dois séculos atrás. Como é possível!!!!
Agora entendia por que demoraram 8 anos a revalidar seu diploma. Porque todos fugiam quando a viam ou quando viam seu diploma. Porque nunca encontrou um trabalho adequado. Porque não entendiam o que falava.
Engraçado porque foi primeiro mestre do que diplomada nesta terra. E quase seria apenas mestre. Foi por pouco.
Tudo isto a ensinou muito. Aprendeu como silêncios secos, pontiagudos, dilacerantes e como centenas de “não’s” disparatados, destroem vidas, ou tentam. Mas acima de tudo, aprendeu a saber o valor do silêncio, seus efeitos e seus antídotos. Aprendeu que pessoas que sabem cozinhar apenas arroz, nunca serão capazes de avaliar um “Bacalhau à Sogra”. Não adianta os anos nem os pedidos.
Tudo isso finalmente a acalmou, apesar da tremenda injustiça.
Hoje, quase pode afirmar que se sente “livremente doutorada” em silêncios, em injustiças praticadas por incompetentes e incapazes, em encontrar alternativas quando fecham portas e janelas e brechas em que ela pudesse passar nelas.
Era uma vez uma pessoa formada para fazer o que não existia no lugar para onde foi viver. E onde quem mandava não sabia o que fazer com isso, por isso dizia sempre “não”. Que aprendeu que realmente sempre existe uma brecha, uma fissura, por menor que seja, quando todas as portas e janelas são fechadas a sete chaves. Que mesmo que pessoas que considerava família, se transformassem em abóbora, depois da meia noite, sozinha caminharia. Sozinha caminharia.
Ana Santos, professora, jornalista
Imagem: Pollock
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