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2 Contos: “JURAMENTOS SÃO COMO TATUAGENS” e “Roda a roda e torna a rodar”


Christina Motta
Christina Motta

Conto “JURAMENTOS SÃO COMO TATUAGENS”

       Onde repousava o sentido daquilo tudo, não sabia dizer. Parecia que as pessoas queriam esquecer seu papel profissional, o que tinha jurado fazer. Estava lá, no seu juramento: “cumprir e fazer cumprir a Constituição da República e as leis”. Parecia uma coisa fácil, já que todos, de alguma forma, também têm o compromisso de seguir as leis, mas... não acontecia assim.

       Desde alguns anos atrás, com o advento do emergir da ultra direita no mundo, algumas pessoas insistiam em não separar o seu desejo, do cumprimento das leis. Assim, se “fulano tinha sido antipático” por exemplo, poderia ser acusado de algum crime – como preconceito, como racismo – mas entrar em uma comemoração e matar o aniversariante porque era de outro partido diferente, poderia ter uma roupagem “perfeitamente aceitável” – até usável no julgamento do assassino. Isso poderia acontecer em qualquer tipo de crime – até golpe de estado. Para tudo se poderia prever uma “justificativa” – mesmo que fosse – de tão mentirosa - inacreditável.

       Só que agora, ela tinha que julgar criminosos e para quem comete crime – qualquer crime – ela tinha jurado aplicar a lei. Não por ser má ou “um rocambole do mal”, como tinha lido em seu mailing. Apenas tinha jurado fazer aplicar a lei, como o médico tinha jurado obedecer a integridade de vida, a assistência aos doentes, mesmo que tivesse que desprezar sua própria pessoa.

        - Quantos médicos perderam a vida na pandemia?

       Um idoso que esgana um filhote de cachorro com dono, na rua, e depois sai andando, está cometendo um crime? Ele pode ameaçar outras pessoas e apenas mandar uma notificação extrajudicial, justificando tudo o que fizer com a simples menção de que estava em tratamento e pronto?

Por outro lado, receber e-mails ameaçadores, ter que ler que a querem morta com bombas, tiros e torturas podem demover um juiz do dever de fazer o que jurou fazer?

       - O que você faria? Mesmo que fosse ameaçada por uma pessoa muito poderosa, como um presidente? O presidente do país mais cheio de armas do mundo, como os Estados Unidos? Você seria covarde de não cumprir o que jurou fazer? Ou ainda: você jura defender os cidadãos do seu País, mas “entrega” todos os trunfos do processo ao réu. É perdoável ou igualmente criminoso? Não merece nenhum questionamento, nenhuma pergunta? Você vê a mochila do seu filho com coisas que não lhe pertencem e deixa passar? Sem perguntas? Não lhe manda devolver tudo, não fala com a professora?

       - Está aí o mundo em todos os níveis. O comportamento que adotamos faz parte da vida real, sempre – mesmo que sejamos antiéticos via internet, a falta de ética pertence à vida real. Quando alguém convence uma criança a fazer coisas erradas, ela é criminosa diante da lei – mesmo depois, quando fecha o computador e vai ver TV calmamente com sua família. Por meio virtual, ela cometeu crime ou crimes na vida real. Como as pessoas não entendiam isso, claramente?

       Deixou de ir dirigindo para o Tribunal e aceitou os guarda-costas que lhe foram oferecidos. Depois aceitou deixar de ir sozinha ao shopping e depois aceitou que não podia sair sozinha para nenhum lugar. No seu mailing, os piores nomes, as piores ameaças. Mas dentro ela, havia um compromisso assumido quando, ainda jovem, aceitou que sua vida seria dedicada a obedecer e fazer cumprir a Constituição e as leis do seu País, defendendo o regime democrático. Ouviu alguns gritos, janela afora. Viu alguns manifestantes, na porta do tribunal. Seria assim sempre porque ela nunca quebraria seu juramento. Palavras fortes: nunca e sempre. Mas ela realmente percebia sua função no mundo.

       Suspirou. Saiu da janela. Vestiu a toga – naquele ritual de anos de fidelidade. Seu juramento era como uma tatuagem. Caminhou pelos corredores do Tribunal de Justiça. Ouviu seus passos, o burburinho da sala de julgamento e viu que o meirinho a tinha notado em seu caminhar e entrado na sala – para ela, sagrada.

       - Todos de pé!

        Ela entrou.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Roda a roda e torna a rodar”

Há 11 anos que estava muito sufocada na relação amorosa escondida que tinha. Para toda a gente, fazia de conta que não tinha relacionamento. Aceitava os gozos, as indiretas, as provocações. Por aquela mulher aceitou muita coisa: aceitou se esconder, mudar, se esforçar, se sacrificar, mas principalmente aceitou acreditar que um dia talvez aquele ser humano lhe agradecesse por tudo o que fez e talvez isso a fizesse deixar de fazer as coisas ruins que regularmente fazia. Tentava entender, afinal ter um passado tão horroroso deve ter deixado muitas marcas duras e ela lamentava demais isso. Também sabia que nos últimos anos se tinha transformado apenas na utilidade das contas pagas e num teto para viver sem esforço. Mesmo assim acreditava que ainda era possível acontecer o que sonhava: uma vida feliz. É que aos seus olhos tinham tudo para isso...

Voltou de mais um trabalho no exterior e percebeu que afinal não, que afinal tudo estava a piorar. Estava cansada da viagem, mas o cansaço maior era o de perceber que tudo o que fez naqueles anos todos não teve efeito, teve aproveitamento. E estava tudo a ficar demasiado mau, degradante, desrespeitoso. Precisava ter coragem e encontrar uma saída para si. Não ia ser fácil. Sabia que não ia ser nada fácil. Mas precisava começar a pelo menos ter esperança numa saída, numa vida melhor.

A internet tinha surgido nesse ano, mas ainda não sabia mexer bem com aquilo – apenas enviar e receber e-mails. Nesse dia, sentou-se em frente ao computador e procurou um lugar que lhe tinham dito que era bom – chamava-se chat e era um lugar onde podia conversar com pessoas. Descobriu que existiam imensos desses “Chat”, cada um com um tema. Interessante. Não precisava de dizer quem era, não saberia com quem falava, sendo estranho também era bom porque poderia falar o que lhe apetecesse sem problemas de depois alguém lhe lembrar o que disse, de que se queixou, etc. Principalmente podia pela primeira vez falar dos seus sentimentos, seus sonhos, seu jeito de ser com alguém. Isso lhe parecia magia, parecia o céu, parecia ar para respirar. Durante semanas, no final do trabalho, depois de tomar banho e jantar, sentava-se em frente ao computador e ficava na conversa, com uma pessoa, duas, 3 ou mais. Falava de tudo, desde cultura até esporte, desde vergonha até orgulho, desde sofrer até sonhar. Como era bom! Parecia que esvaziava um saco cheio, acumulado há vários anos ou talvez cheio a vida inteira, já que nunca tinha encontrado alguém em quem pudesse confiar tanto ao ponto de falar disso. “Como nunca tinha percebido que aquele amor escondido também a tinha escondido? Como não tinha percebido que tinha se omitido para salvar outra pessoa? Não era uma forma certa de ser feliz. Nunca daria certo. Uma pessoa só trabalhava e a outra só usufruía. Não, essa conta, nunca daria certo.” Ela nunca tinha entendido isso até aquelas pessoas, estranhas, diretas, sem pudor, desconhecidas, a terem “acordado”. Mais, lhe abriram possibilidades, lhe mostraram que não era preciso viver escondida, não era preciso aceitar a primeira pessoa que aparecia, não era preciso dar tudo aos outros que nunca tiveram nada – não era sua responsabilidade nem obrigação. Bastava ser, sem medo, sem vergonha. “Meu Deus, que pessoas eram aquelas, de onde vinham?” Pareciam caídas dos céus para a salvar. E ela se sentiu salva.

“Será que afinal existem finais felizes na vida, ou apenas nas historinhas infantis?” Andava feliz. Um dia também lá estava uma pessoa que parecia ainda mais encantadora do que todas as outras e vinha com outros jeitos e outras estratégias. Enquanto as outras falavam, aconselhavam, ouviam, aprendiam e ensinavam, mas por ali ficavam e se encontravam todas as noites, esta justificava-se com a necessidade de não ficar muito tempo em segredo, com a necessidade de trocarem número de celular, de se verem ao vivo. Para ela parecia maravilhoso já que de cada vez que lhe fazia perguntas, essa pessoa respondia maravilhosamente. Parecia perfeita a cada palavra, a cada gosto, a cada decisão. Se colocava na área amorosa enquanto as outras na área amizade. “Será que a vida afinal era maravilhosa e existia uma pessoa tão perfeita para ela?” Parecia, nas conversas escritas, parecia, nas conversas faladas durante horas no celular, nos jantares, nos almoços. Parecia nas viagens imensas que fazia e que com as saudades pareciam dobrar os sentimentos. Até que a vida real surgiu, as rotinas, os problemas e a “perfeita” não quis mais. E ela não percebeu no que falhou, de novo. O que aquelas amigas que ganhou no “chat”, tentaram lhe ensinar foi para ter cuidado com “estes pescadores ou estas pescadoras” de internet, que passam a vida a lançar os anzóis a quem está frágil. E que com toda a certeza “a pescadora” já devia ter “peixe” antes, durante e depois, mesmo que mais lentamente, para não dar tanto nas vistas.

Se já trabalhava antes, agora ainda mais. Trabalho, trabalho e trabalho. Não quis mais sorrisos, nem conversas lamechas, nem gente maravilhosa. Nada. Fugia de cada vez que aparecia alguém que parecia maravilhosa. Até surgir alguém...

Ana Santos, professora, jornalista



Sábado é dia de conto no Bug Latino. Contos diferentes, que deixam sempre alguma reflexão para quem lê. Contos que tentam ajudar, estimular, melhorar sua vida, seu comportamento, suas decisões, sua compreensão do mundo.

 

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