2 Contos: “IMPLICANTE” e “Dor Fantasma”
- portalbuglatino
- 18 de out. de 2025
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Conto “IMPLICANTE”
A pessoa, por algum motivo inenarrável, era implicante. Terrivelmente. Tinha uma característica curiosa porque, na frente de pessoas estranhas, era uma fofura, uma simpatia. Mas quando só sobravam “os de casa”, ai Jesus – a pessoa conseguia andar pra trás em tudo o que tinha andado pra frente à vista das visitas.
Aí você pode pensar que é da idade e que isso o avançar dos anos vão mudar.
- Só se for depois, bem depois, já na frente dos anjos e espíritos de luz porque enquanto houver vaga pra implicante – mesmo que isso envolva perder pontos no céu – nem convide pra outra coisa! Seu conforto desde sempre é sorrir diante dos desconhecidos e olhar detidamente, virgula por virgula, depois – quando todos vão embora.
Observar a natureza humana é meu forte, sempre foi. E ficar ali sentada, observando os comportamentos, o exercício de cada natureza humana na prática e passando despercebida por quase todos é uma delícia. Muitas cenas, muitas direções para cenas, as muitas redes que envolvem a voz das personagens nasceram desse olhar arguto e despercebido no momento da ação.
- Quais seriam seus motivos, por que agia assim, por que se dirigia daquela forma espinhosa às pessoas, ao invés de construir alianças?
- Pessoas têm sempre muitas camadas... Haveria uma camada tolerante, ali?
Encontrou seu mestre budista e lhe perguntou os motivos daquilo. Ao mesmo tempo em que sentia-se aliviada por não ter que ouvir aquele sem número de reclamações e críticas diretamente, via que as pessoas apenas se punham em fuga. Temos que conversar? Não, não temos. Combinar? Não, não temos. E os discursos ficavam vazios, as respostas, desequilibradas.
Os silêncios ásperos eram substituídos por longos períodos onde se preenchia o espaço – sempre tenso - com palavras. Assim, cada coisa era um processo, sempre longo e de longos discursos, mas sempre difícil de ser digerido. O pai pedia uma coisa, mas não era bem assim. A mãe apenas suspirava e abanava a cabeça por não alcançar onde afinal aquela pessoa queria chegar com tanta implicância...
Coisas simples e maravilhosas, advindas da intimidade, eram sempre rechaçadas. Assim, perdeu indicações de receitas com babosa para seus cabelos, poesias de autores novos, leituras e todas as trocas de experiências que fazem parte da vida – e que são a vida que merecemos viver. Mas nada. Andava em grupo, mas seu discurso era sempre solitário, de alguma maneira triste, de outra, injustiçado, mas sempre rude.
Assim foi passando o tempo, com cabelos fracos e uma alma que não conseguia encher-se de vida porque não via a vida como troca, mas como reivindicação. Virou o telefonema. A aspereza. O silêncio pós tudo.
Os amores são intrinsicamente simples em sua complexidade, creio. Poderia ter usufruído das gargalhadas, se não estivesse sempre exigindo respeito às regras, mesmo depois de tê-las combinado à exaustão. Poderia ter rolado na grama, se sujado de bolo, mas não – o que iriam pensar se usasse sua inteligência de modo tão pueril?
Ficou sem bolo, sem gargalhada, sem grama, sem convívio. Virou apenas o implicante. Apenas aquele que viu o vazio e nunca saiu em busca da plenitude porque se distraiu reclamando do silêncio pra ninguém – quem aguentaria tanto tempo de implicância, afinal?
Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV
Conto “Dor Fantasma”
Lembra bem do dia em que o Professor Nuno Grande, Professor de Anatomia na Faculdade, falou na dor fantasma. Explicou que durante a guerra os militares que tinham perdido algum membro – perna, braço, dedo, pé, mão – gritavam muito de noite e ele não entendia a razão. Eles gritavam de dor da parte do corpo que tinham perdido e naquela época ninguém sabia o que isso significava. O Professor explicou aquilo com tanto respeito e ao mesmo tempo com tanta curiosidade para entender o fenômeno, que ela ficou vidrada ouvindo. A felicidade com que ele falou da descoberta dessa terrível dor fantasma, que tem esse nome por fazer o doente sentir dor de algo que perdeu, foi um momento particular na sua vida. Menina verdinha, nascida numa aldeia e recentemente numa cidade grande, ainda se adaptando a toda a loucura, estava recebendo tanta coisa diferente e nova, e assimilando tudo. Não queria perder pitada de nada.
Passado mais de quarenta anos, sentada no meio da quadra, no treino de Volei Sentado, das campeãs do mundo - a seleção brasileira – assistindo à sua preparação final para a próxima Copa do Mundo, pensa nessa aula, no dia que ouviu falar nessa dor fantasma. Todas estas meninas, todas, sabem bem o que isso é. São especialistas na matéria, licenciadas, mestres, doutoradas, sem precisar terem lido nenhum livro. Está marcado na pele, no corpo, mas também na sua cara, nas suas expressões, e principalmente no seu olhar. Guerreiras em todos os sentidos, intimidam. Têm sofrimento, dor, horror, no seu passado. Vivem de outro jeito, de um jeito mais real. Intimidam por saberem viver, por conhecerem bem a dor fantasma, por estarem num nível muito avançado do curso “viver”. Guerreiras.
Hoje é o dia da sua vizinha querida ir embora. Uma mulher que se tornou da família. Da sua família restrita num lugar tão diferente de tudo o que conhecia. Tanta coisa vivida com ela: chamar aos gritos, com palmas, ou pelo celular e depois os bate papos pela janela. O dia em que acolheram Marília por um instante na sala de casa, ela e uma outra vizinha, para as proteger de um homem agressivo que estava no seu prédio. Os favores de Marília, dando acesso ao seu prédio para tratar da parede de sua casa, pelo lado de fora. No dia em que a geladeira avariou, em pleno Carnaval, lá estava a Marília a guardar os alimentos na sua geladeira. Não falavam tanto quanto queria porque sabia que estariam juntas sempre e não queria que Marília enjoasse dela. Mas afinal a vida pregou-lhe uma partida. Esperando que Marília ficasse para sempre junto de si, não a aproveitando totalmente, contando com ela para tudo, teve a surpresa de que esses bons tempos terminaram. E agora é como se sentisse dor fantasma da falta de uma pessoa exterior a ela. Sabe que essa dor vai durar um tempo, vai demorar a passar. Uma parte dela se foi. Uma parte da vida dela ali, terminou. E dói. Sabe que nada tem a ver com as dores fantasma de verdade. Sabe isso muito bem, mas dói. E custa.
Ana Santos, professora, jornalista
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