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2 Contos de Verdadeiras Festas Juninas


Conto “FOGUEIRA DE CORAÇÃO”

Aquela parede “fofa”, deixava cair um pedacinho no chão da sala a cada vez que se varria a casa. Foram-se anestesiando para aquilo durante a pandemia (que remédio), mas agora que a decisão de consertar havia sido tomada, a sujeira, o cimento, a massa acrílica eram criticados a cada noite, sentadas que ficavam com a luz acesa, a “admirarem a obra”.

No São João, para além das festas, havia as bombas - que tinham afastado uma delas em definitivo das festas – alergia à pólvora. Por causa disso, o feriado seria aproveitado para pinturas e pequenos consertos – e que beleza era sentar numa cadeira e olhar calmamente para paredes pintadas, descobrindo pequenos defeitos que pudessem ser arranjados no dia seguinte.

Havia a noite, os fogos estourando na cidade e as paredes da casa brancas como mungunzá. E ela lá ficava, pés enganchados na mesa, como que tentando espreguiçar aquele cansaço extremo, naquela alegria de ver a casa tomando forma de casa arrumada, do jeito que elas sabiam fazer.

Programas, fogueiras, forrós pareciam combinar com a roupa recém posta no varal, balançando ao vento, com a bagunça e o pó que haviam se espalhado pela casa, com toda a mobília no centro dos cômodos para não estorvar o uso da escada.

Amanhã tudo estaria dormindo ou fora da cidade, já que os interiores estariam lotados. Mas quem ligava? Havia aquele estranho romantismo que misturava o cheirinho de sabão em pó com o de tinta, que aproveitava frascos antigos com tinta velha para repaginar tudo o que se via por ali entre suor e pó.

Já de banho tomado e uma sopinha deliciosa no jantar, ela lembrou-se das inúmeras roupas lavadas e cheirosas, preparando o dia seguinte, com prazer: viver tinha tantas simplicidades conjugadas, que ela não entendia bem como as pessoas tentavam fugir desses pequenos agrados, trocando-os por grandes produções e festas.

- Essa coisa de sonhar com caminhões de felicidade não é muito real... Felicidade vem em pequenas caixas alegres que muitas vezes passam despercebidas, à espera de grandes embrulhos.

O nariz escorreu um pouquinho. Ela aproveitou e passou soro, bebeu água e olhou a sua parede branca como mungunzá – o que mais ela quereria?

Com um sorriso leve no canto da boca, aguçou a vista em busca de uma receita de bolo sem açúcar. Pequenas coisas, prazeres, sorrisos, naquele São João com fogos que aqueciam almas...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “E se eu fosse outra pessoa neste meu corpo?”

Quando vejo as redes sociais sinto que levo uma vida estranha. Quando vejo as pessoas em casamentos, em festas, na missa, seja onde for em que se mostram perfeitas, igualmente me sinto fora de lugar. Não existem choro, chatices, tristezas, aborrecimentos, desilusões, traições. Não tem dores de barriga, medos, sustos, esforços, derrotas, dores, pão com manteiga, pão com azeite, sopa e meias nos pés em noites frias, nódoas/manchas ou furos na roupa, unhas dos pés e das mãos a precisarem serem cortadas, o pó sempre a voltar na casa, a roupa sempre a precisar de ser lavada, colocada a secar, passada a ferro, a louça a ter de ser lavada e a ser suja e a ter de ser lavada, a dispensa sempre vazia e sempre ser necessário ir às compras. Não devem ter a sensação de sempre ser dia de pagar algo, luz, água, impostos, comida, consertos na casa, algo que sempre avaria. Parecem não ter amigos e familiares doentes ou que faleceram, parecem só ter gente de confiança e amiga por perto, desejando-lhes bem. Me pergunto muitas vezes porque sou tão estranha e diferente? A vida das pessoas é tão linda, cheia de coisas boas, com dinheiro para fazer coisas que nunca nem imaginei. Umas casas de sonho – quase sempre várias, carros de sonho – uma resma deles, viagens de sonho – a lugares impensáveis. Lantejoulas, brilhos, contas do banco chorudas, abraços, sorrisos, convites, champagne, negócios, brilhantes, perspectivas futuras. Nossa, como tudo parece bom, só porque não o tenho. Mas este é o mesmo planeta de pessoas que dormem na rua? Que são estupradas por jogadores de futebol e amigos, padres, familiares? Que se afogam tentando viver em lugares melhores que o lugar que nasceram – e se afogam porque quem devia ajudar não ajuda e quem tenta ajudar é preso? É o mesmo planeta onde uns morrem por comer demais e outros morrem por não ter o que comer? Me dou conta de que vivo nessa casa – planeta. Nesse lugar hediondo, de seres hediondos. Eu sou hedionda porque nada faço para mudar este estado lamentável? Ou o fato de tentar fazer boas escolhas para o planeta e para as pessoas – incluindo para mim – pelo menos não piora as coisas? Minha cabeça parece que vai estourar à medida que percebo a dimensão da desgraça de mundo que criamos. E que conseguimos piorar a cada momento.

Do que preciso? Preciso eu de tudo isso que os outros têm ou querem? Olho meus chinelos, descolados na frente, tão descolados que me fazem tropeçar uma vez por dia – a vida lembrando-me que devo colar aquela língua. Meus pés amam andar dentro deles, com eles. Olho a xícara onde tomo café pela manhã, no final do almoço e do jantar e ela sorri para mim. Bastamos as duas. Ela me toca quente nos lábios, o café me aquece quando desce. Eu penso na vida. Vivo em dificuldade, vivo insatisfeita, vivo em busca, vivo em aprendizagem, mas não preciso de mais do que o que tenho, então para que quero o que os outros têm, ou os outros querem? Para quê pagar 250 mil dólares para ver o “Titanic”? Para quê pagar milhões para dar uma volta ao espaço? Penso que, se vivesse em países em guerra eu tentaria salvar-me e salvar a minha família. Sei que teria uma vida muito diferente. E que seria diferente. E que não entenderia porque não me ajudavam as pessoas dos países para onde tento ir. Porque as autoridades não me ajudavam. Pelo que vejo, morreria nas águas do mediterrâneo. Eu e minha família. Ou depois de todo o sofrimento e dificuldade, seríamos mandados de volta. Quantos pães com manteiga ou com azeite se fazem com 250 mil dólares?

Que olhos olham os que estão em perda? Quem guia nossos olhos?

Preciso parar um pouco. Hora de comer uns amendoins, um milho cozido e todos os quitutes das festas juninas. Curtir os amigos, a família, a vida. Dançar como se não houvesse amanhã. Porque não sei se haverá. E depois destas festas preciso pensar em como posso ajudar os que precisam ser ajudados. E meu chinelo que precisa que eu o cole.

Ana Santos, professora, jornalista

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