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2 Contos de Direitos Humanos

Atualizado: 13 de dez. de 2021


Conto “NEM SEMPRE TÃO HUMANOS ASSIM”

Direitos humanos para todos os humanos.


- Dito assim, parece uma obviedade, mas na verdade é uma demanda secularmente reprimida. Daria talvez uma palestra? – ela pensou - para descartar a ideia em seguida: - Esse assunto já está muito batido.


- Esse negócio de mostrar pobre é coisa de brasileiro que precisa de doação.


Não viu várias pessoas dormindo pelas calçadas, ignorou algumas outras rasgando sacos de lixo na rua em busca de latinhas, reclamou da falta de organização urbana que via em sua cidade. A empresária famosa nem relutava em fingir que não via nada. Estava acostumada assim e pronto. Pegava seu carro blindado e cruzava as ruas da cidade olhando, sem ver ninguém.


Um dia seu super carro importado furou um pneu e ela se viu em apuros porque nunca havia tocado em um – que dirá trocado - na sua vida. Presa dentro do carro, tentou ligar para a sua seguradora top, mas ela estava demorando a mandar o carro com mecânico.


Toc, toc – ela gelou. Só podia ser assalto, gente... Um homem mal vestido falava uma coisa qualquer, mas ela não ia baixar o vidro do carro de jeito nenhum! Ficou olhando pra frente, gelada.


Toc, toc – de novo, meu Deus... olhou com o rabo do olho e o rapaz falava alguma coisa: home - algo assim.


- Vai ver, nem sabe falar. – Mas mesmo sem querer ouvir, sem querer ver, ouviu, viu, compreendeu uma palavra. Era fome. Num impulso, fez tudo o que os manuais de segurança contradiziam. Abriu o vidro. Tinha doces para os filhos, mas os deu, os serviu. Tinha frios e mesmo sem pão, lancharam.


- Posso pegar uma fatia desse nosso presunto? – ela perguntava. Tudo ali foi dividido, compartilhado.


- Seu nome é Tiago? Eu adoro esse nome. Não tive meninos, mas se tivesse algum talvez se chamasse assim.


E o tempo e o medo foram passando, ela nem percebeu. Eram pessoas que se encontraram por acaso, naquele dia de meu Deus, em Salvador da Bahia, terra das ironias sociais extremas.


- Estou aqui esperando um guincho ou um mecânico porque nunca troquei um pneu... Não brinca... Você sabe trocar? Que fácil, nada! Claro que abro a mala, Tiago! Menino, você me salvou de uma!


Se despediram, o dia acabou, mas onde ela passava, ao invés de reclamar da sujeira, dos mendigos ou do prefeito, procurava Tiago – o homem que conseguiu dar visibilidade aos invisíveis. Um homem comum. Perfeito no fato de ser comum. Um homem feito de milagre. O milagre da comunhão.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto da “Declaração dos Direitos Humanos”

Nessa semana, Ana aprendeu na escola o que eram direitos humanos e quais eram. Amou. Que coisa mais legal! Afinal o mundo é tão certinho, arrumadinho e justo. Afinal as pessoas não respeitavam os direitos humanos na sua terra, mas o resto do mundo era todo maravilhoso. Que alegria saber disso...


Amava queijo. Amava de paixão. Chegava a fazer coisas incríveis por causa do queijo. Quando vinha da escola, entrava em casa pela cozinha. Cumprimentava a mãe que estava junto do fogão de lenha, preparando o almoço ou o jantar e, sem tirar a mochila das costas, agachava-se, abria o armário dos pratos e enfiava a cabeça lá dentro. O queijo estava sempre num prato em cima de outros pratos lavados e arrumados. Já tinha colocado uma faca do lado do queijo. Era só pegar na faca, cortar o queijo e comer. Por vezes ia casca e tudo. Quando tirava a cabeça do armário já estava terminando de mastigar aquele pedaço de queijo. O problema era que suas fatias eram demasiado grossas ou demasiado tortas para não ter de cortar a casca do queijo e seus pais não gostavam nada disso. Sempre a alertavam que não se deve cortar o queijo tão grosso e que ainda é mais feio, cortar o queijo sem cortar a casca. O objetivo não era fazer um barco com a casca. Os pais chegaram mesmo a trocar a faca do queijo e colocar uma especial para queijos, que cortava fatias mais finas e padronizadas. Ela ficava louca porque assim não sentia o sabor da consistência do queijo na boca. A mãe insistia: “- Ana, corta o queijo com essa faca de forma que se veja o sol através da fatia! Queijo não é para comer como se fosse uma maçã!”


Nesse dia, sentia-se tão injustiçada que respondeu: “ – Mãe, ainda não existem direitos ‘humanos’ para o queijo e eu tenho o direito a ser feliz. Está lá escrito!!!”

Ana Santos, professora, jornalista

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