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2 Contos de Aniver


Conto “ANIVERSÁRIO É NO DIA”

Sessenta e três anos. Parecia que só os outros ficavam velhos, quando ela era jovem. Tinha algumas poucas mazelas – a dor no calcanhar era a principal – mas além dela, sentia que seu corpo ainda acompanhava seu pensamento, de modo geral. Seu aniversário tinha sido ainda ontem e nem tinha tido tempo de se acostumar com o primeiro dia dos sessenta e quatro anos, afinal. De tudo o que havia, lembrou o carinho de um olhar que sempre a acompanhava na vida nos últimos dez anos e que se traduzia em mousses e rosbifes. A delícia de compartilhar era muito boa de viver.

Sentia um desprezo indiferente pelas mulheres que dariam a vida por mais um lifting. Ela se sentia feliz por ainda ter força muscular para lixar suas paredes, pensar em reformas onde poderia contribuir, resolver problemas de sua casa sem a ajuda de muitas pessoas. Atividade física funcional de verdade e não “levantar pesinhos”, sem ajudar o mundo em nada.

As rugas lhe diziam alguma coisa, lhe falavam de suas alegrias passadas, sorrisos e gargalhadas que tinham acontecido antes. Umas peles mais frouxas, mas energia e funções em seu lugar.

Pensando no papel das mulheres, ficava espantada: havia presenciado o tempo das mulheres precisarem ser virgens. Sim – houve esse tempo. Havia visto o desquite virar divórcio, as mulheres não serem tão marcadas por deixarem de amar, como era antes.

Mas não era o suficiente, ainda. Se morria muito por nada, no mundo feminino. Ainda se competia pela atenção masculina, ainda se falava mal uma da outra e ainda se perdoava os homens por quase tudo o que faziam – até roubar e matar. Não tinha presenciado ainda um mundo igualitário, com homens e mulheres compartilhando posições e compensações. Mulheres trans eram, como todas as mulheres, passíveis de morrerem de tiros, tapas e facadas. Tínhamos o preconceito masculino em comum.

Mas havia a vaga de idoso – um dos poucos ganhos da idade. De resto, além de se sentir normal as vinte e quatro horas do dia, tinha que lidar também com aquele olhar que tentava invisibilizar sua existência. Já via os olhares de “velha”. Ainda não ligava pra eles porque talvez ainda conseguisse funcionalizar tudo em si e ao redor de si. Mas um dia, aquele olhar iria lhe incomodar – ela sabia.

Portanto, ajeitou os óculos, soltou os músculos doloridos de lixar, olhou para suas paredes e resolveu: ia começar a emassá-las só de implicância com os homens e sua extrema má vontade de trabalhar com os quais teve que lidar nos últimos meses. Para aquilo – lixar, emassar e pintar – ela não precisava deles – ainda.

Engoliu o desprezinho pelo “pobre mundo masculino” e suas crises sem fim – afinal, do que adianta você ter a força, se a boa vontade nunca vai trabalhar, certo? – sentiu as mãos frias, mas animadas, em busca da espátula; olhou o serviço, o feriadão e principalmente sua boa vontade – artigo raro de se ver, atualmente. Esfregou as mãos secas de lixar. Sorriu.

- Bora continuar!

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “10 de junho, dia de Portugal, de Camões e das comunidades Portuguesas”

Olá, eu chamo-me Portugal. Tenho já uma trajetória de vida longa, mas sinto-me jovem.

Na maior parte do tempo sou um menino vaidoso, orgulhoso do meu caminho, confiante, cheio de ideias para o futuro. Tudo isso eu sinto se não estiver nos dias em que me analiso mais a fundo, porque aí me envergonho bastante de mim mesmo – tanto do que fiz como do estado em que estou atualmente.

É que em tempos muito antigos, segui uma forma de ser e de proceder com as pessoas que nunca deveria ter acontecido. Infelizmente aconteceu, fiz, aceitei e participei de um movimento errado, abusador, que causou muita mossa no mundo para sempre e com isso me tornei um dos homens mais fortes e poderosos do mundo, no início da minha idade adulta. É inacreditável ainda hoje pensar nisso se me olho ao espelho e vejo minhas pernas magrinhas e fraquinhas, um tronco com pouco músculo e uma cabeça com pouco cabelo. Como consegui tudo isso perante outros meninos e homens tão maiores do que eu. Achei que descobri coisas e lugares, agora sei que não descobri nada, apenas fui o primeiro a chegar a casa de outras pessoas, noutros lugares, com outras vidas.

E é que atualmente estou deprimido, empobrecido, desleixado, desarrumado, desorganizado por más condutas, más escolhas, más lideranças e, muitos falsos amigos me tirando dinheiro, patrimônio, segurança, beleza, natureza. Estou um caco. Não sei nem por onde começar, a quem recorrer. Preciso urgentemente de fazer coisas, muitas coisas para o meu estado de sitio não piorar, mas tenho de ter calma, serenidade, ser ponderado e humilde em reconhecer as más condutas e decisões que tomei e começar a ter condutas boas, para mim e para os que vivem em mim. A esses devo muito e tenho tirado demasiado – têm pago todas as minhas borradas com bancos, com companhias aéreas, com barragens, com o que mudei nas pescas, na agricultura, na educação, na saúde, na cultura. Eu quis seguir os outros que achava melhores e achava exemplares, mas aprendi que não existem melhores a seguir quando o assunto é a minha vida, meus problemas e principalmente minhas qualidades – que podem ser apetecíveis aos outros como as dos outros são a mim.

Hoje é o meu dia de aniversário e também do meu amigo Camões, a quem devo muito. Talvez hoje eu entenda melhor a absurda importância que tem a sua obra – os Lusíadas, seus sonetos, seu olhar, seus registros/registos de uma época em que eu me achava grande. Talvez novamente eu tenha pena de não o ter tratado melhor, mas eu faço isso sempre, que chatice. Fiz com Camões, fiz com Pessoa, fiz com Espanca, fiz com Saramago, para falar das situações que mais arrependimento sinto. Aqui para nós, sinto arrependimento, mas não consigo fazer nada em direção a uma mudança. Continuo a ser desatento, deselegante e continuo a dar valor depois dos outros darem valor e muito devagar e desconfiado. Isso é mais uma coisa para melhorar. E muito. Mas este orgulho exagerado me atrapalha. Que aborrecido isto. Será que não vou conseguir ultrapassar as minhas fragilidades, deficiências antes de morrer? É que para além de tudo isto me sinto vendido, explorado, manuseado e mesmo assim, estou sempre com um sorriso na cara. Que vergonha. Trato tão bem os vizinhos e tão mal os meus familiares. Não presto muita atenção às comunidades portuguesas, apesar de achar que o faço. Deixo-as soltas, desprotegidas, desapoiadas, nem sei do que precisam. Faço tudo o que acho que precisam, mas nunca lhes perguntei se era mesmo isso. Porque sou assim? A quem peço ajuda, conselhos? Quando vou crescer? Quando vou ser e parecer gente? Quando vou ser e fazer o que devo, o que penso e ser eu? Caramba. Será que sou bipolar? Acho que vou ter de procurar uma psicóloga, talvez fazer terapia.

Ana Santos, professora, jornalista

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