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2 Contos: Conto “Estado de choque” e Conto “MASCARADOS”


Escultura de Luciano Garbati

Conto “MASCARADOS”

Vendo atualmente as seleções masculinas coletivas do Brasil – o vôlei e o futebol principalmente – ela foi perdendo a vontade de torcer e, em pouco tempo, até a vontade de ver. Ouviu falar que a seleção de futebol estava mal e logo pensou: “não é de se estranhar”!

Crueldade? Longe disso. Talvez realismo. Um time basicamente machista, com poucos homens que apareciam por suas boas ações. Assim, de primeira, só lhe veio um nome de jogador admirável à cabeça: O Vini. Infelizmente, o grosso dos jogadores apareciam na mídia por enganar pessoas, trair à vontade, ir pra frente da câmera, no estádio e, ao invés de olhar a bola, o passe, o companheiro, ficava ali, se olhando através do telão. Ajeitando o cabelo. Cuspindo na grama. Telão do estádio.

Todos iguais. Pareciam feitos em série industrial, como produtos de segunda. Cabelo raspadinho na lateral, brinco, um picote de sobrancelha e tatuagens – muitas – no corpo inteiro. Na hora do gol, lembram-se bem de Deus, mas o show pra Ele passa logo porque, ao menor esbarrão, inventam um drama mexicano, uma novela de quinta categoria, alguns olhando de soslaio para o telão – o grande olho em cena.

Show de bola? Passes, planejamento de jogadas, ensaio, performance, preparo físico, raça, amor à camisa? Bem...

- Brasil perde para a Argentina, atual campeã do mundo! Brasil pede para a Colômbia! O Brasil pode ficar fora da Copa pela primeira vez na história!

Ela nem piscou. Honestamente, não sentia nada. Aqueles homens que ganhavam uma fortuna e que se jogavam pelo chão, se rebolando, tornavam qualquer espetáculo lamentável. Mascarados. De salto alto. Um, nas manchetes por ter sido violento com a namorada, foi cortado; outro ganhou o troféu “imbrochável” – o troféu abacaxi do Chacrinha era um bem mais “cobiçável”, achava ela. No fundo, no fundo, onde estavam os Ayrton Senna do futebol e do vôlei? Onde estava o Isaquias? As mulheres eram tão jovens e estavam tão admiráveis: Rayssa sensacional, Rebeca, Flávia e a inesquecível Waleswka - que olhou para o homem errado, viveu com o homem errado.

- No mundo das mulheres, há a percepção da fusão do País em seus espíritos; os homens, para além de indivíduos, pareciam todos individualistas, mesmo egoístas, narcisistas. Ali no telão do estádio, se admirando, enquanto o tempo passa, o espírito esportivo mingua, a garra nunca aparece e os títulos...

- Bem, ainda não acabou...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


Conto “Estado de choque”

Eu nasci numa aldeia e tive aquilo que se pode chamar uma vida simples. Fui para a faculdade para a segunda cidade mais importante do meu país. E que para mim era uma cidade gigantesca nessa época. Ainda nem fazia ideia do tamanho e imponência de cidades como a Cidade do México e do Rio de Janeiro, para nomear apenas duas que tive a sorte de conhecer e de me apaixonar. Mas voltemos ao tempo da faculdade. Um tempo em que não sabia como funcionavam os ônibus, não conhecia a cidade, levava dinheiro contado e bem apertado para cada semana, acordava muito cedo para chegar aos lugares onde tinha aulas porque só sabia ir a pé – cheguei a andar duas horas a pé para chegar a algumas aulas mais longe que se iniciavam às 8h da manhã. A maior parte dos meus colegas conhecia os professores, mas eu nunca os tinha visto na vida e tinha um misto de medo e respeito por eles. Cresci interiorizando que professores da Faculdade, eram pessoas diferenciadas e muito importantes. Intocáveis. Nessa época os professores também eram pessoas muito inacessíveis, com seus assistentes – só podíamos falar com os professores através dos assistentes. Lembro que quando ia sozinha e me cruzava com algum professor, num corredor estreito, de um dos locais da Faculdade, olhava o chão de vergonha e receio de o incomodar com meu olhar de curiosidade. Fui melhorando com os anos, com a experiência, com a proximidade dos professores, sua gentileza. Como eu era jogadora num time conhecido da cidade, era uma aluna razoável numas matérias, fraca noutras, mas muito boa nas práticas, acho que fui conseguindo espaço de respeito entre eles. Nos anos seguintes, cumprimentavam-me com carinho e respeito e eu amava conversar com eles sobre assuntos da faculdade e do futuro da nossa área. Alguns até me iam ver jogar porque eram simpatizantes do meu time ou de times contra quem eu jogava. Terminei a faculdade fazendo bons amigos entre os professores e isso me deixou sempre muito feliz. No segundo ou no terceiro ano da faculdade – sou do tempo de 5 anos para fazer uma licenciatura, 2 anos para mestrado e 5 anos para doutorado – soubemos que íamos ter aulas com dois professores considerados os melhores do país nas suas áreas. Fiquei louca de alegria e de vaidade. Hoje em dia isso é mais frequente, mas naquela época, poder ouvir os melhores do país, era raro. E era preciso aproveitar, apreciar e agradecer. Amei essas aulas. Lembro que ficávamos todos à porta da sala, aguardando a chegada deles. Lembro também que um desses professores chegava sempre muito atrasado, a aula começava muito mais tarde do que o horário, terminava super tarde e eu tinha de ir a “voar” para o treino. Naquela época “voar” era correr, mesmo que chovesse torrencialmente – algo que era frequente. Essas aulas com esses professores aumentaram em mim o orgulho do curso que fazia, o estímulo de estudar mais, de ser melhor. E um deles, chamemos o professor ”Fabuloso”, incutiu em mim o estímulo de pensar no que ainda não existe, pensar no que pode ser feito de bom na sociedade, com a minha contribuição. Essa porta foi muito importante na minha vida. Tinha um ar fofo, era simpático, gentil. Penso que cada professor nos abre uma porta ou uma janela e este professor abriu essa. Era muito convidado para falar na televisão, algo raríssimo na época. Quase todas as pessoas da minha área o conheciam e o respeitavam. O país feliz porque tinha o professor “Fabuloso”.

A vida seguiu e de vez em quando eu via e ouvia o professor na televisão. Era uma sumidade na sua área. Respeitadíssimo. Eu terminei a faculdade, comecei a trabalhar. Uns dois anos depois de começar a trabalhar, recebi um convite para dar aulas na faculdade. Inicialmente até pensei que era brincadeira porque todos os meus ex-colegas da faculdade sonhavam com isso e andavam em busca dessas oportunidades e eu nunca tinha pensado nesse assunto porque não tinha “contatos” suficientes para conseguir esses lugares. Mas era a sério o convite, fiquei muito honrada e passei a estudar mais do que qualquer dia que estudei para a faculdade. Me entreguei aquele emprego, me dediquei totalmente. Era fabuloso mas também um lugar de muita responsabilidade e risco. Mais ainda porque como eu não tinha amigos nem professores mais velhos que me protegessem, sabia que se tivesse uma falha, por pequena que fosse, seria suficiente para terem justificação para me dispensarem.

Ao final de 11 anos soube que o professor “Fabuloso” ia ser meu colega na faculdade. Fiquei muito honrada e feliz. Poucas vezes me cruzei com ele, mas me sentia orgulhosa na mesma. Saber que trabalhava no mesmo lugar que ele, era um enorme motivo de orgulho. Até caminhava de forma diferente, vaidosa, vaidosa, vaidosa.

Na época dos exames, cada professor tinha de ajudar na vigilância das salas, nos exames dos colegas. Como tínhamos 200 alunos e era necessário imensas salas, o professor da matéria do exame, circulava pelas outras salas para tirar dúvidas e os outros professores vigiavam. Quando eram os meus exames eu amava porque estava mais relaxada, tirava dúvidas aos alunos, eles pareciam ficar contentes quando eu ia à sala deles e lhes perguntava se estava a correr bem. Quando tinha de vigiar os exames de outros professores, era maior a responsabilidade. Fazer a chamada certinha, assinalar quem estava e quem faltou. Os alunos só podiam levar a caneta para o seu local de exame e isso demorava muito tempo a gerir. Controlar os meninos e meninas que tentavam colar. Avisar, avisar, controlar. Infelizmente tinha sempre um ou outro que tentava mesmo colar. A esses, era cancelada a prova, o aluno era obrigado a sair da sala e quando se entregava as provas ao professor da matéria, informava-se de tudo – número das provas, algum problema, alunos que colaram, etc. Não se perdoava aos alunos que colavam. Isso era uma marca da faculdade.

Um dia tive a enorme honra de ir vigiar um exame do professor “Fabuloso”. Fiquei numa das salas, vigiando. O Professor apareceu duas vezes por pouco tempo. E logo foi circular por outras salas. Tinha sempre dois assistentes com ele. Uns 30 minutos antes do exame terminar, eu percebi que um aluno estava colando. Fui ter com o aluno, apanhei-o em flagrante, avisei que teria de lhe retirar a prova, que seu exame seria anulado e que deveria sair da sala. O aluno saiu, a prova terminou dali a 30 minutos, os alunos saíram todos, foi feita a conferência dos exames e eu e os dois colegas que me ajudaram a vigiar, aguardamos o professor para lhe entregar as provas. O professor chegou, agradeceu o nosso trabalho e quando lhe entregamos tudo informei que um aluno foi apanhado em flagrante a colar, por isso a prova tinha sido cancelada.

- Coitadinho do menino. Obrigada pela informação colega. Vou tomar nota para não me esquecer de lhe dar um 10 (no meu país a classificação é de 0 a 20).

- Professor, acho que não entendeu o que lhe falei. Este aluno colou descaradamente. Colou. Isso é proibido no país e nesta faculdade somos muito rígidos com essas situações.

- Claro colega, sim, sim. É isso mesmo. Mas a gente precisa ter pena deles. Lamentavelmente só lhe vou dar 10.

- Professor, o seu aluno colou e o Professor vai lhe dar 10? Sem nem saber se ele respondeu tudo errado? Ele vai ser condecorado com um 10 por colar? Meu Deus... – isto era o que eu gostava de ter dito. Na verdade, não disse nada. Não consegui. Despedi-me educadamente e sai da sala. Ele era o responsável da matéria e eu não podia fazer nada. Muito menos fazer queixa do aluno e dele na direção. Reparei que o aluno se cruzou comigo. Enquanto eu saia da sala em estado de choque, o aluno entrava na sala sorrindo.

Nunca mais na vida me refiz desse momento. Atualmente, quando o ouço na televisão, quando ouço pessoas bastante famosas do país tecerem enormes elogios a esse professor, me volta esse “estado de choque”.

Ana Santos, professora, jornalista


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