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2 Contos: “CLIMA EXTREMO” e “Quem sabe encontro Ayrton Senna”


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Conto “CLIMA EXTREMO”

De repente houve uma explosão daquelas e a luz piscou, voltou, apagou de vez. Em Salvador, bastava Deus ter um soluço e a luz piscava em seguida, nunca se viu nada igual. Lá longe ela viu o céu clarear e o ronco do trovão veio, lá longe...

A chuva veio vindo. O vento vinha atravessado, dava pra sentir. Quem mora na cidade, logo sente a mudança. Salvador venta, mas o vento antes da chuva é diferente.

Mais clarões. Antigamente a gente não via tantos clarões de raios, na cidade. Talvez perto do mar. No Rio de Janeiro tinha cada raio, cada trovão, que a pessoa se tremia toda – de susto e de medo - mas em Salvador não era assim, até que... começou a ser.

 

Do alto da sua janela, ela acompanhou os clarões, a cidade confusa com a falta de luz, os sinais de tráfego todos apagados, o congestionamento e começou a rezar:

- Ai meu Deus, só falta a rua encher...

É. Começou mesmo. Antigamente, a Mata Atlântica ficava na nossa frente – na Av. Paralela tinha uma reserva, onde hoje os condomínios tinham tomado tudo.

- Parece que foi ontem...

A chuva logo encheu a Paralela e pouco a pouco tomou a cidade inteira. Uma coisa chocante, mas não surpreendente, já que as intervenções da cidade trocaram terra, árvores, por cimento, pistas de bicicleta, de carro, de VLT, ou seja o que for, porque ela não sabia a diferença entre VLT e BRT – mas sabia que muitas árvores tinham sido arrancadas.

Passavam sacos de lixo, navegando por aquilo que deveria ser o asfalto, mas que parecia um rio. Os olhos dela, do alto da sua janela, se apertaram um pouco mais – não conseguia disfarçar o mal estar com aquilo.  Afinal, se falava de problemas com o clima desde a ECO 92, ela estava lá, inclusive – mas em 2024 todos pareciam surpreendidos, como se Deus tivesse ficado revoltado, como se fosse um castigo e não uma consequência do que fizemos e fazemos, de quem somos.

Em Salvador, nenhuma palavra sobre separação de lixo, nunca, nunquinha. Nada sobre emergência climática. Nada sobre relacionarmos ações educativas em Salvador com o problema da chuva – que tinha apertado mais ainda.

Desistiu de sair, dane-se o compromisso. Não ia morrer afogada naquelas águas sujas por nada nesse mundo!

Passou um sofá boiando.

- Meu Deus...

Nem viu quando a luz voltou. Mas a cidade sabia. Barreiras, sirenes, água e árvores caídas davam seu testemunho sobre o inferno que havia invadido a vida de todos.

- Será que as pessoas percebem que nós começamos isso e nós devemos voltar atrás? Não adianta chamar Deus e desmatar, fazer queimada e jogar lixo pra cima...

Lembrou do Jairo, um menino, um seu vizinho, do tempo em que morou no Sul e que matava tudo o que fosse vivo – até beija-flor. Parecia tão fácil: A pessoa sobe no trator e arranca tudo, planta outra coisa, agricultura é assim.

- Bem... Não é mais... O que se faz na Amazônia, no Cerrado, em algum lugar a gente vai pagar. Dessa vez foram os gaúchos, mas a roleta vai continuar girando... Quando os políticos vão perceber que a Lei do Marco Temporal é uma estupidez que estamos pagando cada vez mais caro?

Olhou a rua. Pura lama. Todo mundo sabe que Salvador é feita de suspiro e se insiste em não ouvir a natureza, como se ela fosse conservadora ou comunista...

- Bando de idiotas...

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Quem sabe encontro Ayrton Senna”

Olho aquelas fotos que ex-colegas de faculdade postam periodicamente nas redes sociais. Parece que a faculdade foi quase só festa para alguns. Que sorte! Estávamos na mesma faculdade, mas as vidas eram muito diferentes. Fiz a faculdade enquanto era atleta e com pouco dinheiro no bolso, o que significava, zero festa, zero diversão, zero curtição e o tempo todo ocupado. Tempo livre, era para dormir. Talvez a minha melhor foto fosse dormindo. Como ansiava por dormir, descansar. Nem sei como o meu corpo aguentava todas aquelas exigências.

Estes dias assisti no Youtube a muitas declarações de Ayrton Senna falando da necessidade e importância da família na sua estabilidade, dos esforços que fazia para ir o mais rápido possível para Angra dos Reis, para relaxar, para estar com os “seus” e “recarregar baterias”. Que sorte! Eu não tive tempo nem condições para poder pensar nessas coisas boas. Saí da minha aldeia para estudar – abandonei tudo o que amava e me dava uma vida equilibrada em busca de deixar de depender do meu pai e me estabilizar economicamente. Não tinha outro jeito. Terminei a faculdade e comecei a trabalhar nessa mesma cidade, mas sempre que surgiu um bom convite, aceitei. Foi assim que vivi em vários locais, tive várias profissões. Penso como tinha sido bom poder fazer o que Ayrton Senna fazia, mas eu não tinha as condições financeiras dos meus colegas que faziam farra no meio dos estudos, muito menos as condições de Senna. E fiz o meu caminho com as possibilidades que encontrei. Nos primeiros anos juntava para pagar um carro, depois comecei a juntar para ter uma casa. Num dos lugares para onde fui trabalhar, comprei um terreno pequeno, adequado para mim, e aos poucos fui construindo a minha casa, fazendo minha horta, meu pomar, tendo galinhas e com elas os ovos, uma vaca e com ela o leite e o queijo e a manteiga, dois porcos por ano e assim adquiria o sustento para um ano de perna de presunto, chouriços, pingue (banha), carne. Só precisava de comprar peixe de mar de vez em quando – incluindo o maravilhoso bacalhau da Noruega, porque até peixe de rio eu pescava nos finais de semana, no rio junto de minha casa e do meu trabalho. Não tinha a casa de Angra dos Reis de Ayrton Senna, que realmente é espetacular, não tinha novamente tempo para festas, viagens e curtição. Mas era feliz. Muito feliz. Sem fotos nas redes sociais, sem glamour, mas com muita realização pessoal.

Vejo a água a subir e percebo que a próxima fase que eu tinha planejado para a minha vida, vai ter de ficar para outra encarnação. Não leio jornais, não assisto televisão. Raramente frequento as redes sociais. Decidi, intencionalmente, parar de ouvir e assistir todos os seres humanos estragando tudo neste planeta, falando que vão fazer e nunca fazendo. Mas, o que eles fizeram de errado atingiu a minha vida, aqui neste canto do mundo. Talvez eles vivam 100 anos, talvez eles estejam nas suas casas luxuosas, continuando a tomar as mesmas decisões e falando que vão resolver tudo. Mas a verdade é que, eu, apesar de ter tentado fazer tudo correto para a minha vida e para este planeta maravilhoso, fui apanhada pelos erros de que se vão safar. Meus cachorros já se afogaram, as pontes em volta do meu terreno e da minha casa, ruíram. Já percebi que com o aumento do nível das águas, vou morrer aqui. Vou morrer por causa de outros se recusarem a mudar, se recusarem a pensar de forma comunitária. Estava com muita raiva no início das chuvas e ao entender o que me ia acontecer. Mas agora acalmei. Quem sabe encontro Ayrton Senna e outros que como eu, morreram antes do tempo e tinham tanto para contribuir...

Ana Santos, professora, jornalista

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