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Jan 27

Thiago Arancam, Salvador (2019)

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Voz tem uma forma de se comunicar comigo que é única - talvez pelo fato de que como fonoaudióloga eu a veja como um bem, um milagre. Dá pra imaginar que a gente ouça vozes imortalizadas como as Freddie Mercury, vendo que aquilo tudo nasce apenas do atrito de gás carbônico - lixo tóxico que a gente expulsa do corpo - entre 2 pregas vocais? Agora pense ter essa noção ouvindo um tenor com o poder de Thiago Arancam. Me peguei chorando sem nem saber o motivo, cada vez que ele cantou uma ária de ópera, cada vez que cantou rock instrumental como o do Queen ou do Seal. Isso fez com que eu me perguntasse se era preciso mais que isso, já que um dos momentos históricos da música contemporânea foi mesmo o dueto entre Freddie Mercury e Montserrat Caballé- e que momento, quando Thiago recria o dueto, desta vez com Carmen Monarcha!

 

Mas houve - ou há - um fator a se levar em conta: o TCA apresenta um problema de som que eu já tinha notado no balé russo e que piora, diante da potência das vozes e dos músicos. Não sei bem se a mesa não distribui bem os canais ou se os alto falantes não estão bem. O fato é que nitidamente se percebe que o som perde o "balance, estoura" e desequilibra a maravilha de ouvir vozes com o poder das que Thiago e Carmen têm..

 

Fora isso, poder assistir Nessun Dorma, ao vivo e cantada com uma voz como a de Thiago Arancam é como voar, como ver a concretude daquilo que só podemos sentir e acreditar vendo o invisível - a voz... Há a magia do toque invisível que só a voz humana é capaz de criar. Uma tessitura emocionante, que levamos conosco ao sair do teatro. um fascínio permanente que quando mais trabalho especifico se tem na área, mais aumenta dentro de nós. Thiago Arancam, domina a expressividade e a potência de sua voz e quando canta, a compartilha com o mundo, com cada um nós. Um espetáculo que quem não foi, certamente perdeu...

 

Ana Ribeiro, fonoaudióloga, diretora de TV, cinema e teatro

 

O talento, o dom, nasce com você. Pode ser visível ou não. E pode nunca ser desenvolvido. Thiago Arancam nasceu com um talento visível. Sonoramente visível. Para além de um gentleman e muitas outras qualidades. Sua voz, seu aparelho vocal, é soberbo. Tão potente que um espaço como o TCA ficou louco para dar conta. Pareceu muitas vezes que não ia ao limite por cuidado de não nos assustar ou de atrapalhar a técnica. Um homem bonito, com cara de menino. Um monstro vocal. Depois quando você tem o privilégio de falar com ele, ouve uma voz como as nossas. Impressionante porque o som que sai deste ser, quando canta é quase mágico, religioso por ser tão especial. Um diafragma que é treinado adequadamente, junto com talento. Isso é Thiago Arancam.

 

Apresentou o espetáculo Bela Primavera, com alguns clássicos da música internacional que são especiais para ele. Percebe-se a ligação forte ao repertório italiano, pois grande parte das escolhas são italianas.

 

Inicia com “Hallelujah”, de Leonard Cohen . A facilidade com que canta canções como “Viva La Vida”, do Coldplay, “Crazy”, de Seal ou “Who Wants to Live Forever”, do Queen, é surpreendente. Por momentos sonhei que ouvi Freddie Mercury na sala. Arrepiante. A partir de Caruso me conquistou. Sua capacidade de canto para repertório lírico é intocável. E no final, Puccini. Emocionante poder ouvir uma das melhores vozes do mundo, ali, cantando Puccini. Seus pés levantam do chão e você sai desta vida terrestre para um lugar sensacional e emocionante. Me fez chorar. Obrigada Thiago Arancam.

 

Plateia maioritariamente acima dos 60 anos, deliciada. E o auge foi quando Thiago decide vir cantar para o meio do público. Você vê as pessoas enroladas nos seus celulares/telemóveis, tentando tirar a melhor selfie da vida quando Thiago passa perto. Meu Deus. Não seria muito mais sensacional, aproveitar o momento em vez de registrar/registar o momento? Aproveite o momento. Guarde o celular/telemóvel.. Saboreie e guarde na sua memória afetiva e visual o que vive. Porque ao sair do show o celular pode cair no chão, ser roubado. Algo bem frequente nesta cidade. Dentro de você, o que você vive, ninguém pode roubar. E faz bem à saúde. Pense nisso.

 

Teve como convidada Carmen Monarcha, uma soprano brasileira e portuguesa fantástica. Expressiva e poderosa. Me impressionou o seu alcance. Habituados a trabalhar em conjunto, no Fantasma da Ópera, é divino ouvir os dois juntos. Se entendem bem, se respeitam profissionalmente e parecem cantar sem esforço algum. Espetáculos com os dois cantores, são sucesso sempre. Parabéns.

 

O mundo do canto lírico é muito formal. Ok. Mas as poses que os cantores fazem durante as performances podem ficar mais fluídas e mais funcionais. Afinal são artistas que fazem um exercício vocal e respiratório fortíssimo com um sorriso e com a aparência de que tudo é fácil. Por que não usar movimentos mais naturais? Para mim, que trabalho na área de preparação corporal de artistas e profissionais de comunicação, parece-me que seria interessante e atraente para o público. Sem perder a seriedade.

 

Gostaria de finalizar agradecendo. Agradecendo a gentileza da produção, e dos dois artistas. Uma fila imensa de pessoas querendo fotos, conversar. E, os dois, depois de um espetáculo exigente, distribuindo simpatia, delicadeza, gentileza, nobreza. Manter a humanidade para além do sucesso. Isso é muito raro hoje em dia no Brasil. Obrigada Thiago Arancam e Carmen Monarcha.

 

Ana Santos, professora e jornalista

 

Site oficial de Thiago Arancam:

https://thiagoarancam.com/#home

Página do Facebook de Thiago Arancam

https://www.facebook.com/thiagoarancam

Instagram Thiago Arancam

@arancam

 

Site oficial de Carmen Monarcha:

https://www.carmenmonarcha.com/

Página do Facebook de Carmen Monarcha

https://www.facebook.com/CarmenMonarchaOficial/

Instagram Carmen Monarcha

@ carmenmonarcha

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  • portalbuglatino
    Out 5

    Imaginava que veria um show, mas uma coisa tão arrebatadora, dramática e comovente não é show – é espetáculo, é teatro, é drama – já que drama é ação e o tempo inteiro ela nos mergulhou em ação dramática. Como vocês sabem, minha especialidade é voz profissional. O que mais faço na vida é ouvir vozes, é uma rotina e pouca coisa me impressiona. Fiquei aturdida com a capacidade vocal, com a qualidade, com o domínio do som, do ritmo, da intensidade. Ela cantou com microfone, sem microfone, dobrada, em cima de escada, encostando a barriga nos joelhos – vocês sabem onde fica o diafragma? Sabem o nível de interferência que se dobrar sobre o diafragma causa à voz? Nem queria aplaudir. Queria muito mais ouvir. Absorver. Um repertório forte, intenso, incrível e novo – o que diante da mesmice atual da MPB é como respirar ar fresco. Em alguns momentos, aquele jeito tão Caymmi, tão Nana de entrar na frase musical – uma assinatura única, genética. 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Eu, vou lhe agradecer para sempre pela coragem de abrir um caminho, onde outros podemos passar, e que ninguém nunca teve coragem de fazer. O caminho do que as famílias podem destruir em você, se você não estiver atenta. Tem de existir espaço e respeito para todos. Só por que uns têm tudo, têm a aceitação social e familiar e todo o poder, não é justo que os outros, na marra, não possam ter direito a fazer o seu caminho, por estranho que vos possa parecer. Portugal, França, Holanda, Mundo, se esta maravilha da natureza passar por aí e sempre que passar, tentem não perder. Tem tudo para ser cada vez mais surpreendente, cada vez mais impactante. Alice Caymmi, o Bug Latino se encantou com você e com o mundo que você abriu. Vá, por favor vá em frente. Sempre. O Bug e nós aqui estamos também fazendo a nossa parte desse caminho. Um dia, o caminho virará uma estrada e quem sabe menos pessoas ou nenhumas passarão o que você passou e passa, e que nós Bug e nós Ana Santos e Ana Ribeiro precisamos enfrentar. Que a vida de todos possa ser mais verdadeira e feliz. No final, encontrar na plateia uma pessoa tão querida nossa e do Bug Latino como Moacyr Motta, locutor da Rádio Educadora e um excelente fotógrafo, ainda tornou tudo mais mágico e maravilhoso. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a artista Instagram https://twitter.com/alicecaymmi?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor Facebook https://www.facebook.com/AliceCaymmi/ Vagalume https://www.vagalume.com.br/alice-caymmi/ Letras.mus.br https://www.letras.mus.br/alice-caymmi/ Canal Youtube https://www.youtube.com/channel/UC1nVmno6DrahlYB8abBnjXA Allcance Produções http://www.allcancecomunicacao.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    A peça é dividida em três segmentos distintos. Totalmente distintos. Até em ambientes diferentes. Isso mesmo: você inicia a assistência da peça em um lugar, depois vai para outro e em terceiro lugar, ainda outro. A parte um, adorei – com tantos problemas na Amazônia atualmente, achei o paralelo genial. Destaque para Caio Rodrigo e Daniel Farias. Não entendi a participação daquele instrumento australiano numa cena com nativos da América Latina, mas a sonoridade valeu à pena. Na parte dois, embora o conteúdo dramático tenha me agradado demais, perdi muitas falas. Não por falta de dedicação dos atores que estavam em seu máximo de esforço vocal - até acima – mas porque havia muitos ruídos dos instrumentos em cena, competindo com a voz dos atores. Porém, apesar desses problemas, a dor e o sofrimento, a narrativa de execuções foi incrível, assim como a falta de piedade e uma espécie de procedimento de justificativa para a barbárie – outra relação de pensamento super atual com o que estamos vivendo no momento e que parece não afetar a maior parte das pessoas que ligam a TV e consomem crimes, falcatruas, ódio, enquanto manipulam o celular em busca de outras doses de mesmas coisas. A parte três foi onde achei que a voz de todos “estourou”. E por ser parte da minha vida profissional gerir e controlar a emissão vocal das pessoas fiquei mesmo desconcentrada com o tamanho do esforço. Num momento onde há tanto em jogo no Brasil e onde se acumulam conceitos totalmente equivocados sobre heróis e ideologias, Teatro la Independencia aponta um continente muitas vezes desencontrado e que procura definir-se por conceitos e não conviver com harmonia – uma aula diante de interesses políticos, econômicos e individuais a qual estamos submetidos sob as mais diferentes utopias, descritas em verso e prosa – uma aula de que o real desgoverno pode ser nosso, que continuamos seguindo nossas próprias ilusões travestidas de pessoas, personalidades – grande erro. Acima de tudo Teatro la Independencia fala do papel do teatro no mundo, independentemente de quem estiver no poder – o teatro é um espelho humano poderoso, que lá estava neste espetáculo, voltado para as nossas idiossincrasias todas – vamos nos vender totalmente? Há preocupação social real num investidor que pretende apenas retorno financeiro? O teatro pode ser vender a qualquer interesse para sobreviver? Quem responde? Quem ousa responder? ANA RIBEIRO Diretora de teatro, cinema e TV A peça provoca algum desconforto físico ao espectador de forma intencional se movendo constantemente. Procura provocar outros desconfortos ao trazer inquietações e mesmo discussões. Os espaços e imóveis que se alteram de acordo com os donos, a função e o poder do mundo económico. As discussões que tudo isso provoca, as opiniões de cada pessoa, diferentes, parecidas, conciliadoras, conflituosas. Os que discutem, os que observam, os que organizam enquanto uns discutem e outros observam. Os que organizam não perdem tempo, os que observam têm particular motivação para nada fazer e criticar quem faz e os que discutem têm muita dificuldade em terminar as discussões e passar a ação. Achei esta parte da peça particularmente interessante. Também bastante exigente por que para um ator é difícil estar em palco “parecendo que não está”. Muitos atores não conseguem manter o foco sempre. Muitos atores perdem o olhar, o corpo e o envolvimento por não conseguirem se manter nesse espécie de limbo. E é aí que o ator precisa de manter o seu foco mais forte, para que a plateia não perceba momentos em que ele “sai de cena”. Basta um segundo. Talvez todo o corpo possa se manter em cena mas se o olhar muda, ele desmorona toda a construção e esforço. Numa peça que dura 2 horas, isso é muito difícil para um ator. A peça circula constantemente entre essa zona “real” e outros mundos como as discussões sobre os indígenas, sobre o sofrimento histórico dos povos, sobre D. Quixote. Complexa e muito variada. Senti a peça um pouco longa, com muitos assuntos, abordagens ou pontos de vista. Às vezes querer dizer muito pode provocar no espectador alguma confusão no que a peça quer. Tive momentos de dificuldade em entender a dicção de alguns atores, talvez pela rapidez com que falavam. E me pareceu que a emoção da peça se perdeu um pouco por causa disso. Uma peça tipicamente baiana, onde os corpos e as vozes cantam e dançam e se misturam. Movimento, desconstrução, ousadia...isso será sempre Bahia. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-nuremberg Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    Os estudos acadêmicos, o comportamento neutro, absolutamente neutro, afavelmente neutro, dolorosamente neutro dos ingleses consegue apagar o furor, o fogo, a energia de se ver e de ver o mundo através de uma ótica atravessada por uma história africana? Neutraliza-se preconceitos? Como afinal cada um de nós passa por eles para apenas sermos quem somos, sem comparações? Fulana, negra do cabelo bom, Sicrano, branco do cabelo ruim – o que é a qualidade ruim ou bom para cabelo? Exatamente. O que somos, exatamente? Porque, sem este saber exato, qual o fundamento do preconceito? Ah, ok, somos diferentes e a diferença é a marca do preconceito. Mas - quem é igual? Black River mergulha num universo indistinto que tentamos ingenuamente distinguir – a diferença. Num mundo que distingue cada vez mais diferenças, mas não assume uma lógica de igualdades, a peça vem mesmo a calhar. E ver Patrick Campbell para além do ponto de vista de meu colega de classe, no mestrado, foi um presente, uma honra. Uma voz pura, dona de muitos sotaques, acentos melódicos e prosódias, Patrick conta histórias que detém a estranheza de quem somos e nossos pequenos e não percebidos preconceitos cotidianos, colocando-se no lugar de quem viu de onde veio e aponta com clareza – somos quem somos e somos misturados. No Brasil então, é um debate cansado, à medida em que ninguém pode se sentir fundamentado em uma única raça para falar e, assumindo nossa mestiçagem, para quê falar? Com que moral, que raciocínio? Um debate que esgota as nossas reservas de lucidez, sendo estúpido – e por isso mesmo cada vez mais necessário. Há um ponto de partida para a humanidade e ele é miscigenado, caro leitor. Em sua performance, Patrick, branco, olhos azuis, inglês de sentimentos neutros e cabelos encaracolados, aponta seu avô negro, seus tios mestiços e ele – branco, do cabelo “nem tão bom assim”. E ao fazer isso a si mesmo, ao designar-se mestiço, levanta a questão do racismo com determinação e excelente interpretação, com domínio da voz e todos os seus meneios. Uma pena tê-lo visto tão pouco tempo e usufruído de seu trabalho apenas nesta apresentação. Espetáculo imperdível. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Peça falada em inglês e português do Brasil. Vários sotaques, cantos, cânticos e danças africanas, caribenhas. Uma “mescla” de culturas, de línguas, de personagens. Apenas um ator. Patrick Campbell criou uma peça totalmente sua, que inclusive, inclui a sua história. Muito interessante e culturalmente rica. Pouco cenário, pouco figurino, pouca iluminação. Uma peça de produção simples. Eu gosto e admiro atores que fazem peças assim. Julgo que esta forma de teatro, de contador de histórias, de contador da sua própria história é muito importante no momento em que vivemos. Partilhar experiências, partilhar sofrimentos, partilhar a forma de lidar com tudo o que dói ou nos faz feliz pode nos salvar. Nunca nos salvará atacar ou impedir o sucesso do outro, diminuir o que os outros fazem de bem. O Brasil está em ebulição e prestes a explodir por que quase todas as pessoas estão a preferir aumentar os problemas e a preferir destruir para apenas vencer? Vencer o quê? As pessoas têm de se entender. Ou no final de todas as tentativas falhadas, se respeitar e viver cada um a sua vida sem atrapalhar a vida dos outros. O ator conta a sua história, sob o ponto de vista da diversidade de cores de pele, cultura e vida das pessoas da sua família. Uma mistura de escravos, donos de fazendas, etc, etc. Pontos de vista opostos, vidas abonadas e vidas de sofrimento numa mesma família. Injustiças, tragédias, marcas que ficam para sempre nos que vêm depois. O ator de alguma forma tenta mostrar seu sofrimento, sua angústia e parece querer mostrar a todos nós que não adianta ficar preso a mágoas, por maior sofrimento que se tenha passado. Gostei da forma original como confronta a ciência, a investigação, a pesquisa, a cultura, as raízes, a terra. Uma peça que seria bem recebida em Portugal. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-o-outro-lado-de-todas-as-cois Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/

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