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Abr 30

Salvador DRAG

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Desiree Beck e Aimée Lumiere no Tropos Gastrobar – Rio Vermelho - Salvador

Joãozinho 30 dizia que ‘O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual’. Um bom espetáculo Drag é luxo inteligente, humor com toques de malícia e vitalidade. VITALIDADE é uma palavra mágica, aliás – quanta energia cabe em uma pessoa para que ela cante, dance, faça mímica com sincronicidade, use como palco todos os espaços livres e ainda tenha elegância, exuberância? Pois é, num show com duas drags como Desirée e Aimée, a gente vê tudo isso em dobro.

 

Como trabalho exatamente com dublagem e mímica, sentei de frente, pra não perder nada. Na frente quer dizer a 1 metro de distância, no máximo 2 - E, além de toda a exuberância de que já falei, acompanhei uma expressividade no olhar de Desirée, um domínio cênico enorme das duas num espaço físico tão pouco provável que se construíram ali grandes momentos. As duas têm uma interação muito boa, improvisam, brincam, conversam. Em termos de interpretação, Aimée deu show numa mímica de fumante e num dado momento cantou como um passarinho, com sua própria voz. Desirée “encarou” a interpretação de uma evangélica que colocou fogo na plateia. E tudo isso num ritmo alucinante.

 

A escolha do repertório é feliz, pra se dizer o mínimo – adoro as divas cantando e re-curtir Whitney, Barbara, etc continua sendo mágico. Quando uma mímica é bem-feita e você consegue sair da posição de “caça-erros” é sensacional - principalmente no meu caso.

 

O humor precisa sempre de uma engenharia complexa porque me incomoda a busca pela risada nascida apenas da vulgaridade em qualquer espetáculo. Mas vi um humor rascante,

sempre inteligente e sem medo de balançar conceitos.

 

Não foi um show perfeito, houve vários pequenos problemas técnicos que atrasaram o ritmo, o próprio espetáculo sofreu um atraso importante, mas isso foi totalmente compensado. No início da madrugada, eu já estava entregando os pontos e as meninas continuavam lotadas de energia. Valeu cada segundo.

 

A pergunta que fica: se as nossas meninas Drag têm esse nível de qualidade – e eu mesma já dei aula à muitas – por quê elas ainda não estão ocupando a faixa espetacular da noite, em Salvador? Elas são um luxo!

ANA RIBEIRO

Diretora de cinema, teatro e TV

O Bug Latino foi convidado a assistir a um show das Drags Desiree Beck e Aimée Lumiere, no Tropos Gastrobar, do Rio Vermelho, Salvador – Bahia. Muito gratas pelo convite.

 

Quando assisto a um show que envolve esforço físico, logo fico curiosa e observando tudo: os movimentos, a energia, a capacidade, a entrega, etc. Ser atleta não é só ter roupa esportiva e desempenhar uma atividade recreativa ou competitiva. Ser atleta é entrega total, talento no que escolheu fazer, muito trabalho na preparação para as suas atividades profissionais, preparar com planejamento /planeamento, ter “um jogo de cintura” elegante para resolver problemas que podem surgir do nada. Os atores, artistas transformistas, são atletas. Seu nível de entrega no que fazem, determina o nível de foco da plateia. É importante estar sempre a 100%. O público amigo aceita tudo, mas o público que não nos conhece e precisamos ganhar, é muito exigente e às vezes cruel e injusto. É preferível fazer um show mais curto, mas que deixe vontade de voltar, do que prolongar um show por interesses profissionais do local e o público passar o foco para a conversa entre os amigos da mesa. Mas “Business é Business”.

 

A capacidade de aceitar e procurar satisfazer público, responsáveis do lugar, fazer o show com o mais básico, em lugares pouco adaptados para a situação, não é para qualquer um. São pessoas de muita coragem, determinação, talento, persistência, resiliência. E isso é de “se tirar o chapéu”. A sociedade precisa de dar mais valor a essas raras qualidades, em vez de partir logo para críticas e ideias pré-concebidas sem fundamento.

 

Tive mais dificuldade de entender os comentários de Aimée do que os de Desiree. Acho que pode ser por Aimée falar mais rápido e ter um humor mais “ácido” e construído na rapidez de raciocínio e de associação de frases de assuntos que não conheço. “Boiei” geral muitas vezes, com pena. Julgo que se fizerem estes shows para turistas, valeria a pena Aimée “lentificar” seu discurso e variar entre a complexidade e a simplicidade de humor. É um discurso muito inteligente e que aborda níveis de cultura geral altos, por isso, é uma pena perder informação por causa da rapidez extra. Tem uma mímica extraordinária e elegante, parecendo mesmo que está a cantar. E também canta bem. Por favor, cante mais vezes e mais tempo.

 

Desiree tem uma elegância e uma doçura, misturadas com um fogo que cativam. Uma enorme capacidade de lidar com pessoas, de resolver problemas com elegância e discrição. Um radar de observação sobre o momento, enorme capacidade de se adaptar, diversidade de desempenho e de temas.

 

As duas fazem imaginar, sonhar, mergulhar no mundo do fantástico. Eu sempre prefiro os momentos elegantes, mesmo de humor. Mas percebo que o público prefere muito mais os momentos acrobáticos, bizarros e performáticos. Parabéns às duas. Obrigada. Quem puder assista aos seus shows. Elas andam por aí.

Ana Santos, professora, jornalista

 

Espaço Cultural Caras & Bocas – R. Carlos Gomes – Salvador - Bahia

Cada vez que recebemos um convite pra assistir a um novo espetáculo é uma coisa super nova e que dá um pouquinho de frisson porque é um trabalho do qual gostamos muito. Mas esse convite foi especial: nossos alunos da primeira formação de atores drags e trans nos convidaram pra conhecer o trabalho das drags monsters, no Centro de Cultura Caras & Bocas.

 

Pontos negativos: há um vizinho "lunático do mal" que eventualmente joga umas pedras de gelo no telhado da casa; não sei se me acostumo a ficar acordada até tão tarde; o som precisa de ajuda; umas tiradas meio óbvias, de vez em quando.

 

Pontos positivos: Todos os outros! Ambiente tranquilo, paz total, uma boa parte da noite com shows muito bons, artistas ousadxs, um bom humor tão permanente que aponta para uma forma de resistência social e arte de qualidade, mesmo com poucos recursos. E cada performance, cada maquiagem, cada coreografia... Se um lugar com poucos recursos técnicos recebe tão bem seu público como uma opção de peso para as noites, o que aconteceria se obtivessem apoio?

 

As mímicas foram muito boas. Não exatamente todas, mas a grande maior parte. O palco, pequeno, nem é visto por ninguém como impedimento pra quebrar a quarta parede e dançar perto das mesas - o que é sensacional. Também o fato de estarmos na Carlos Gomes, no meio da madrugada, dá aquele ar underground necessário pra gente se sentir invadindo a intimidade da cidade, da noite. Até o vizinho "maluco do mal" entra na onda boa porque tudo na vida precisa de um vilão pra gente conseguir apreciar os "mocinhos do filme" e lhe fica muito bem o "papel miserável".

 

Queria eu agradecer o convite dos alunos, a acolhida de Rosy Silva, dona do espaço, o espetáculo, as apresentações que encheram minha madrugada de terça (!) de divertimento e a minha quarta de sono torporoso e sobretudo ao público alegre, receptivo, educado que apontou com bastante clareza que o meu lugar entre rosas e azuis, talvez seja o de "pois" rosas, num fundo azul. Porque muito mais gente deveria exercer o seu direito à convivência com a diferença. Faz bem a alma se ver parte de um mundo onde todos são bem recebidos. Todos.

Ana Ribeiro

Diretora de teatro, cinema e TV

Um dos lugares de Salvador onde a diferença é uma qualidade, onde a ousadia estética e de performance é bem recebida, onde a criatividade não precisa de limites e por isso permite que os próprios artistas transformistas se superem, se provoquem e voem. Tem shows todos os dias. O Bug Latino assistiu a um show da “Terça Estranha” e adorou. Nesse dia, viu várias artistas transformistas maravilhosas: Miguela Magnata, Marie Flamel, Azvdo, Tyna Vhermont, entre outras. A artista transformista se apresenta de forma mais próxima de estereótipos femininos, ou de estereótipos masculinos, ou como Monstra onde os caminhos são sem fim e sem estereótipos. Todo o figurino e maquiagem podem ser femininos e ter uma barba por exemplo. Sua barba pode ser de papel, ou não. Onde a imaginação, a capacidade de concretizar o que sonha e deseja decidem o momento sempre extraordinário.

 

Um lugar tão familiar que pode deixar o celular/telemóvel e a carteira, na mesa, que se quiser pode partilhar a mesa e que, quando está lotado, todos/as parecem um/a. Muito legal esta sensação. E estamos a falar de um lugar pequeno, com um mini palco, com pessoas a passar para o banheiro/casa de banho enquanto a artista transformista faz parte do seu show no corredor entre as mesas. Intimista, familiar, cru, sem rede, muitas vezes a luz ainda não está pronta quando o show começa, a música às vezes também não está no ponto, mas quer saber? Escolho mil vezes um lugar assim onde me vejo e vejo todas por inteiro. Um lugar imperdível, com shows imperdíveis, com energia imperdível. O que espera? O dia seguinte é mais ensonado com certeza mas vale a pena o esforço.

Ana Santos, professora, jornalista

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  • portalbuglatino
    Out 5

    Imaginava que veria um show, mas uma coisa tão arrebatadora, dramática e comovente não é show – é espetáculo, é teatro, é drama – já que drama é ação e o tempo inteiro ela nos mergulhou em ação dramática. Como vocês sabem, minha especialidade é voz profissional. O que mais faço na vida é ouvir vozes, é uma rotina e pouca coisa me impressiona. Fiquei aturdida com a capacidade vocal, com a qualidade, com o domínio do som, do ritmo, da intensidade. Ela cantou com microfone, sem microfone, dobrada, em cima de escada, encostando a barriga nos joelhos – vocês sabem onde fica o diafragma? Sabem o nível de interferência que se dobrar sobre o diafragma causa à voz? Nem queria aplaudir. Queria muito mais ouvir. Absorver. Um repertório forte, intenso, incrível e novo – o que diante da mesmice atual da MPB é como respirar ar fresco. Em alguns momentos, aquele jeito tão Caymmi, tão Nana de entrar na frase musical – uma assinatura única, genética. Em outros momentos, cultura musical, o nível de exigência na escolha de repertório que nasce de ouvir pessoas exigentes ouvindo e comentando música. Que espécie de menina é essa? No meio de pessoas iguais, com botox, dentes branqueados, “preenchidas” nas bochechas, nas faces, nas rugas, aparece uma pessoa de cabeça raspada na máquina 2, deliciosamente acima do peso, gritando emocionalmente “sou como vocês, faço parte da vida normal” – só que não – mas quando abre a boca pra cantar, deixa todos com a boca aberta de espanto. Saiu do palco cantando Marilia Medalha e de um jeito tão único que a plateia não teve tempo pra aplaudir, pra pedir bis. Apenas ficamos ali sentados, sem saber muito bem o que dizer uns aos outros. “E aí véi, cadê ela”? – era o que se ouvia em toda parte. Ali ficamos eu e Ana sentadas, cobertas com a nossa “manta Bug”. Quando levantamos, encontramos Moacyr Motta que estava tão surpreso quanto a gente. Nós três ouvintes ávidos de voz. Os três aturdidos com o que ela mostrou. Foi tanto, tanto que é melhor encerrar do mesmo jeito que ela – de repente. Um pouquinho sem fôlego, mas se eu estivesse no palcão do TCA, fazendo o que ela estava fazendo, cantando dois fados à capela, dançando pra Iansã, performando e transformando cada música numa cena na terra do avô, com a mística que ele deixou e cantou aqui, com a força, a tradição, a lembrança que todos temos... bem... quem não perderia levemente o fôlego? ARREBATADORA. Basta isso. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Apenas um pianista num piano de cauda. A partir de meio do show, mais um músico que toca timbau e depois toca pandeiro. Ambos extraordinários. Um cenário minimalista mas de extremo bom gosto que virou um espetáculo, uma performance, um momento de pura viagem ao interior de cada um que estava na plateia. E o final do show, inusitado, original e inovador. Alice Caymmi é uma artista arrebatadora. Estava no show pensando que, se seu avô, Dorival Caymmi tivesse nascido e vivido nesta época e vivido o que ela viveu, seria igual. Estava pensando que ela é tão surpreendente e fabulosa agora, como seu avô foi na sua época. Bonita, com um sorriso encantador e uma voz....uma voz... Percebem-se as mágoas, as dores, a travessia difícil que fez. Que faz e que fará. E ficamos impressionadas pela sua capacidade: de enfrentar tudo isso, de romper com o instalado, de querer ser quem quer ser, independentemente das vontades alheias ou mais próximas. Como comentou Mariela Brito, a maravilhosa atriz cubana numa entrevista que brevemente sairá no Bug, cada um nasceu para ser o que tem de ser, não o que os outros acham ou dizem para ser. E nos “outros”...coloque quem você quiser...por que tudo que não é você, são os outros. “As palavras são instrumentos de cura” (Alice Caymmi). Como se pode agradecer a uma artista ao, no palco, “exorcizar” as suas dores e as nossas? Não somos Caymmi’s, mas às vezes tudo é tão igual. Principalmente a dor, a incompreensão e a travessia. Principalmente quando se institui que você será, ou não será “alguém” de acordo com os desejos de terceiros. Os que tiveram a vida tranquila, serena e “embalada”, normalmente são muito tranquilos. Por que seriam de outra forma? Mas, e se tivessem tido obstáculos, vários, imensos, dolorosos? E olhares duvidosos sobre o seu caminho? Talvez tivessem sido agressivos, antissociais, etc... até ridículos. Ai, vida, vida... É tão fácil falar e tão fácil apontar quando tudo nos é fácil e tudo nos é oferecido. Em cada palavra, cada som, cada performance, Alice é diferença, é impacto, é terapia. Ainda bem que não foi para o caminho fácil do “negócio” musical. Teve uma educação musical e vocal de excelência, conhecimento cênico fora da “caixa” e amadureceu com o sofrimento e, graças a Deus optou por fazer algo que construa, que faça a diferença. Eu, vou lhe agradecer para sempre pela coragem de abrir um caminho, onde outros podemos passar, e que ninguém nunca teve coragem de fazer. O caminho do que as famílias podem destruir em você, se você não estiver atenta. Tem de existir espaço e respeito para todos. Só por que uns têm tudo, têm a aceitação social e familiar e todo o poder, não é justo que os outros, na marra, não possam ter direito a fazer o seu caminho, por estranho que vos possa parecer. Portugal, França, Holanda, Mundo, se esta maravilha da natureza passar por aí e sempre que passar, tentem não perder. Tem tudo para ser cada vez mais surpreendente, cada vez mais impactante. Alice Caymmi, o Bug Latino se encantou com você e com o mundo que você abriu. Vá, por favor vá em frente. Sempre. O Bug e nós aqui estamos também fazendo a nossa parte desse caminho. Um dia, o caminho virará uma estrada e quem sabe menos pessoas ou nenhumas passarão o que você passou e passa, e que nós Bug e nós Ana Santos e Ana Ribeiro precisamos enfrentar. Que a vida de todos possa ser mais verdadeira e feliz. No final, encontrar na plateia uma pessoa tão querida nossa e do Bug Latino como Moacyr Motta, locutor da Rádio Educadora e um excelente fotógrafo, ainda tornou tudo mais mágico e maravilhoso. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a artista Instagram https://twitter.com/alicecaymmi?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor Facebook https://www.facebook.com/AliceCaymmi/ Vagalume https://www.vagalume.com.br/alice-caymmi/ Letras.mus.br https://www.letras.mus.br/alice-caymmi/ Canal Youtube https://www.youtube.com/channel/UC1nVmno6DrahlYB8abBnjXA Allcance Produções http://www.allcancecomunicacao.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    A peça é dividida em três segmentos distintos. Totalmente distintos. Até em ambientes diferentes. Isso mesmo: você inicia a assistência da peça em um lugar, depois vai para outro e em terceiro lugar, ainda outro. A parte um, adorei – com tantos problemas na Amazônia atualmente, achei o paralelo genial. Destaque para Caio Rodrigo e Daniel Farias. Não entendi a participação daquele instrumento australiano numa cena com nativos da América Latina, mas a sonoridade valeu à pena. Na parte dois, embora o conteúdo dramático tenha me agradado demais, perdi muitas falas. Não por falta de dedicação dos atores que estavam em seu máximo de esforço vocal - até acima – mas porque havia muitos ruídos dos instrumentos em cena, competindo com a voz dos atores. Porém, apesar desses problemas, a dor e o sofrimento, a narrativa de execuções foi incrível, assim como a falta de piedade e uma espécie de procedimento de justificativa para a barbárie – outra relação de pensamento super atual com o que estamos vivendo no momento e que parece não afetar a maior parte das pessoas que ligam a TV e consomem crimes, falcatruas, ódio, enquanto manipulam o celular em busca de outras doses de mesmas coisas. A parte três foi onde achei que a voz de todos “estourou”. E por ser parte da minha vida profissional gerir e controlar a emissão vocal das pessoas fiquei mesmo desconcentrada com o tamanho do esforço. Num momento onde há tanto em jogo no Brasil e onde se acumulam conceitos totalmente equivocados sobre heróis e ideologias, Teatro la Independencia aponta um continente muitas vezes desencontrado e que procura definir-se por conceitos e não conviver com harmonia – uma aula diante de interesses políticos, econômicos e individuais a qual estamos submetidos sob as mais diferentes utopias, descritas em verso e prosa – uma aula de que o real desgoverno pode ser nosso, que continuamos seguindo nossas próprias ilusões travestidas de pessoas, personalidades – grande erro. Acima de tudo Teatro la Independencia fala do papel do teatro no mundo, independentemente de quem estiver no poder – o teatro é um espelho humano poderoso, que lá estava neste espetáculo, voltado para as nossas idiossincrasias todas – vamos nos vender totalmente? Há preocupação social real num investidor que pretende apenas retorno financeiro? O teatro pode ser vender a qualquer interesse para sobreviver? Quem responde? Quem ousa responder? ANA RIBEIRO Diretora de teatro, cinema e TV A peça provoca algum desconforto físico ao espectador de forma intencional se movendo constantemente. Procura provocar outros desconfortos ao trazer inquietações e mesmo discussões. Os espaços e imóveis que se alteram de acordo com os donos, a função e o poder do mundo económico. As discussões que tudo isso provoca, as opiniões de cada pessoa, diferentes, parecidas, conciliadoras, conflituosas. Os que discutem, os que observam, os que organizam enquanto uns discutem e outros observam. Os que organizam não perdem tempo, os que observam têm particular motivação para nada fazer e criticar quem faz e os que discutem têm muita dificuldade em terminar as discussões e passar a ação. Achei esta parte da peça particularmente interessante. Também bastante exigente por que para um ator é difícil estar em palco “parecendo que não está”. Muitos atores não conseguem manter o foco sempre. Muitos atores perdem o olhar, o corpo e o envolvimento por não conseguirem se manter nesse espécie de limbo. E é aí que o ator precisa de manter o seu foco mais forte, para que a plateia não perceba momentos em que ele “sai de cena”. Basta um segundo. Talvez todo o corpo possa se manter em cena mas se o olhar muda, ele desmorona toda a construção e esforço. Numa peça que dura 2 horas, isso é muito difícil para um ator. A peça circula constantemente entre essa zona “real” e outros mundos como as discussões sobre os indígenas, sobre o sofrimento histórico dos povos, sobre D. Quixote. Complexa e muito variada. Senti a peça um pouco longa, com muitos assuntos, abordagens ou pontos de vista. Às vezes querer dizer muito pode provocar no espectador alguma confusão no que a peça quer. Tive momentos de dificuldade em entender a dicção de alguns atores, talvez pela rapidez com que falavam. E me pareceu que a emoção da peça se perdeu um pouco por causa disso. Uma peça tipicamente baiana, onde os corpos e as vozes cantam e dançam e se misturam. Movimento, desconstrução, ousadia...isso será sempre Bahia. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-nuremberg Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    Os estudos acadêmicos, o comportamento neutro, absolutamente neutro, afavelmente neutro, dolorosamente neutro dos ingleses consegue apagar o furor, o fogo, a energia de se ver e de ver o mundo através de uma ótica atravessada por uma história africana? Neutraliza-se preconceitos? Como afinal cada um de nós passa por eles para apenas sermos quem somos, sem comparações? Fulana, negra do cabelo bom, Sicrano, branco do cabelo ruim – o que é a qualidade ruim ou bom para cabelo? Exatamente. O que somos, exatamente? Porque, sem este saber exato, qual o fundamento do preconceito? Ah, ok, somos diferentes e a diferença é a marca do preconceito. Mas - quem é igual? Black River mergulha num universo indistinto que tentamos ingenuamente distinguir – a diferença. Num mundo que distingue cada vez mais diferenças, mas não assume uma lógica de igualdades, a peça vem mesmo a calhar. E ver Patrick Campbell para além do ponto de vista de meu colega de classe, no mestrado, foi um presente, uma honra. Uma voz pura, dona de muitos sotaques, acentos melódicos e prosódias, Patrick conta histórias que detém a estranheza de quem somos e nossos pequenos e não percebidos preconceitos cotidianos, colocando-se no lugar de quem viu de onde veio e aponta com clareza – somos quem somos e somos misturados. No Brasil então, é um debate cansado, à medida em que ninguém pode se sentir fundamentado em uma única raça para falar e, assumindo nossa mestiçagem, para quê falar? Com que moral, que raciocínio? Um debate que esgota as nossas reservas de lucidez, sendo estúpido – e por isso mesmo cada vez mais necessário. Há um ponto de partida para a humanidade e ele é miscigenado, caro leitor. Em sua performance, Patrick, branco, olhos azuis, inglês de sentimentos neutros e cabelos encaracolados, aponta seu avô negro, seus tios mestiços e ele – branco, do cabelo “nem tão bom assim”. E ao fazer isso a si mesmo, ao designar-se mestiço, levanta a questão do racismo com determinação e excelente interpretação, com domínio da voz e todos os seus meneios. Uma pena tê-lo visto tão pouco tempo e usufruído de seu trabalho apenas nesta apresentação. Espetáculo imperdível. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Peça falada em inglês e português do Brasil. Vários sotaques, cantos, cânticos e danças africanas, caribenhas. Uma “mescla” de culturas, de línguas, de personagens. Apenas um ator. Patrick Campbell criou uma peça totalmente sua, que inclusive, inclui a sua história. Muito interessante e culturalmente rica. Pouco cenário, pouco figurino, pouca iluminação. Uma peça de produção simples. Eu gosto e admiro atores que fazem peças assim. Julgo que esta forma de teatro, de contador de histórias, de contador da sua própria história é muito importante no momento em que vivemos. Partilhar experiências, partilhar sofrimentos, partilhar a forma de lidar com tudo o que dói ou nos faz feliz pode nos salvar. Nunca nos salvará atacar ou impedir o sucesso do outro, diminuir o que os outros fazem de bem. O Brasil está em ebulição e prestes a explodir por que quase todas as pessoas estão a preferir aumentar os problemas e a preferir destruir para apenas vencer? Vencer o quê? As pessoas têm de se entender. Ou no final de todas as tentativas falhadas, se respeitar e viver cada um a sua vida sem atrapalhar a vida dos outros. O ator conta a sua história, sob o ponto de vista da diversidade de cores de pele, cultura e vida das pessoas da sua família. Uma mistura de escravos, donos de fazendas, etc, etc. Pontos de vista opostos, vidas abonadas e vidas de sofrimento numa mesma família. Injustiças, tragédias, marcas que ficam para sempre nos que vêm depois. O ator de alguma forma tenta mostrar seu sofrimento, sua angústia e parece querer mostrar a todos nós que não adianta ficar preso a mágoas, por maior sofrimento que se tenha passado. Gostei da forma original como confronta a ciência, a investigação, a pesquisa, a cultura, as raízes, a terra. Uma peça que seria bem recebida em Portugal. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-o-outro-lado-de-todas-as-cois Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/

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