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15 de Set de 2018

Peça de teatro "Vultos"

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Editado: 15 de Set de 2018

 

Uma peça difícil, em muitos sentidos. Em primeiro lugar, com texto longo e sem a presença de ação, de movimento. Portanto toda a trama deste drama se passa dentro de nós. Também não há diálogos - então o acesso às nossas ações emocionais também não é o que usamos cotidianamente. Uma peça com 3 atores que não usa diálogos? Exato, outra coisa difícil. Na prática, a gente assiste a 3 monólogos que se conjugam e nós os interpretamos como complementares. 

 

Então, Vultos é uma peça onde 3 atores fazem 3 monólogos e não têm espaço para muito mais do que ficarem parados - é isso mesmo. E a primeira coisa que me vem à mente como uma pessoa que se dedica à comunicação profissional eficiente, ao contrário do que as pessoas pensam ao me ver (como aquecer e desaquecer a voz?), é no peso que a prosódia e a pontuação têm num espetáculo assim. 

 

Isso porque em quase 2 horas de espetáculo, a palavra falada tem a responsabilidade de construir a performance dos atores, já que todo o sentido da peça nasce, se desenvolve a partir do que é falado. Para isso todas as intenções precisam ser mapeadas minuciosa e funcionalmente. E o nosso idioma tem uma riqueza incrível de nuances. Eu poderia ficar aqui falando de que temos no nossa idioma uma partitura riquíssima usada atualmente por inúmeras profissões, muito além do teatro e das artes cênicas. 

 

Mas não ficou claro pra mim em Vultos.

 

A primeira coisa é que não deveria parecer uma leitura e tive essa percepção em algumas partes do texto. É exatamente por isso que comecei dizendo que a montagem é muito difícil. O que tiraria a impressão de leitura? A prosódia, sem dúvida. ela daria aos atores a possibilidade de cruzar os textos, transformar monólogos em diálogos, criar ações verbais, fazer o drama acontecer. 

 

Num momento onde a arte de representar se debruça tão fortemente sobre a neurociência, trabalhando respostas cada vez mais naturalmente funcionais e sendo a peça um fragmento da vida real, eu sugiro um mergulho intenso na magia da prosódia, nas pausas, na musicalidade das nossas intenções. E elas transformarão a tarefa de construir ações dentro da nossa imaginação, numa tarefa de grupo, difícil, em vidas difíceis, em problemas de pessoas, em drama. Em ação, enfim.

 

Deixo o corpo pra Ana Santos.

 

Ana Ribeiro, direção de teatro, cinema e TV

 

 

A peça fala de coisas muito importantes. A importância da nossa saúde e dos sacrifícios que estamos dispostos a fazer por ela sem saber o que vai suceder ou como lidar com o que vai suceder. O que os outros acham que vai ser bom para a nossa saúde, mas pode não ser para nós. A vida de um invisual e o que é melhor e pior numa vida com essas características. A escolha de tratamentos ou cirurgias com interesses mediáticos, de ambição ou de modismos com objetivo de melhorar a qualidade de vida sabendo que pode acontecer ou ficar igual ou ficar pior. A ambição ou “cegueira” profissional, sem sabermos se isso é melhor para nós ou para os pacientes. As frustrações profissionais. O amor. Os casais e a comunicação. Os casais e a felicidade e necessidade de cada um para ser feliz. O nosso passado, a nossa genética, o percurso da saúde dos nossos pais e como isso pesa em nós. Uma peça densa, profunda, forte, dura. Importante!

 

Achei um pouco longa. Não por ser de duas horas. Mas por ser de duas horas, com 3 atores, cada um com seu monólogo extenso e com pouco movimento, ação, gestos, corpo que pudesse ajudar a enriquecer o nosso imaginário.

 

Numa época em que os cenários de peças de teatro, pelo mundo, são cada vez mais simples, espaçosos e pensam em dar o maior espaço possível aos atores, fiquei inquieta quando vi o quanto o palco estava lotado de mobiliário e coisas que ocupavam muito espaço.

 

O ator que faz de marido, tem um corpo lindo, atlético, equilibrado. Parece um Deus grego. Mas saber adequar o corpo ao personagem é o desafio. E, esse jeito de provocar a plateia para o diálogo, bem baiano, ainda me confunde.

 

O figurino e o cenário nem sempre me pareceram sintonizados com o momento e o texto do personagem.

 

A atriz que faz de invisual, tem uma tarefa terrivelmente difícil. Os movimentos de pessoas que não se vêm em movimento são muito característicos. Estranhos. Às vezes feios, tortos, desorganizados, para nós que vemos e pensamos muito em estética. Eles pensam em função. E fazer isso bem, num espaço reduzido, tendo apenas lençóis para dobrar, é obra!

 

O ator que faz de médico tem movimentos que poderiam ser menos marcados, mais fluídos. Iriam ajudar muito ao texto extremamente longo e denso. Colocar uma bebida num copo ou mexer num livro ou arrumar roupa, são movimentos que sendo simples, precisam parecer simples, lógicos.

 

3 excelentes atores, com uma memória invejável, numa peça difícil, com espaço muito reduzido para trabalharem. A dança dos movimentos e gestos com o texto, em espaço pequeno, precisa de uma afinação sobre humana. Algo muito desafiante que nas próximas temporadas já estará mais fluído e orgânico. E o esforço enorme dos atores poderá ser muito mais eficaz e recompensador.

 

Agradecemos à produção a cortesia dos 2 ingressos.

Ana Santos, corpo

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  • portalbuglatino
    Out 5

    Imaginava que veria um show, mas uma coisa tão arrebatadora, dramática e comovente não é show – é espetáculo, é teatro, é drama – já que drama é ação e o tempo inteiro ela nos mergulhou em ação dramática. Como vocês sabem, minha especialidade é voz profissional. O que mais faço na vida é ouvir vozes, é uma rotina e pouca coisa me impressiona. Fiquei aturdida com a capacidade vocal, com a qualidade, com o domínio do som, do ritmo, da intensidade. Ela cantou com microfone, sem microfone, dobrada, em cima de escada, encostando a barriga nos joelhos – vocês sabem onde fica o diafragma? Sabem o nível de interferência que se dobrar sobre o diafragma causa à voz? Nem queria aplaudir. Queria muito mais ouvir. Absorver. Um repertório forte, intenso, incrível e novo – o que diante da mesmice atual da MPB é como respirar ar fresco. Em alguns momentos, aquele jeito tão Caymmi, tão Nana de entrar na frase musical – uma assinatura única, genética. 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Eu, vou lhe agradecer para sempre pela coragem de abrir um caminho, onde outros podemos passar, e que ninguém nunca teve coragem de fazer. O caminho do que as famílias podem destruir em você, se você não estiver atenta. Tem de existir espaço e respeito para todos. Só por que uns têm tudo, têm a aceitação social e familiar e todo o poder, não é justo que os outros, na marra, não possam ter direito a fazer o seu caminho, por estranho que vos possa parecer. Portugal, França, Holanda, Mundo, se esta maravilha da natureza passar por aí e sempre que passar, tentem não perder. Tem tudo para ser cada vez mais surpreendente, cada vez mais impactante. Alice Caymmi, o Bug Latino se encantou com você e com o mundo que você abriu. Vá, por favor vá em frente. Sempre. O Bug e nós aqui estamos também fazendo a nossa parte desse caminho. Um dia, o caminho virará uma estrada e quem sabe menos pessoas ou nenhumas passarão o que você passou e passa, e que nós Bug e nós Ana Santos e Ana Ribeiro precisamos enfrentar. Que a vida de todos possa ser mais verdadeira e feliz. No final, encontrar na plateia uma pessoa tão querida nossa e do Bug Latino como Moacyr Motta, locutor da Rádio Educadora e um excelente fotógrafo, ainda tornou tudo mais mágico e maravilhoso. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a artista Instagram https://twitter.com/alicecaymmi?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor Facebook https://www.facebook.com/AliceCaymmi/ Vagalume https://www.vagalume.com.br/alice-caymmi/ Letras.mus.br https://www.letras.mus.br/alice-caymmi/ Canal Youtube https://www.youtube.com/channel/UC1nVmno6DrahlYB8abBnjXA Allcance Produções http://www.allcancecomunicacao.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    A peça é dividida em três segmentos distintos. Totalmente distintos. Até em ambientes diferentes. Isso mesmo: você inicia a assistência da peça em um lugar, depois vai para outro e em terceiro lugar, ainda outro. A parte um, adorei – com tantos problemas na Amazônia atualmente, achei o paralelo genial. Destaque para Caio Rodrigo e Daniel Farias. Não entendi a participação daquele instrumento australiano numa cena com nativos da América Latina, mas a sonoridade valeu à pena. Na parte dois, embora o conteúdo dramático tenha me agradado demais, perdi muitas falas. Não por falta de dedicação dos atores que estavam em seu máximo de esforço vocal - até acima – mas porque havia muitos ruídos dos instrumentos em cena, competindo com a voz dos atores. Porém, apesar desses problemas, a dor e o sofrimento, a narrativa de execuções foi incrível, assim como a falta de piedade e uma espécie de procedimento de justificativa para a barbárie – outra relação de pensamento super atual com o que estamos vivendo no momento e que parece não afetar a maior parte das pessoas que ligam a TV e consomem crimes, falcatruas, ódio, enquanto manipulam o celular em busca de outras doses de mesmas coisas. A parte três foi onde achei que a voz de todos “estourou”. E por ser parte da minha vida profissional gerir e controlar a emissão vocal das pessoas fiquei mesmo desconcentrada com o tamanho do esforço. Num momento onde há tanto em jogo no Brasil e onde se acumulam conceitos totalmente equivocados sobre heróis e ideologias, Teatro la Independencia aponta um continente muitas vezes desencontrado e que procura definir-se por conceitos e não conviver com harmonia – uma aula diante de interesses políticos, econômicos e individuais a qual estamos submetidos sob as mais diferentes utopias, descritas em verso e prosa – uma aula de que o real desgoverno pode ser nosso, que continuamos seguindo nossas próprias ilusões travestidas de pessoas, personalidades – grande erro. Acima de tudo Teatro la Independencia fala do papel do teatro no mundo, independentemente de quem estiver no poder – o teatro é um espelho humano poderoso, que lá estava neste espetáculo, voltado para as nossas idiossincrasias todas – vamos nos vender totalmente? Há preocupação social real num investidor que pretende apenas retorno financeiro? O teatro pode ser vender a qualquer interesse para sobreviver? Quem responde? Quem ousa responder? ANA RIBEIRO Diretora de teatro, cinema e TV A peça provoca algum desconforto físico ao espectador de forma intencional se movendo constantemente. Procura provocar outros desconfortos ao trazer inquietações e mesmo discussões. Os espaços e imóveis que se alteram de acordo com os donos, a função e o poder do mundo económico. As discussões que tudo isso provoca, as opiniões de cada pessoa, diferentes, parecidas, conciliadoras, conflituosas. Os que discutem, os que observam, os que organizam enquanto uns discutem e outros observam. Os que organizam não perdem tempo, os que observam têm particular motivação para nada fazer e criticar quem faz e os que discutem têm muita dificuldade em terminar as discussões e passar a ação. Achei esta parte da peça particularmente interessante. Também bastante exigente por que para um ator é difícil estar em palco “parecendo que não está”. Muitos atores não conseguem manter o foco sempre. Muitos atores perdem o olhar, o corpo e o envolvimento por não conseguirem se manter nesse espécie de limbo. E é aí que o ator precisa de manter o seu foco mais forte, para que a plateia não perceba momentos em que ele “sai de cena”. Basta um segundo. Talvez todo o corpo possa se manter em cena mas se o olhar muda, ele desmorona toda a construção e esforço. Numa peça que dura 2 horas, isso é muito difícil para um ator. A peça circula constantemente entre essa zona “real” e outros mundos como as discussões sobre os indígenas, sobre o sofrimento histórico dos povos, sobre D. Quixote. Complexa e muito variada. Senti a peça um pouco longa, com muitos assuntos, abordagens ou pontos de vista. Às vezes querer dizer muito pode provocar no espectador alguma confusão no que a peça quer. Tive momentos de dificuldade em entender a dicção de alguns atores, talvez pela rapidez com que falavam. E me pareceu que a emoção da peça se perdeu um pouco por causa disso. Uma peça tipicamente baiana, onde os corpos e as vozes cantam e dançam e se misturam. Movimento, desconstrução, ousadia...isso será sempre Bahia. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-nuremberg Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    Os estudos acadêmicos, o comportamento neutro, absolutamente neutro, afavelmente neutro, dolorosamente neutro dos ingleses consegue apagar o furor, o fogo, a energia de se ver e de ver o mundo através de uma ótica atravessada por uma história africana? Neutraliza-se preconceitos? Como afinal cada um de nós passa por eles para apenas sermos quem somos, sem comparações? Fulana, negra do cabelo bom, Sicrano, branco do cabelo ruim – o que é a qualidade ruim ou bom para cabelo? Exatamente. O que somos, exatamente? Porque, sem este saber exato, qual o fundamento do preconceito? Ah, ok, somos diferentes e a diferença é a marca do preconceito. Mas - quem é igual? Black River mergulha num universo indistinto que tentamos ingenuamente distinguir – a diferença. Num mundo que distingue cada vez mais diferenças, mas não assume uma lógica de igualdades, a peça vem mesmo a calhar. E ver Patrick Campbell para além do ponto de vista de meu colega de classe, no mestrado, foi um presente, uma honra. Uma voz pura, dona de muitos sotaques, acentos melódicos e prosódias, Patrick conta histórias que detém a estranheza de quem somos e nossos pequenos e não percebidos preconceitos cotidianos, colocando-se no lugar de quem viu de onde veio e aponta com clareza – somos quem somos e somos misturados. No Brasil então, é um debate cansado, à medida em que ninguém pode se sentir fundamentado em uma única raça para falar e, assumindo nossa mestiçagem, para quê falar? Com que moral, que raciocínio? Um debate que esgota as nossas reservas de lucidez, sendo estúpido – e por isso mesmo cada vez mais necessário. Há um ponto de partida para a humanidade e ele é miscigenado, caro leitor. Em sua performance, Patrick, branco, olhos azuis, inglês de sentimentos neutros e cabelos encaracolados, aponta seu avô negro, seus tios mestiços e ele – branco, do cabelo “nem tão bom assim”. E ao fazer isso a si mesmo, ao designar-se mestiço, levanta a questão do racismo com determinação e excelente interpretação, com domínio da voz e todos os seus meneios. Uma pena tê-lo visto tão pouco tempo e usufruído de seu trabalho apenas nesta apresentação. Espetáculo imperdível. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Peça falada em inglês e português do Brasil. Vários sotaques, cantos, cânticos e danças africanas, caribenhas. Uma “mescla” de culturas, de línguas, de personagens. Apenas um ator. Patrick Campbell criou uma peça totalmente sua, que inclusive, inclui a sua história. Muito interessante e culturalmente rica. Pouco cenário, pouco figurino, pouca iluminação. Uma peça de produção simples. Eu gosto e admiro atores que fazem peças assim. Julgo que esta forma de teatro, de contador de histórias, de contador da sua própria história é muito importante no momento em que vivemos. Partilhar experiências, partilhar sofrimentos, partilhar a forma de lidar com tudo o que dói ou nos faz feliz pode nos salvar. Nunca nos salvará atacar ou impedir o sucesso do outro, diminuir o que os outros fazem de bem. O Brasil está em ebulição e prestes a explodir por que quase todas as pessoas estão a preferir aumentar os problemas e a preferir destruir para apenas vencer? Vencer o quê? As pessoas têm de se entender. Ou no final de todas as tentativas falhadas, se respeitar e viver cada um a sua vida sem atrapalhar a vida dos outros. O ator conta a sua história, sob o ponto de vista da diversidade de cores de pele, cultura e vida das pessoas da sua família. Uma mistura de escravos, donos de fazendas, etc, etc. Pontos de vista opostos, vidas abonadas e vidas de sofrimento numa mesma família. Injustiças, tragédias, marcas que ficam para sempre nos que vêm depois. O ator de alguma forma tenta mostrar seu sofrimento, sua angústia e parece querer mostrar a todos nós que não adianta ficar preso a mágoas, por maior sofrimento que se tenha passado. Gostei da forma original como confronta a ciência, a investigação, a pesquisa, a cultura, as raízes, a terra. Uma peça que seria bem recebida em Portugal. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-o-outro-lado-de-todas-as-cois Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/

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