portalbuglatino
23 de Set de 2018

Alcione, Setembro de 2018

1 comentários

 

 

 

Bem, sou carioca. E Salvador anda me dando muitas saudades de casa, ultimamente. Alcione não é do Rio? A gente nem lembra que a Mangueira pode estar em toda parte, até no Maranhão! A voz, o jeito malandro-descolado-afetuoso que ela mostra, tudo isso é a cara do Rio, tem a nossa personalidade. A gente, lá em cima, no último degrau da arquibancada, dava a mão pra todos os que subiam e desciam e lembrava que o degrau é muito alto – e é mesmo muito alto descer os degraus, quando a Concha está lotada! – mas estávamos todos juntos, aos milhares, ouvindo, curtindo, cantando e conversando, graças a Alcione.

 

Havia alguma coisa com o som – pelo menos pra quem estava lá no alto, ali ao lado do espaço para pessoas com problemas de locomoção. O som distorcia. Eu mesma não compreendi nada do que Alcione falou. Mas ali, no meio do povão, o que não se ouviu ela cantar, a gente sentiu e ouviu dos vizinhos cantores mais próximos porque música popular brasileira é assim – envolve todo mundo, é uma espécie de magia contagiante que deixa os contornos de todos mais próximos da qualidade que a gente não vê quase em lugar nenhum do Brasil. Mas que se vê ali – Alcione é grande, é tradição, trabalho, carisma, domínio de palco e de público. Organizou o congestionamento de pessoas perto do palco, pediu pra sentar e todo mundo que estava na parte de baixo obedecia a tudo o que ela pedia. Já pensou se ela pedisse pra não jogar papel no chão? E outra pergunta: como a gente, brasileiros que enfrentam e se enfrentam num dia a dia louco e cheio de tiros a mais que veem do lado da polícia e também do lado dos bandidos, nos comportamos assim tão calmamente quando a coisa é boa, mesmo de pé e apertados, apertadíssimos? Será que é porque coisa boa chama coisa boa? Será que é porque sabemos muito bem o que é qualidade e tanto quanto sabemos reconhecer trabalho, quando vemos resultados que se prolongam por décadas de sucessos?

 

Alcione foi tão generosa por passar por uns trinta anos de sucessos, foi tão carinhosa ao cantar a Bahia, lembrar Emílio, a velha guarda e fazer tudo isso com o vozeirão impecável de sempre. A gente só percebia que o tempo tinha passado pra ela quando a cadeira vinha e ela sentava pra descansar os pés porque a garganta estava perfeita como sempre.

 

E ela cantou muito e cantou bem. E fez a Concha inteira entrar em êxtase total, como nunca vi. Olhos fechados, braços estendidos, muitas pessoas pareciam estar olhando para passados, amores perdidos, mágoas que ficaram pra trás, se movendo como se estivessem num culto à lembrança do que Alcione já cantou e marcou na vida de cada um.

 

Quando ela acabou o show da primeira vez, ninguém nem se deu ao trabalho de sair do lugar. E ela voltou e cantou mais uma. Uminha... muito pouco. Minha vizinha de arquibancada falou que com certeza era troca de roupa porque Alcione ainda não tinha autorização do público pra sair, ir embora. É isso ou algo assim – gente boa, competente, não tem autorização pra ir embora. A gente fica logo carente, querendo um pouco mais. Algo que algumas excelentíssimas autoridades insistem em não aprender.

 

Aula de educação cívica, convívio pacífico, simpatia, cuidado, carinho, atenção... tudo em milhares...tanta coisa emocionante eu vi ontem... Foi sensacional, incrível, inacreditável! Quem não foi – que pena – perdeu!

 

Ana Ribeiro, diretora de TV, cinema e teatro

 

Chegue cedo. TCA pode ter 3 eventos em simultâneo. Como hoje. Mais difícil encontrar estacionamento. Vá de Uber ou de Táxi. Adorava poder dizer para ir a pé, mas depende da distância e das ruas que passa. Se for gringo/a não leve celular. Tem muita movimentação em volta do espaço. Causa uma boa sensação mas fique de olho atento porque se vacila fica sem celular. A orgânica depois das obras ficou bem melhor, tudo é muito mais seguro. Mas mesmo assim, fique atento.

 

Ingressos esgotados. Muitas famílias. Muito controle na entrada, muita gente. Ambiente tranquilo no meio de muita gente. Os baianos deviam dar cursos de como se comportar no meio de multidões. E rola pipoca e cerveja. E rola acarajé e cerveja. E rola cerveja. Durante todo o show pessoas sobem sem nada e eu penso que vão embora e lá veem de novo e descem com cerveja, comida. As vozes vão ficando mais desafinadas e dengosas ao longo do show. Você está na Bahia!

 

O mundo mudou. Já não se vive sem registrar o momento. Tudo o que tem valor social, é filmado, fotografado, comentado e postado nas redes sociais. A experiência de assistir a um show na última fila tem um efeito surpreendente. Você vê mais de mil celulares no ar, filmando, tirando fotos. Muito louco. Não tem volta. Você pode até não fazer mas precisa aceitar. E viver com isso. As pessoas viram de costas para tirar fotos de si no show. E estão felizes. Você sente o celular da pessoa que está atrás de você na cabeça quando filma e nas costas quando comenta a filmagem ou a foto. E o mundo está assim, não é só a Bahia.

 

Uma DIVA. Uma noite especial. Uma profissional do palco, do espetáculo. Uma voz extraordinária. Uma forma clássica e elegante de entrar no palco, de beber água, de se sentar, de se despedir. Pertence a um mundo de poucos.

 

Nascida no Maranhão, comentou que se sente soteropolitana (de Salvador). Amada em todo o mundo, com centenas de prêmios, mais de 40 álbuns, 45 anos de carreira. 70 anos de idade. Respeito.

 

O nome do show é “Eu sou a Marrom” porque Alcione é conhecida como Marrom. Não sabia. Gringa!

 

Aprendeu com o pai a tocar instrumentos. Trompete e clarinete foram os instrumentos que a tornaram ainda mais famosa. Em Portugal só conhecíamos sua originalidade com o trompete. E sua personalidade e talento. Impressionante e intimidante de tão “extra ordinária”.

 

Cantou sucessos, proporcionou momentos intensos como quando cantou músicas de um amigo querido – Emílio Santiago. Um cantor incrível que Portugal não conheceu mas que o cantor Beto Narchi canta maravilhosamente. Imaginem Alcione e Beto Narchi cantarem “Saigon”, em dueto. Ia ser incrível. Se está ou vem à Bahia não pode perder um show dele. Obrigatório.

 

É muito impressionante perceber que as letras das suas canções falam de momentos da vida de todos e todos cantam como se pudessem finalmente ter a coragem de dizer o que nunca disseram. “Não posso mais alimentar esse amor tão louco, que sufoco...”; “...Eu acho que paguei o preço por te amar demais, Enquanto pra você foi tanto fez ou tanto faz...”; “...Não me pegue não, não, não, Me deixe à vontade, Deixe eu curtir o Ilê, O charme da Liberdade...”, e tantos outros.

 

Alcione também me lembrou as DIVINAS DIVAS, sua classe. Quem não assistiu ao filme que as recorda, não perca por favor. Precisamos de manter a sua memória.

 

O BUG Latino, agradece a cortesia dos 2 ingressos à Carambola Produções e ao Laboratório da Notícia, respetivamente a Milena, Fernanda Matos e Magy. Muito gratas!!!

 

E, quando for para casa, passe na Mouraria e experimente uma pizza da “Teresa Filósofa”. Você vai enlouquecer!

 

Ana Santos, Jornalista

sonale.teatro
25 de Set de 2018

Deu vontade de assistir ao show da marrom

Posts Mais Recentes
  • portalbuglatino
    Out 5

    Imaginava que veria um show, mas uma coisa tão arrebatadora, dramática e comovente não é show – é espetáculo, é teatro, é drama – já que drama é ação e o tempo inteiro ela nos mergulhou em ação dramática. Como vocês sabem, minha especialidade é voz profissional. O que mais faço na vida é ouvir vozes, é uma rotina e pouca coisa me impressiona. Fiquei aturdida com a capacidade vocal, com a qualidade, com o domínio do som, do ritmo, da intensidade. Ela cantou com microfone, sem microfone, dobrada, em cima de escada, encostando a barriga nos joelhos – vocês sabem onde fica o diafragma? Sabem o nível de interferência que se dobrar sobre o diafragma causa à voz? Nem queria aplaudir. Queria muito mais ouvir. Absorver. Um repertório forte, intenso, incrível e novo – o que diante da mesmice atual da MPB é como respirar ar fresco. Em alguns momentos, aquele jeito tão Caymmi, tão Nana de entrar na frase musical – uma assinatura única, genética. Em outros momentos, cultura musical, o nível de exigência na escolha de repertório que nasce de ouvir pessoas exigentes ouvindo e comentando música. Que espécie de menina é essa? No meio de pessoas iguais, com botox, dentes branqueados, “preenchidas” nas bochechas, nas faces, nas rugas, aparece uma pessoa de cabeça raspada na máquina 2, deliciosamente acima do peso, gritando emocionalmente “sou como vocês, faço parte da vida normal” – só que não – mas quando abre a boca pra cantar, deixa todos com a boca aberta de espanto. Saiu do palco cantando Marilia Medalha e de um jeito tão único que a plateia não teve tempo pra aplaudir, pra pedir bis. Apenas ficamos ali sentados, sem saber muito bem o que dizer uns aos outros. “E aí véi, cadê ela”? – era o que se ouvia em toda parte. Ali ficamos eu e Ana sentadas, cobertas com a nossa “manta Bug”. Quando levantamos, encontramos Moacyr Motta que estava tão surpreso quanto a gente. Nós três ouvintes ávidos de voz. Os três aturdidos com o que ela mostrou. Foi tanto, tanto que é melhor encerrar do mesmo jeito que ela – de repente. Um pouquinho sem fôlego, mas se eu estivesse no palcão do TCA, fazendo o que ela estava fazendo, cantando dois fados à capela, dançando pra Iansã, performando e transformando cada música numa cena na terra do avô, com a mística que ele deixou e cantou aqui, com a força, a tradição, a lembrança que todos temos... bem... quem não perderia levemente o fôlego? ARREBATADORA. Basta isso. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Apenas um pianista num piano de cauda. A partir de meio do show, mais um músico que toca timbau e depois toca pandeiro. Ambos extraordinários. Um cenário minimalista mas de extremo bom gosto que virou um espetáculo, uma performance, um momento de pura viagem ao interior de cada um que estava na plateia. E o final do show, inusitado, original e inovador. Alice Caymmi é uma artista arrebatadora. Estava no show pensando que, se seu avô, Dorival Caymmi tivesse nascido e vivido nesta época e vivido o que ela viveu, seria igual. Estava pensando que ela é tão surpreendente e fabulosa agora, como seu avô foi na sua época. Bonita, com um sorriso encantador e uma voz....uma voz... Percebem-se as mágoas, as dores, a travessia difícil que fez. Que faz e que fará. E ficamos impressionadas pela sua capacidade: de enfrentar tudo isso, de romper com o instalado, de querer ser quem quer ser, independentemente das vontades alheias ou mais próximas. Como comentou Mariela Brito, a maravilhosa atriz cubana numa entrevista que brevemente sairá no Bug, cada um nasceu para ser o que tem de ser, não o que os outros acham ou dizem para ser. E nos “outros”...coloque quem você quiser...por que tudo que não é você, são os outros. “As palavras são instrumentos de cura” (Alice Caymmi). Como se pode agradecer a uma artista ao, no palco, “exorcizar” as suas dores e as nossas? Não somos Caymmi’s, mas às vezes tudo é tão igual. Principalmente a dor, a incompreensão e a travessia. Principalmente quando se institui que você será, ou não será “alguém” de acordo com os desejos de terceiros. Os que tiveram a vida tranquila, serena e “embalada”, normalmente são muito tranquilos. Por que seriam de outra forma? Mas, e se tivessem tido obstáculos, vários, imensos, dolorosos? E olhares duvidosos sobre o seu caminho? Talvez tivessem sido agressivos, antissociais, etc... até ridículos. Ai, vida, vida... É tão fácil falar e tão fácil apontar quando tudo nos é fácil e tudo nos é oferecido. Em cada palavra, cada som, cada performance, Alice é diferença, é impacto, é terapia. Ainda bem que não foi para o caminho fácil do “negócio” musical. Teve uma educação musical e vocal de excelência, conhecimento cênico fora da “caixa” e amadureceu com o sofrimento e, graças a Deus optou por fazer algo que construa, que faça a diferença. Eu, vou lhe agradecer para sempre pela coragem de abrir um caminho, onde outros podemos passar, e que ninguém nunca teve coragem de fazer. O caminho do que as famílias podem destruir em você, se você não estiver atenta. Tem de existir espaço e respeito para todos. Só por que uns têm tudo, têm a aceitação social e familiar e todo o poder, não é justo que os outros, na marra, não possam ter direito a fazer o seu caminho, por estranho que vos possa parecer. Portugal, França, Holanda, Mundo, se esta maravilha da natureza passar por aí e sempre que passar, tentem não perder. Tem tudo para ser cada vez mais surpreendente, cada vez mais impactante. Alice Caymmi, o Bug Latino se encantou com você e com o mundo que você abriu. Vá, por favor vá em frente. Sempre. O Bug e nós aqui estamos também fazendo a nossa parte desse caminho. Um dia, o caminho virará uma estrada e quem sabe menos pessoas ou nenhumas passarão o que você passou e passa, e que nós Bug e nós Ana Santos e Ana Ribeiro precisamos enfrentar. Que a vida de todos possa ser mais verdadeira e feliz. No final, encontrar na plateia uma pessoa tão querida nossa e do Bug Latino como Moacyr Motta, locutor da Rádio Educadora e um excelente fotógrafo, ainda tornou tudo mais mágico e maravilhoso. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a artista Instagram https://twitter.com/alicecaymmi?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor Facebook https://www.facebook.com/AliceCaymmi/ Vagalume https://www.vagalume.com.br/alice-caymmi/ Letras.mus.br https://www.letras.mus.br/alice-caymmi/ Canal Youtube https://www.youtube.com/channel/UC1nVmno6DrahlYB8abBnjXA Allcance Produções http://www.allcancecomunicacao.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    A peça é dividida em três segmentos distintos. Totalmente distintos. Até em ambientes diferentes. Isso mesmo: você inicia a assistência da peça em um lugar, depois vai para outro e em terceiro lugar, ainda outro. A parte um, adorei – com tantos problemas na Amazônia atualmente, achei o paralelo genial. Destaque para Caio Rodrigo e Daniel Farias. Não entendi a participação daquele instrumento australiano numa cena com nativos da América Latina, mas a sonoridade valeu à pena. Na parte dois, embora o conteúdo dramático tenha me agradado demais, perdi muitas falas. Não por falta de dedicação dos atores que estavam em seu máximo de esforço vocal - até acima – mas porque havia muitos ruídos dos instrumentos em cena, competindo com a voz dos atores. Porém, apesar desses problemas, a dor e o sofrimento, a narrativa de execuções foi incrível, assim como a falta de piedade e uma espécie de procedimento de justificativa para a barbárie – outra relação de pensamento super atual com o que estamos vivendo no momento e que parece não afetar a maior parte das pessoas que ligam a TV e consomem crimes, falcatruas, ódio, enquanto manipulam o celular em busca de outras doses de mesmas coisas. A parte três foi onde achei que a voz de todos “estourou”. E por ser parte da minha vida profissional gerir e controlar a emissão vocal das pessoas fiquei mesmo desconcentrada com o tamanho do esforço. Num momento onde há tanto em jogo no Brasil e onde se acumulam conceitos totalmente equivocados sobre heróis e ideologias, Teatro la Independencia aponta um continente muitas vezes desencontrado e que procura definir-se por conceitos e não conviver com harmonia – uma aula diante de interesses políticos, econômicos e individuais a qual estamos submetidos sob as mais diferentes utopias, descritas em verso e prosa – uma aula de que o real desgoverno pode ser nosso, que continuamos seguindo nossas próprias ilusões travestidas de pessoas, personalidades – grande erro. Acima de tudo Teatro la Independencia fala do papel do teatro no mundo, independentemente de quem estiver no poder – o teatro é um espelho humano poderoso, que lá estava neste espetáculo, voltado para as nossas idiossincrasias todas – vamos nos vender totalmente? Há preocupação social real num investidor que pretende apenas retorno financeiro? O teatro pode ser vender a qualquer interesse para sobreviver? Quem responde? Quem ousa responder? ANA RIBEIRO Diretora de teatro, cinema e TV A peça provoca algum desconforto físico ao espectador de forma intencional se movendo constantemente. Procura provocar outros desconfortos ao trazer inquietações e mesmo discussões. Os espaços e imóveis que se alteram de acordo com os donos, a função e o poder do mundo económico. As discussões que tudo isso provoca, as opiniões de cada pessoa, diferentes, parecidas, conciliadoras, conflituosas. Os que discutem, os que observam, os que organizam enquanto uns discutem e outros observam. Os que organizam não perdem tempo, os que observam têm particular motivação para nada fazer e criticar quem faz e os que discutem têm muita dificuldade em terminar as discussões e passar a ação. Achei esta parte da peça particularmente interessante. Também bastante exigente por que para um ator é difícil estar em palco “parecendo que não está”. Muitos atores não conseguem manter o foco sempre. Muitos atores perdem o olhar, o corpo e o envolvimento por não conseguirem se manter nesse espécie de limbo. E é aí que o ator precisa de manter o seu foco mais forte, para que a plateia não perceba momentos em que ele “sai de cena”. Basta um segundo. Talvez todo o corpo possa se manter em cena mas se o olhar muda, ele desmorona toda a construção e esforço. Numa peça que dura 2 horas, isso é muito difícil para um ator. A peça circula constantemente entre essa zona “real” e outros mundos como as discussões sobre os indígenas, sobre o sofrimento histórico dos povos, sobre D. Quixote. Complexa e muito variada. Senti a peça um pouco longa, com muitos assuntos, abordagens ou pontos de vista. Às vezes querer dizer muito pode provocar no espectador alguma confusão no que a peça quer. Tive momentos de dificuldade em entender a dicção de alguns atores, talvez pela rapidez com que falavam. E me pareceu que a emoção da peça se perdeu um pouco por causa disso. Uma peça tipicamente baiana, onde os corpos e as vozes cantam e dançam e se misturam. Movimento, desconstrução, ousadia...isso será sempre Bahia. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-nuremberg Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/
  • portalbuglatino
    Set 30

    Os estudos acadêmicos, o comportamento neutro, absolutamente neutro, afavelmente neutro, dolorosamente neutro dos ingleses consegue apagar o furor, o fogo, a energia de se ver e de ver o mundo através de uma ótica atravessada por uma história africana? Neutraliza-se preconceitos? Como afinal cada um de nós passa por eles para apenas sermos quem somos, sem comparações? Fulana, negra do cabelo bom, Sicrano, branco do cabelo ruim – o que é a qualidade ruim ou bom para cabelo? Exatamente. O que somos, exatamente? Porque, sem este saber exato, qual o fundamento do preconceito? Ah, ok, somos diferentes e a diferença é a marca do preconceito. Mas - quem é igual? Black River mergulha num universo indistinto que tentamos ingenuamente distinguir – a diferença. Num mundo que distingue cada vez mais diferenças, mas não assume uma lógica de igualdades, a peça vem mesmo a calhar. E ver Patrick Campbell para além do ponto de vista de meu colega de classe, no mestrado, foi um presente, uma honra. Uma voz pura, dona de muitos sotaques, acentos melódicos e prosódias, Patrick conta histórias que detém a estranheza de quem somos e nossos pequenos e não percebidos preconceitos cotidianos, colocando-se no lugar de quem viu de onde veio e aponta com clareza – somos quem somos e somos misturados. No Brasil então, é um debate cansado, à medida em que ninguém pode se sentir fundamentado em uma única raça para falar e, assumindo nossa mestiçagem, para quê falar? Com que moral, que raciocínio? Um debate que esgota as nossas reservas de lucidez, sendo estúpido – e por isso mesmo cada vez mais necessário. Há um ponto de partida para a humanidade e ele é miscigenado, caro leitor. Em sua performance, Patrick, branco, olhos azuis, inglês de sentimentos neutros e cabelos encaracolados, aponta seu avô negro, seus tios mestiços e ele – branco, do cabelo “nem tão bom assim”. E ao fazer isso a si mesmo, ao designar-se mestiço, levanta a questão do racismo com determinação e excelente interpretação, com domínio da voz e todos os seus meneios. Uma pena tê-lo visto tão pouco tempo e usufruído de seu trabalho apenas nesta apresentação. Espetáculo imperdível. Ana Ribeiro, diretora de teatro, cinema e TV Peça falada em inglês e português do Brasil. Vários sotaques, cantos, cânticos e danças africanas, caribenhas. Uma “mescla” de culturas, de línguas, de personagens. Apenas um ator. Patrick Campbell criou uma peça totalmente sua, que inclusive, inclui a sua história. Muito interessante e culturalmente rica. Pouco cenário, pouco figurino, pouca iluminação. Uma peça de produção simples. Eu gosto e admiro atores que fazem peças assim. Julgo que esta forma de teatro, de contador de histórias, de contador da sua própria história é muito importante no momento em que vivemos. Partilhar experiências, partilhar sofrimentos, partilhar a forma de lidar com tudo o que dói ou nos faz feliz pode nos salvar. Nunca nos salvará atacar ou impedir o sucesso do outro, diminuir o que os outros fazem de bem. O Brasil está em ebulição e prestes a explodir por que quase todas as pessoas estão a preferir aumentar os problemas e a preferir destruir para apenas vencer? Vencer o quê? As pessoas têm de se entender. Ou no final de todas as tentativas falhadas, se respeitar e viver cada um a sua vida sem atrapalhar a vida dos outros. O ator conta a sua história, sob o ponto de vista da diversidade de cores de pele, cultura e vida das pessoas da sua família. Uma mistura de escravos, donos de fazendas, etc, etc. Pontos de vista opostos, vidas abonadas e vidas de sofrimento numa mesma família. Injustiças, tragédias, marcas que ficam para sempre nos que vêm depois. O ator de alguma forma tenta mostrar seu sofrimento, sua angústia e parece querer mostrar a todos nós que não adianta ficar preso a mágoas, por maior sofrimento que se tenha passado. Gostei da forma original como confronta a ciência, a investigação, a pesquisa, a cultura, as raízes, a terra. Uma peça que seria bem recebida em Portugal. Ana Santos, professora, jornalista Informações sobre a peça https://www.filte.com.br/copia-o-outro-lado-de-todas-as-cois Filte – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia https://www.filte.com.br/

ESPERAMOS SEU CONTATO

+55 71 99960-2226

+55 71 99163-2226

portalbuglatino@gmail.com

  • Facebook - White Circle
  • YouTube - White Circle
  • Tumblr - White Circle
  • Instagram - White Circle