Segredos de Família II

Mais uma história do baú de histórias de família: falo agora como o irmão postiço que foi adotado com documentos feitos de ações leais e amor porque meu sobrenome nunca mudou, minha avó verdadeira morava em frente à casa que me abriu as portas e eu fui e vim de uma casa pra outra, até que fiquei de vez. Ganhei uma familia novinha em folha, cheia de regras rígidas porque "tinha-se que dar uma satisfação e um exemplo à minha outra familia" - a biológica.

 

Com a minha chegada, a familia que me adotou passou de 6, para 7 irmãos. Éramos 9 pessoas, numa casa das antigas, quintal com árvores e espaço. Crescemos ali. Minha irmã/mãe postiça mil vezes me pedia satisfações quando eu fugia pra jogar bola no alto da ladeira, mas era incrível colocar um time com mais meninos, pra quem tinha que subir o morro pra fazer gol no alto da ladeira... 

 

Eram 4 homens que viraram 5 comigo, mais minhas 2 irmãs/mães e os pais de todos. Estranho porque, pra quem perdeu a mãe tão pequeno, com um pai biológico complexo que não sabia nos criar, eu acabei sendo abençoado com pais à mais: minhas duas irmãs e os pais delas, além do meu pai biológico... confuso. Mas totalmente abençoado.

 

Mas quero falar de um irmão em especial. Podia-se dizer  que numa família de 7 irmãos todo mundo brincava muito, os homens saíam, namoravam, falavam... falavam. Engraçado a ação de falar parecer que faz parte da nossa natureza, mas eu tinha um irmão que depois que cresceu, parou de falar. Não porque estava de mal, nem por implicância. Apenas não falava. 

 

Eu - todo super falante, cheio de energia - não admitia aquilo. Eu dormia no mesmo quarto do cara e ele não me dava nem oi, cara... Fiquei azedo com ele, reclamava com quem me perguntava. Afinal, que história era aquela? Como o cara acordava como mudo e dormia como calado? Não dava pra mim. Mas o cara era maravilhoso com as pessoas... E eu noivei, casei e me acostumei com um irmão presente, mas sem falar muito. Na verdade, quase nada. 

 

Talvez porque não falasse quase nunca, meu irmão machucou a boca com a dentadura e não falou com ninguém. Ficou aquela coisa machucando a gengiva, piorou, agravou. Ninguém sabia muito bem quanta dor ele sentiu até chamar um cunhado nosso e mostrar a boca - e foi uma coisa tão impressionante que saímos pra emergência do Souza Aguiar, aqui no Centro do Rio. Eu levei. E fiquei meio dia à espera dele voltar e quando não voltou comecei a ligar para amigos, vizinhos e conhecidos pedindo uma ajuda. Apareceu uma vizinha que era enfermeira que foi ver o que era. Era o pior - câncer. 

 

Bom, meu irmão tinha virado O Homem com a flor na Boca, de Pirandello. E o Souza Aguiar não tratava câncer. Teve que sair de lá e fazer exames no Hospital do Câncer, internar e  operar por lá. 

 

Os cirurgiões tiraram metade da mandíbula, músculos, um pedaço da língua, tendões, nervos. Eu ia visitá-lo no hospital, até que desci pra ver as crianças internadas. Nesse dia, eu pedi pra não voltar porque era muito forte, tudo era muito forte,  as imagens, as fotos mentais, a minha dor de ver meu irmão daquele jeito... Ele concordou.

 

Ele teve alta e sobrinhos, irmãos, nossa mãe fomos esperá-lo lá na casa da ladeira. E ele chegou como um rei chega da guerra - altivo, sem parte do rosto, mas sereno e firme. Deu oi, passou por nós e foi para o quarto. 

 

Fui injusto com o silêncio de meu irmão, não compreendi aquela forma de ser e a confundi com o silêncio do enfrentamento. Aquele que faz a gente ficar de mal, sem olhar, frios. Meu irmão em silêncio cuidava dos meus passarinhos, das plantas da nossa mãe, trabalhava, namorava, consertava tudo na casa da noiva... era silenciosamente ativo e preocupado em ser bom. Eu, vindo daquela família do outro lado da rua, não podia imaginar que haveria silêncio sem distância, sem agressividade e com amor.

 

Só consegui aproveitar os silêncios de meu irmão depois de adulto. Ainda choro quando lembro do tempo que perdi. Mas ele me ensinou a falar o que sinto e a resgatar emoções, mesmo depois dos 70 anos, com filhas e netas. Mas em estando vivo no mundo, me sinto vivo com o corpo inteiro, com a alma inteira e então preciso falar, contar, apontar, compartilhar. 

 

Levei meu irmão, já sem parte da face, ao enterro da noiva. Morte súbita. Coração. Ele ainda estava muito frágil, a família dela que o adorava fugia de seu rosto. Nesse dia eu acalentei suas lágrimas, mais uma vez em silêncio. 

 

Depois do câncer, ele ainda viveu mais alguns anos - talvez uns 5 ou 6 - sempre com a mesma dignidade silenciosa. Eu levava alpiste para os passarinhos, ele dizia que era caro aquele viveiro quase pedindo desculpas por cuidar dos meus passarinhos porque era caro... Ai irmão... Será que falta muito pra eu te alcançar emocionalmente? Te amo.

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