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"Sonho Olímpico" Bug Sociedade


Simone Biles, negra. Simone Biles, perfeita. Rebeca Andrade, negra. Rebeca Andrade, resiliente. É importante marcar o fato de que os heróis não são mais apenas homens e não são mais apenas brancos, mas que ainda falta um bom caminho para que todos os caminhos levem ao sonho olímpico verdadeiro.


Mas afinal, o que é o sonho olímpico? Um lugar onde as pessoas possam ser valorizadas por suas qualidades e não pela influência a que podem ter acesso? Um lugar onde se veja o esforço de superação a cada dia e não, ao contrário do que vemos, um lugar onde se destroem reputações apenas “porque se quer aquele lugar?”. Um lugar, por exemplo, onde eu posso e devo me condoer e me aproximar de uma deputada federal que não tem nada a ver comigo, verdadeiramente nada, a não ser o fato de que é intragável a possibilidade de que uma mulher seja espancada por qualquer motivo? Ou ainda mais: que uma pessoa seja espancada por qualquer motivo.


Um lugar, por exemplo, onde seja inadmissível que qualquer funcionário público se permita entrar no sistema – veja, não estou dizendo que existam regras ou leis externas à pessoa, não – ela mesma sabe, sente que moralmente não pode de nenhuma maneira falsear com a verdade de informações básicas como filiação e atestado de vida de alguém, apenas porque discorda de algo ou alguma coisa – seja forma de viver, pensar, vestir ou falar. Apenas porque é moralmente proibido, internamente proibido, vergonhosamente proibido – se é que a pessoa tem, teve ou terá vergonha na cara.


Simone Biles e Rebeca Andrade, mulheres negras exemplares. Temos milhões de exemplos, mas quero nomear Jaciara: cozinheira, mesmo na pandemia, desenvolveu pratos baianos maravilhosos - sem dendê.


Ana Santos, mulher, branca e exemplar, tenta compreender o motivo pelo qual, ao invés de aprender e trocar conhecimentos, muitas vezes a sociedade tenta lhe impedir de mostra-los. Ana Ribeiro, mulher, mestiça-indígena-brasileira e exemplar, sofre punições por apontar a comunicação não como forma de neblina e mentira, mas como marca de verdade e troca de conhecimentos humanos.


Simone Biles, Rebeca Andrade e Ana Santos participaram das Olimpíadas. Mulheres exemplares, num mundo nada exemplar. Ana Santos esteve em Sydney, 2000 – o povo de Sydney, 2021, está em protesto na rua pelo “direito ao egoísmo de não usar máscara”. Nas Américas de Simone Biles e Rebeca Andrade morreram perto de 1 milhão de pessoas de maus governos – na verdade, péssimos. Ana Ribeiro e Jaciara nunca foram e jamais devem pisar em uma Olimpíada, mas conhecem o sonho, a generosidade e a resiliência necessárias para se sonhar com um mundo onde todos os trabalhos valham os mesmos valores, todas as vidas tenham a mesma importância e todos os mundos levem à civilização. Com muito menos “voltinhas no espaço” enquanto houver fome e falta de vacina, remédio, comida, casa e humanidade.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV


"Sonho Olímpico" Bug Sociedade

São muitos anos de trabalho e dedicação. São muitos sacrifícios, muitas escolhas. Por vezes críticas, risadas, dos que consideram os seus sonhos demais para você. Muita gente te dizendo que não perca tempo tentando coisas que são impossíveis, ou que você não será nunca capaz de obter tudo isso. Pessoas que não entendem. Pessoas que não são capazes de ver a “invisível magia” nos outros. Pessoas que precisam aprender a ver, a desejar, a aceitar que os outros são capazes de coisas grandiosas. E ficar feliz com isso.


Os Jogos Olímpicos são um sistema monstruoso. Um negócio. A maior organização do mundo. Nem tudo é perfeito. Mas é, ainda assim, um dos lugares onde o melhor que o ser humano tem, pode ser visto ou vivido. Desenvolvido. Perpetuado. Onde se faz a conexão do imaginário de criança com a realização humana de um ser adulto. É tão grandioso, que não tem palavras que o possam definir facilmente. Mas o que sente quem deseja, quem tenta, quem acompanha e quem tem a honra de participar é algo que marca para sempre. Mesmo sendo algo muito puro, alguns ficam mais vaidosos, mais egoístas, mais “espertalhões”. Mas mais cedo ou mais tarde, sua alma entenderá o verdadeiro valor do que teve a honra de viver. Vale muito a pena assistir aos comentários dos participantes - atletas, treinadores, árbitros, voluntários - que são tocados pela grandeza da energia dos J.O. (Jogos Olímpicos). Cada um percebe o quanto é pequeno neste universo, aprende a agradecer, aumenta sua vontade de multiplicar essa benção pelos outros, e se tornam seres humanos que se encontram dentro de si na forma mais pura, inocente e verdadeira. Pessoas que entendem e respeitam melhor o sentido da vida a partir dessa experiência.


Este também é um momento muito feliz e mágico dos que apoiaram, dos que sempre acreditaram, dos que caminharam junto. Familiares, amigos e profissionais sempre, sempre, sempre acreditando e sempre presentes.


Depois de uma travessia por vezes demasiado longa, chega o momento de participar nos J.O. e aí chegou a hora de enfrentar o momento imaginado e desejado, de enfrentar o sonho, de se enfrentar. Tentam tudo, tudo, sabendo que serão mais os que ficam sem medalha do que com medalha. Mas todos lutam igual e mesmo para os que não ficam em primeiro, segundo ou terceiro, todos vencem a medalha da “magia do invisível”. A medalha de ir em busca do que sentem que são capazes. Digam os outros o que disserem. Pensem os outros o que pensarem. O que isso interessa mesmo? O que interessa a opinião dos que apenas têm opinião?

Ana Santos, professora, jornalista

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